Complexo Balnear do Clube Naval de São Vicente
São Vicente
Calhau escuro, ondas de noroeste e um passeio marítimo de 620 metros entre o Varadouro e a Baía dos Juncos. A praia da costa norte da Madeira que se conhece pelas botas e não pelas chinelas. Venha pelo prato do dia, fique pelo som do mar.
A Praia de São Vicente não é uma praia de postal. É uma faixa de calhau rolado no fundo de uma garganta basáltica, onde o Atlântico chega com a força de quem viajou três mil quilómetros sem parar. Está na ponta sul da freguesia de São Vicente, no fim da Estrada Regional 101 (9240-225), onde a vila desce até ao mar e a ribeira desagua entre dois penhascos negros. Se chegou à Madeira à espera do azul calmo do Funchal, esqueça. Aqui o mar é cinzento na maior parte do ano, espuma branca e ondas que partem de lado, perfeitas para quem traz prancha e teimosia.
Estamos na costa norte, a cerca de 55 minutos do Funchal pela Via Rápida (VR1) e túneis da Encumeada, ou uns 40 minutos de Machico pela vertente nordeste. O acesso final faz-se pela ER101, que atravessa a vila de São Vicente em direção à foz da ribeira. Há estacionamento gratuito junto ao complexo balnear, mas a meio de agosto, ao domingo, esqueça: chegue antes das 11h ou conte com voltinhas. De autocarro, a Rodoeste tem ligações diárias do Funchal, mas a frequência é o que é, confirme diretamente os horários antes de subir a serra.
Quem vem de carro, faça um favor a si mesmo: não venha pela autoestrada. Suba pela velha estrada do Paul da Serra, atravesse o planalto, desça pela Encumeada e entre em São Vicente pelo vale. A vista vale o desvio de meia hora.
A praia em si tem uns 200 metros de calhau escuro, daquele que aquece a sola dos pés em julho e exige sandálias. Não é praia de toalha estendida e livro. É praia de surfistas, bodyboarders, e madeirenses que vêm respirar mar bravo ao fim da tarde. As ondas funcionam melhor com swell de noroeste e maré média, e há uma comunidade pequena mas séria de locais que conhece cada baixio. Se nunca surfou aqui, observe primeiro durante meia hora. O mar é generoso com quem tem respeito e mesquinho com quem não tem.
Bandeiras vermelhas são comuns no inverno. No verão, mesmo com bandeira verde, as correntes laterais existem. Crianças pequenas: nem pensar dentro de água. Para isso, suba a costa cinco minutos e procure as piscinas naturais.
O ponto de gravidade aqui não é a areia, é o complexo balnear gerido em parceria com o clube náutico local. Há um Complexo Balnear do Clube Naval de São Vicente com solário cimentado, restaurante, bar, balneários e acesso facilitado ao mar por escadas, o que para os 60+ faz toda a diferença. O bar serve a poncha decente, a sandes de carne de vinho e alhos cumpre, e o prato do dia ronda os 10 a 14 euros. Não se iluda: não é alta cozinha, é casa de praia honesta. Peça peixe se houver peixe fresco do dia. Salte os pratos de massa.
Mas a obra que merece o desvio é o passeio marítimo de 620 metros que liga o Varadouro à Baía dos Juncos. É uma das melhores caminhadas curtas da costa norte: asfalto novo, guarda-corpos sólidos, túneis escavados na rocha, e uma sucessão de miradouros sobre cabos verticais de basalto onde o mar bate com som de tambor. Faça-o ao fim da tarde, com luz lateral, e leve uma jaqueta corta-vento mesmo em agosto. O vento na costa norte tem opinião própria.
Os melhores meses são maio, junho e setembro. Tempo estável, ondas razoáveis, complexo aberto, e nem turistas a mais nem locais a menos. Julho e agosto enchem ao fim de semana, particularmente em dias de regata ou prova de bodyboard. O inverno, de novembro a março, é dramático e fotograficamente espetacular, mas o complexo funciona em horário reduzido, confirme antes de subir. Os horários oficiais variam por época, e a praia em si está acessível 24 horas, mas o restaurante e os balneários têm vida própria.
Custo: praia gratuita, complexo balnear com preço simbólico de entrada na época alta (símbolo €). Aceitam Multibanco no bar. Casas de banho públicas e duches existem, mas no inverno alguns serviços fecham. Não há aluguer de espreguiçadeiras decente: traga toalha grossa para o calhau.
Faça do dia uma travessia, não uma visita só à praia. De manhã, suba ao centro da vila e veja a Capela de Nossa Senhora de Fátima, escavada na rocha junto à ribeira: cinco minutos, fotografia obrigatória. Depois almoço no complexo e tarde de passeio marítimo. Para quem fica mais tempo, recomendo o São Vicente Para Lá da Estrada: Aldeias e Poios da Madeira, que sobe pelas levadas até aos socalcos onde ainda se cultiva a inhame e o feijão pequeno.
Quem viaja com miúdos faz melhor em ler o São Vicente: O Norte da Madeira em Família, entre o Basalto e o Loureiro antes de planear, porque a costa norte tem rotinas próprias que não combinam bem com a rigidez de horários infantis. E para quem está em modo arquitetura e arte, dê uma volta com o O Novo Brutalismo do Norte: Design e Arte Contemporânea em São Vicente: o próprio passeio marítimo é uma peça desse vocabulário, betão e basalto.
Vale, mas não pelos motivos errados. Se procura praia de banho longo e tranquilo, atravesse a ilha para a Calheta ou Machico. Se procura entender a Madeira que ainda é Atlântico bruto, com pescadores que sabem o nome de cada rocha e surfistas que telefonam uns aos outros às seis da manhã quando o swell entra, então São Vicente é o sítio. Venha pelo passeio, fique pelo prato do dia, e volte ao fim da tarde para ver o sol cair atrás do penhasco oeste. Mais informação oficial em visitmadeira.com.