Esqueça o Algarve em Agosto: A Fuga Chama-se São Vicente
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Esqueça o Algarve em Agosto: A Fuga Chama-se São Vicente

· · São Vicente

Em agosto, o estacionamento da Praia da Marinha enche antes do meio da manhã. A verdadeira fuga fica na costa norte da Madeira: uma praia de calhau onde ninguém monta arraial de guarda-sóis, piscinas de água salgada e bolo do caco quente antes do primeiro mergulho.

Todos os anos, em agosto, repete-se o mesmo ritual. Milhares de carros descem a A2 em direção ao sul, os parques de estacionamento da Praia da Marinha e do Camilo enchem antes do meio da manhã, e quem chega às onze passa mais tempo à procura de lugar do que dentro de água. As toalhas ficam a meio metro umas das outras, os toldos alugam-se a preços que fazem franzir o sobrolho, e o restaurante de peixe que era bom em maio agora tem fila e serviço apressado. O Algarve em agosto continua a ter as falésias douradas e a água mais quente do país. Também tem toda a gente que teve exatamente a mesma ideia que você.

Por isso, este artigo sobre as melhores praias para escapar às multidões em agosto vai fazer uma coisa pouco habitual: vai dizer-lhe para não ir ao Algarve. A melhor praia para fugir de agosto não fica entre Sagres e Vila Real de Santo António. Fica a umas centenas de quilómetros para sudoeste, no meio do Atlântico, na costa norte da Madeira. Chama-se São Vicente, e em pleno agosto consegue-se estar ali de manhã, à beira-mar, a ouvir o som que o calhau rolado faz quando a onda recua. Experimente ouvir isso na Praia da Rocha em agosto.

Porque é que o Algarve perde em agosto

Não é implicância. O Algarve tem praias extraordinárias, e fora da época alta é difícil bater a combinação de areia, falésia e água amena. Mas agosto muda as regras do jogo. Uma praia deixa de ser boa quando é preciso chegar às oito da manhã para garantir estacionamento, quando a caminhada até à areia inclui desviar de famílias inteiras carregadas de material de campismo, e quando o mergulho acontece entre bolas de praia e colunas de música alheia. A qualidade de uma praia em agosto não se mede pela cor da água. Mede-se pelo espaço que sobra à sua volta.

E é aqui que a costa norte da Madeira ganha por desistência do adversário. Enquanto a costa sul da ilha, do Funchal ao Calheta, também recebe a sua dose de verão cheio, o norte mantém uma escala completamente diferente. São Vicente é uma vila encaixada num vale verde que desce das montanhas até ao mar, com uma frente atlântica de pedra vulcânica escura, meia dúzia de cafés e uma igreja no centro. Em agosto está mais animada do que em janeiro, claro. Mas 'animada' aqui significa mesas ocupadas na esplanada, não guerra de toalhas.

A praia: calhau, não areia, e ainda bem

Comecemos pela gestão de expectativas: a Praia de São Vicente não tem areia. Tem calhau rolado, aquelas pedras escuras e arredondadas que o Atlântico poliu durante milénios, e é exatamente isso que a salva. O calhau desencoraja o turismo de acampamento diário. Ninguém monta ali um arraial de guarda-sóis e geleiras para oito horas. As pessoas vêm, nadam, secam ao sol em cima da toalha ou de uma esteira, e vão-se embora. O resultado é uma praia que respira, mesmo em pleno agosto.

Dois conselhos práticos que fazem toda a diferença. Primeiro: traga sapatos de água. Caminhar sobre calhau descalço é um exercício de humildade que ninguém precisa de fazer duas vezes. Segundo: respeite o mar. Isto é o Atlântico norte da Madeira, não a Ria Formosa. Nos dias calmos a água é limpíssima e o banho é uma maravilha, mais fresca do que no Algarve mas perfeitamente nadável no verão. Nos dias de ondulação forte, fique a olhar. A costa norte não negoceia.

Vale a pena, já agora, caminhar até à foz da ribeira, onde uma capela minúscula está encaixada num penedo à beira-mar, construída no final do século XVII. É o tipo de detalhe que resume São Vicente: em vez de um beach club com DJ, uma capela do tamanho de uma despensa metida dentro de uma rocha.

Quando o mar manda: as piscinas do Clube Naval

E quando o Atlântico decide que hoje não há banhos? É para isso que existe o Complexo Balnear do Clube Naval de São Vicente, mesmo ali na frente-mar. Piscinas de água salgada com o oceano a rebentar do outro lado do muro, zona para estender a toalha, e a sensação rara de nadar em segurança enquanto se vê o mar bravo a dois metros. É a solução madeirense clássica para uma costa que não perdoa, e funciona lindamente. A entrada é acessível e os horários variam com a época, por isso confirme localmente antes de ir. Num dia de agosto com o mar mexido, é aqui que os locais estão. Siga-os.

