São Vicente Para Lá da Estrada: Aldeias e Poios da Madeira
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São Vicente Para Lá da Estrada: Aldeias e Poios da Madeira

· · São Vicente

Noventa minutos não chegam para São Vicente. Suba a estrada para o Rosário, beba poncha de mel de cana, e descubra os poios que esculpem a encosta norte da Madeira como degraus de gigante.

A maioria dos visitantes da Madeira faz o mesmo movimento em São Vicente: estaciona junto às Grutas, fotografa a igreja branca encaixada na ribeira, almoça uma espetada e segue para o Porto Moniz. Total: noventa minutos. É um erro. Não porque o centro de São Vicente seja desinteressante, é encantador, mas porque a verdadeira freguesia começa quando se vira as costas ao mar e se aponta o carro para cima, para os caminhos sinuosos que sobem entre os poios, aqueles socalcos de pedra basáltica que talham a encosta como degraus de gigante.

Este é um guia para quem quer ficar mais do que noventa minutos. Para quem percebeu que a costa norte da Madeira não é um destino de drive-through, e que São Vicente, especificamente, recompensa quem se atreve a sair da ER-101.

Primeiro, o briefing rápido

São Vicente fica na costa norte da Madeira, a cerca de 55 minutos do Funchal pela via rápida (VR1 + VE4). De carro próprio ou alugado, é simples. De transportes públicos, a Rodoeste tem ligações diárias mas pouco frequentes, confirme horários localmente antes de planear o dia. Bilhete de autocarro Funchal-São Vicente ronda os 5 a 6 euros por viagem, o aluguer de carro pequeno em época baixa fica em 25 a 35 euros por dia. Vá de carro. A liberdade que isso dá nesta freguesia é incomparável.

O tempo aqui é uma criatura imprevisível. A costa norte apanha mais nuvens e chuva do que a sul, é a regra clássica da Madeira. Saia do Funchal com 22 graus de sol e chegue a São Vicente com 16 e bruma. Leve sempre uma camisola e um corta-vento, mesmo em julho. E mesmo que esteja nevoeiro à chegada, suba na encosta: muitas vezes o tecto de nuvens fica nos 400 metros e acima dele há sol limpo.

O ponto de partida: o centro de São Vicente

A Igreja Matriz de São Vicente, com a sua fachada caiada e a torre encostada à rocha, é o postal habitual. Cumpra o ritual, fotografe, entre, admire o tecto pintado, e siga em frente. O centro tem quatro ou cinco cafés decentes, todos com pastel de nata aceitável e bica a 80 cêntimos. O meu preferido para um pequeno-almoço sem cerimónias é qualquer um com vista para a ribeira, peça uma malassada se for sábado de manhã, é quando saem mais frescas.

Antes de subir para o interior, há uma paragem que vale o desvio: o Complexo Balnear do Clube Naval de São Vicente. Não espere uma piscina turística com palmeiras. É um complexo modesto, encostado às rochas pretas da Fajã da Areia, com piscina de água salgada e acesso ao mar. No verão, é onde os locais vêm em vez de fingirem que gostam das praias da costa sul. A entrada é simbólica, traga toalha, óculos de sol e paciência se for fim de semana de agosto.

Subir aos poios: o que são e porque importam

Os poios são a obra de arte invisível da Madeira. Cada metro de terreno cultivável nesta ilha vulcânica foi conquistado à pedra, mão a mão, ao longo de séculos. Em São Vicente, o sistema de poios estende-se da costa até quase aos 800 metros de altitude. Conduza pela estrada que vai para o Rosário, ou pelos caminhos antigos que cruzam Boaventura e Ponta Delgada, e verá o desenho geométrico dos socalcos riscando a encosta.

O que se cultiva aqui? Vinha de americano e jaquet (as castas humildes que dão o vinho de mesa madeirense), batata-doce, inhame, couves portuguesas, e nas zonas mais baixas alguma vinha nobre que vai para os produtores de vinho Madeira. As levadas que regam estes campos são uma rede de canais que merecem capítulo à parte, e se quer começar a perceber este universo, o nosso guia das levadas essenciais para Abril dá uma boa introdução, mesmo que se foque mais na zona do Funchal.

O caminho para o Rosário

Da rotunda central de São Vicente, siga para a Igreja do Rosário (Sítio do Rosário). A estrada sobe rapidamente, ganhando altitude em curvas apertadas. Aos 400 metros, pare onde houver berma. As vistas para o vale são daquelas que justificam o aluguer de um carro mesmo se não gosta de conduzir em montanha.

O Rosário em si é uma freguesia minúscula, alguns cafés de aldeia, uma igreja branca, e uma sensação clara de que o tempo aqui anda mais devagar. É o tipo de sítio onde, se entrar num café e pedir uma poncha, o homem atrás do balcão vai querer saber de onde é, o que está a fazer aqui, e se já provou as suas. A poncha do Rosário, feita com mel de cana e limão da terra, é a versão honesta do cocktail que no Funchal ganhou demasiados sabores artificiais. Cinco euros, copo cheio, atenção que sobe à cabeça com a altitude.

