Onde Comem os Locais em Santiago do Cacém
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Onde Comem os Locais em Santiago do Cacém

· · Santiago do Cacém

Santiago do Cacém está demasiado longe da praia para os menus de polvo a 22 euros e demasiado perto do mar para viver só de porco preto. Eis onde a gente da terra almoça à terça-feira, o que pedir e como evitar as armadilhas das estradas.

Santiago do Cacém tem um problema de identidade gastronómica, e isso é uma boa notícia para quem come. Está demasiado longe da praia para ser refém das ementas de polvo a 22 euros que infestam Vila Nova de Milfontes no verão, e demasiado perto do mar para se contentar só com o porco preto da serra. O resultado é uma cozinha de fronteira: o Alentejo de barro e azinheira encontra o Atlântico a meia hora de carro. Quem souber ler o terreno come muito bem, e por pouco dinheiro. Quem se deixar levar pela primeira esplanada com chapéus de sol coloridos paga caro por comida que esquece à saída.

Vou ser direto: este não é um guia de restaurantes com estrelas. É um mapa de onde a gente da terra se senta ao almoço de terça-feira, o que pede, e como evitar os erros que os fins de semana de Lisboa cometem religiosamente. Se vai subir a colina até Miróbriga ou ao castelo, traga apetite. Vai precisar dele.

Comece pela barriga, não pelo monumento

O instinto do visitante é despachar a cultura primeiro e comer depois. Em Santiago do Cacém, faça ao contrário. A cidade vive de horários de almoço sérios: por volta do meio-dia e meia, as casas que valem a pena enchem-se de gente de fato-macaco, funcionários da câmara e reformados que conhecem o cozinheiro pelo nome. À uma e meia já não há mesa. Às três, a cozinha fechou e o que sobrou foi para o cão.

A regra de ouro no Alentejo litoral: se o prato do dia está escrito à mão num quadro e muda todos os dias, sente-se. Se há fotografias plastificadas dos pratos na ementa, levante-se e vá embora. Esta cidade é pequena o suficiente para que a má comida não sobreviva muito tempo, mas grande o suficiente para que algumas armadilhas de passagem persistam junto às vias mais movimentadas. Afaste-se das rotundas de entrada e procure as ruas do centro histórico, onde os preços descem e a qualidade sobe.

O que pedir: a cozinha que não engana

Há pratos que em Santiago do Cacém se fazem como deve ser, e outros que só existem para turistas. Saiba a diferença.

As sopas que são refeições

A açorda alentejana é o teste decisivo de qualquer casa. Feita com pão duro, água a ferver, alho esmagado no almofariz, coentros frescos a rasgar e um ovo escalfado por cima, custa cêntimos a produzir e revela tudo sobre quem a faz. Se vier aguada e sem coentros, a cozinha não se importa. Se vier densa, perfumada e com o azeite a boiar, está em boas mãos. Peça-a como entrada partilhada por dois e o almoço já valeu a pena por menos de cinco euros por pessoa.

A sopa de cação é a outra grande sopa da região, e aqui a proximidade do mar faz diferença. O cação (um tubarão pequeno) é cozido com uma base de alho, coentros, vinagre e pão. É azeda, é forte, divide opiniões, e é absolutamente do litoral alentejano. Beba um copo de vinho branco fresco com ela e perceberá porque é que os pescadores de Sines a comem ao pequeno-almoço depois de uma noite no mar.

A carne de porco e o resto

A carne de porco à alentejana, com amêijoas, é o casamento improvável que define a região: carne de terra e marisco no mesmo prato. Bem feita, com as amêijoas a abrir no tacho e batatas fritas aos cubos a absorver o molho, é uma das melhores coisas que vai comer em Portugal. Mal feita, é porco seco com amêijoas de saco. Pergunte se as amêijoas são frescas; a resposta e a cara de quem responde dizem-lhe tudo.

As migas, o ensopado de borrego e o porco preto da bolota aparecem em quase todas as ementas, e com razão. O porco preto criado em montado de azinheira tem outra gordura, outro sabor; peça a presa ou a secretos grelhados, simplesmente com sal grosso, e não estrague com molhos. Para os corajosos, a carne de porco com migas de pão ou de espargos é o almoço de inverno que justifica uma sesta a seguir.

O peixe, quando há

Estando a meia hora de Sines e do porto de pesca, há dias em que o peixe fresco vale mais a pena do que a carne. Não é garantido, e é por isso que a pergunta certa ao empregado é sempre: o que veio fresco hoje? Carapau grelhado, choco frito (uma especialidade da costa setubalense e alentejana que sobe até aqui), ou um robalo simples no sal. Se ouvir a palavra congelado, mude para a carne sem hesitar.