O pequeno-almoço decide o dia

Uma manhã de praia em São Vicente começa numa padaria, e a vila, para o seu tamanho, está surpreendentemente bem servida. A Padaria do Calhau fica na zona do Calhau, o nome que os locais dão à frente-mar, e é a paragem óbvia antes de descer às pedras: pão ainda quente, bolo do caco, café curto e conversa de balcão. Se preferir sentar-se com calma, a Coffee House serve o galão e a torrada sem pressa nenhuma, que é precisamente o ritmo certo para quem veio fugir de agosto. E a Corvopan completa o trio das padarias com vitrine de pastelaria para abastecer a mochila de praia. O meu conselho: bolo do caco com manteiga de alho a qualquer hora do dia. É a resposta da Madeira à sandes de praia, e ganha à baguete algarvia de courato por knockout.

Ao almoço, procure lapas grelhadas com manteiga, alho e limão em qualquer restaurante da frente-mar. É o prato que faz mais sentido a dez metros do mar de onde saíram, e custa uma fração do que pagaria por marisco numa esplanada de Vilamoura em agosto.

A praia alternativa fica na floresta

Eis uma verdade que o Algarve não pode oferecer: em São Vicente, quando o corpo já teve sol suficiente, a alternativa à praia fica a minutos de carro e é uma floresta com vinte milhões de anos. A Levada do Rei leva-o pela laurissilva adentro até ao Ribeiro Bonito, num percurso maioritariamente plano ao longo do canal de água, debaixo de um teto de loureiros e tis. Em agosto, quando a costa sul da ilha aquece, aqui em cima a temperatura desce vários graus e o ar cheira a musgo e terra molhada. Leve calçado com aderência e água, e conte com meio dia entre ida e volta. É o par perfeito da praia: sal de manhã, floresta à tarde.

Se as levadas lhe souberem a pouco, há mais ilha para caminhar: já escrevemos sobre os trilhos essenciais à volta do Funchal, muitos dos quais funcionam igualmente bem no verão, sobretudo de manhã cedo.

Se tiver sorte com o calendário

O norte da Madeira tem uma tradição que o distingue de qualquer resort: o arraial. Se a sua visita coincidir com o Arraial dos Lameiros, nos sítios altos acima da vila, cancele o que tiver marcado. Espetada em pau de louro assada ao ar livre, poncha servida sem cerimónias, bailinho até tarde e uma povoação inteira na rua. As datas variam de ano para ano, por isso confirme localmente, mas se apanhar a festa vai perceber porque é que o verão do norte da Madeira não precisa de discotecas de espuma.

Logística sem drama

Chegar a São Vicente é ridiculamente fácil para um sítio que parece tão longe de tudo. Do Funchal, a via rápida e os túneis põem-no na vila em cerca de meia hora a quarenta minutos de carro, via Ribeira Brava. Há autocarro, mas as frequências são escassas: alugue carro, que na Madeira é meio caminho andado para tudo. Alguns pontos práticos:

  • Sapatos de água para o calhau. Não é opcional, é dignidade.
  • Mar mexido? Vá direto ao complexo balnear do Clube Naval e não perca tempo.
  • Protetor solar mesmo com nuvens: o norte engana, e o sol atlântico não perdoa.
  • Dinheiro trocado para as padarias e para o café. Nem todos os sítios pequenos aceitam cartão sem valor mínimo, confirme localmente.
  • Manhãs para o mar, tardes para a levada ou para as Grutas de São Vicente, os tubos de lava que são o programa de dia de chuva por excelência.

Se quiser esticar a fuga, a costa norte continua: o Seixal e a sua praia de areia negra ficam a poucos minutos para oeste, e as piscinas naturais de Porto Moniz fecham o percurso, embora estas últimas já tenham sido descobertas pelas excursões, portanto vá cedo. Para leste, Santana merece um dia inteiro, e temos um roteiro de 24 horas em Santana pensado exatamente para esse ritmo.

O veredicto

As melhores praias para escapar às multidões em agosto não são as que aparecem nas listas das dez praias mais bonitas de Portugal, porque essas listas são precisamente o mapa que as multidões seguem. São as praias onde o estacionamento é um pormenor e não uma batalha, onde o pequeno-almoço vem de uma padaria com nome de freguesia, e onde o plano B de um dia de mar bravo é uma piscina de água salgada ou uma floresta milenar. São Vicente cumpre os três critérios sem esforço. O Algarve que espere por setembro. Agosto é do norte da Madeira.

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