O que comer (e onde não perder tempo)

Vou ser directo: o turismo gastronómico em São Vicente concentra-se em meia dúzia de restaurantes na rua principal que servem espetada em pau de loureiro razoável, milho frito industrial, e bolo do caco que vem congelado. Não são desastrosos, mas também não são o motivo para vir até aqui.

O que procurar, e perguntar a quem souber, é uma casa de pasto pequena, sem tradução de menu em inglês, onde se serve carne em vinha-d'alhos no domingo, sopa de trigo durante a semana, e onde o vinho vem em jarro. Estas casas existem, mudam, abrem e fecham conforme as gerações, e parte da graça é descobri-las por conversa com locais. O conselho prático: pergunte no café onde tomar o pequeno-almoço onde almoça o pessoal das obras às 12h30. Essa é sempre a melhor pista.

Pratos a procurar:

  • Carne em vinha-d'alhos com bolo do caco no domingo (alho, vinho, louro, marinada de dois dias, frita em pingo).
  • Sopa de trigo, prato de inverno, com courgette, abóbora, feijão e couve.
  • Filete de espada preto com banana e maracujá. Sim, soa estranho. Funciona.
  • Bolo de mel cortado à mão, não de fábrica.
  • Nicolaus de funcho, doce de Natal, mas algumas casas fazem o ano todo.

O Arraial: a melhor altura para vir

Se pode escolher quando visitar São Vicente, escolha agosto. Especificamente, o fim de semana do Arraial dos Lameiros, a festa mais autêntica do norte da Madeira. Não é um festival turístico de marketing, é a festa que os locais fazem para os locais, e que aceita os visitantes que aparecem com humildade e fome.

O arraial enche os Lameiros de luzes, bandas filarmónicas, espetadas a serem grelhadas em fogareiros improvisados ao ar livre, milho frito acabado de fritar (a diferença é abismal), e poncha por todo o lado. Vá de tarde, fique até de madrugada, durma no carro se preciso, ou reserve um quarto numa quinta com seis meses de antecedência. Nessa altura tudo enche.

Outros marcos do calendário

Junho na Madeira é todo do Funchal, com festivais de jazz, atum, e a Festa da Sé. Se vai estar na ilha em junho e quer combinar a costa norte com a sul, leia o nosso roteiro de Funchal em junho. Em São Vicente, junho é mais discreto, mas é mês excelente para caminhar, dias longos, temperaturas amenas, menos chuva.

Janeiro tem o mar mais bravo do ano. Vá ver as ondas rebentarem no calhau da Fajã da Areia. Cinco minutos de vista valem a viagem inteira, e depois entra-se num café para uma poncha quente, uma especialidade pouco conhecida fora da ilha.

Para combinar com Santana

São Vicente e Santana ficam a 25 minutos de carro um do outro pela ER-101 (a estrada cénica antiga, mais lenta) ou pela VE2 (mais rápida). Se está a fazer a costa norte, faz sentido combinar as duas. Os palheiros de colmo de Santana são o icon turístico, mas há mais para fazer no concelho do que tirar a fotografia obrigatória. O nosso guia 24 horas em Santana tem o roteiro detalhado para um dia bem aproveitado.

Onde dormir

Esqueça hotéis grandes, eles concentram-se na zona do Funchal e do Porto Moniz. Em São Vicente, as melhores opções são quintas rurais e casas de aldeia recuperadas. Procure por turismo de habitação ou agroturismo nas zonas do Rosário, Boaventura e Ponta Delgada. Preços rondam os 70 a 120 euros por noite em época baixa, 100 a 180 em alta. Reserve cedo se vai em agosto.

Algumas dessas casas têm os tais poios mantidos, vinha, oliveiras antigas, e o pequeno-almoço inclui mel da casa, queijo de cabra do vizinho, e pão cozido em forno de lenha. É o tipo de experiência que fica na memória mais do que qualquer hotel de cinco estrelas em Câmara de Lobos.

Conselhos práticos finais

  • Combustível: encha o depósito no Funchal ou em Santana antes de subir para o interior. As bombas em São Vicente são poucas e fecham cedo.
  • GPS: confie, mas confirme. Algumas estradas marcadas como vias normais são de facto caminhos de servidão de poios. Se a estrada estreitar até dois metros de largura, considere recuar.
  • Roupa: layers. Sempre. Casaco impermeável vale ouro mesmo em verão.
  • Caminhada: ténis com piso decente chega para a maioria dos passeios curtos. Para levadas longas, botas de caminhada e bastões.
  • Língua: o português daqui tem sotaque carregado. Se for português continental, pode precisar de pedir para repetir. Faça-o sem vergonha, é parte da viagem.

São Vicente não é um destino de carimbo no passaporte. Não há pirâmides, não há catedrais góticas, não há Michelin com três estrelas. O que há é uma freguesia onde a paisagem foi construída à mão durante quinhentos anos, onde se come bem por pouco se souber onde, e onde uma tarde a conduzir entre poios faz mais pela alegria de viver do que uma semana num resort. Suba a estrada. Pare onde quiser. Beba a poncha. Volte mais tarde do que pensava. É assim que se faz.

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