O mercado e a feira: onde a comida começa

Para entender o que se come, vá onde se compra. O mercado municipal de manhã cedo é a melhor aula gratuita de gastronomia alentejana que existe: o pão de trigo de fermentação lenta, o queijo fresco e o curado, os enchidos da matança, o mel da serra, as ameixas e os figos quando é época. Compre pão, queijo e um chouriço e tem um piquenique melhor do que metade dos restaurantes da estrada.

Mas se quiser ver a coisa em grande escala, planeie a visita à volta da Feira do Monte, a feira tradicional alentejana de Santiago do Cacém. É aqui que a comida deixa de ser refeição e passa a ser ritual: os assadores ao ar livre, o porco no espeto, os doces conventuais, o vinho a granel. É barulhento, é caótico, é genuíno, e é onde verá a comida da região no seu habitat natural, longe das mesas postas para visitantes.

Doces: não saia sem provar

O Alentejo é território de doçaria conventual, e Santiago do Cacém não foge à regra. As encomendas de gema de ovo e açúcar (sericaia com ameixa de Elvas, queijadas, trouxas) são pesadas, doces até ao limite e absolutamente do sítio. Uma fatia de sericaia bem feita, com a sua superfície rachada e estremecida, acompanhada por uma ameixa em calda, é o ponto final perfeito para um almoço de domingo. Peça sempre o doce caseiro; se o empregado hesitar, peça antes uma laranja descascada e poupe as calorias para melhor ocasião.

Quando ir, quanto custa, como organizar o dia

O almoço é a refeição séria. Conte com 12 a 18 euros por pessoa numa casa boa, vinho da casa incluído, e bem menos se partilhar pratos, o que é a forma alentejana de comer. O jantar é mais tranquilo e algumas casas familiares nem abrem à noite, sobretudo fora de verão; confirme localmente antes de contar com uma mesa às nove da noite.

O meu dia ideal: chegue de manhã, suba a Miróbriga para a visita guiada às ruínas romanas, embora o final da tarde com o pôr do sol seja na verdade o melhor momento para essas pedras, e guarde a manhã para o castelo e o centro histórico. Almoce a sério por volta do meio-dia e meia. Faça a sesta que o almoço alentejano exige por lei não escrita. À tarde, mercado ou passeio, e jante leve, sopa e queijo bastam depois daquele almoço.

Quem fica para a noite tem uma surpresa: a vida noturna não é apenas esplanadas e fado de fundo. A Discoteca Alexander's é onde a malta da zona vai quando o jantar acaba e a noite ainda não, prova de que Santiago do Cacém não dorme tão cedo como parece. Não é o que se espera de uma cidade do interior alentejano, e é exatamente por isso que vale a curiosidade.

Onde ficar para comer melhor

Dormir no sítio certo melhora a comida, porque lhe dá tempo: tempo para o almoço longo, para a sesta, para o jantar sem pressa de estrada. As Casas da Moagem, turismo rural perto de Santiago do Cacém, são a base ideal para quem quer viver a cadência alentejana em vez de a visitar à pressa. Acordar no campo, ir ao mercado, voltar com pão e queijo: é assim que se come bem nesta região, sem reservas em lado nenhum.

A lição maior: o Alentejo come-se devagar

Se há uma coisa que Santiago do Cacém ensina é que a pressa é inimiga da boa mesa. Esta é uma cozinha de paciência, de pão de ontem aproveitado, de carne que cozeu horas, de azeite que não se poupa. Não venha à procura de inovação ou de empratamentos para fotografia. Venha pela açorda que sabe a alho e a verão, pelo porco preto que sabe a bolota, pela sericaia que sabe a domingo de avó.

E se este apetite pelo Alentejo verdadeiro lhe ficar, leve-o serra adentro. Escrevemos um guia inteiro sobre onde comem os locais em Portalegre, no alto Alentejo, com outra cozinha de fronteira, desta vez com a raia espanhola ao lado. Para um fim de semana completo nessa cidade vale a pena o nosso roteiro sem armadilhas para turistas, e quem prefere conhecer uma cidade a pé encontra os melhores trajetos no guia dos bairros de Portalegre que valem a caminhada. Mas isso é outra história, para outra fome.

Por agora, fique em Santiago do Cacém. Sente-se a uma mesa de toalha de papel, peça o prato do dia escrito à mão, e deixe a tarde ir-se embora. É assim que se come aqui. Sempre foi.

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