Santiago do Cacém ao Mercado: O Que Comprar e o Que Saltar
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Santiago do Cacém ao Mercado: O Que Comprar e o Que Saltar

· · Santiago do Cacém

Um mercado em Santiago do Cacém não é coleccionar produtos: é perceber o Alentejo pela barriga. O que comprar, o que provar de pé e o que saltar sem remorsos, mais o castelo, Miróbriga ao pôr do sol e a Feira do Monte.

Há uma hora certa para fazer um mercado em Santiago do Cacém, e não são as dez da manhã, quando os autocarros descarregam visitantes que vêm ver o castelo e fotografar a vista para a Serra de Grândola. A hora certa é mais cedo, quando o pão alentejano ainda está quente e quem vende o queijo ainda tem paciência para te explicar a diferença entre o curado de três meses e o que comeste em casa de plástico no supermercado. Faz a diferença toda.

Santiago do Cacém não é uma cidade de mercado no sentido em que Lisboa ou Loulé o são. É uma vila do Alentejo Litoral, encostada à colina do castelo, com os pés na planície e os olhos no mar de Sines que se adivinha a ocidente. O abastecimento aqui é uma coisa séria e antiga, ligada à terra que produz e à gente que ainda cozinha como cozinhava a avó. Este é o guia para fazer essa volta sem comprar gato por lebre: o que vale o dinheiro, o que se prova ali mesmo, e o que se deixa para os turistas distraídos.

Primeira regra: chega cedo, chega com fome

O Mercado Municipal de Santiago do Cacém funciona de manhã e ganha vida sobretudo aos sábados, quando os produtores dos montes em redor descem com o que a horta deu durante a semana. Confirma localmente os horários antes de ires, porque o ritmo de uma vila não é o de uma cidade e a hora de fecho pode surpreender-te. O que não muda é a lógica: quem chega cedo apanha o melhor e quem chega ao meio-dia apanha o que sobrou.

Chega com fome, mas não enchas a barriga ao primeiro balcão. A graça de uma volta de mercado é a estratégia. Dá uma volta inteira primeiro, sem comprar nada, só a ver preços e a olhar para as mãos de quem vende. Mãos com terra agarrada nas unhas são boa coisa: é gente que arrancou aquilo do chão de manhã. Depois voltas atrás e compras a sério.

O que comprar: a despensa alentejana que vale a mala

Queijo, antes de tudo

Estás em território de queijo de ovelha, e isto não é detalhe. O Alentejo faz queijos amanteigados que se comem com colher quando bem curados, e queijos mais secos, de pasta firme, que aguentam a viagem de carro de volta a casa. Pede para provar. Quem vende queijo a sério deixa-te provar sem fazer cara feia. Se não deixar, desconfia e segue em frente. Um queijo curado de ovelha bem feito é a coisa mais alentejana que podes levar contigo, e custa muito menos do que a versão embalada das lojas gourmet de Lisboa.

Pão, e levas mais do que pensas

O pão alentejano é denso, de côdea grossa, feito para durar e para ensopar. Não compres meio: leva um pão inteiro. Vais perceber porquê quando chegares à parte das migas e da açorda, dois pratos construídos precisamente para aproveitar o pão de ontem. Um pão alentejano em casa de uma cozinha que se preze nunca se desperdiça inteiro.

Enchidos, azeite e mel

Os enchidos da região, chouriço, paio, farinheira, são presença certa nas bancas e nas charcutarias da vila. Compra pouco e bom, em vez de muito e duvidoso. O azeite alentejano é outro tesouro que cabe na mala: procura o que é vendido por produtores locais e não tenhas medo de perguntar de que lagar vem. O mel da zona, sobretudo o de rosmaninho, é daqueles que justificam levar um frasco extra para oferecer.

  • Compra sempre: queijo de ovelha curado, pão alentejano inteiro, azeite de produtor, mel de rosmaninho.
  • Compra se confiares em quem vende: enchidos, ervas aromáticas frescas, hortaliça da estação.
  • Salta: qualquer coisa embalada com rótulo bonito que também encontras no supermercado. Não vieste até aqui para isso.

O que provar ali mesmo

A melhor parte de um mercado é o que se come de pé, sem cerimónia. Procura o pão acabado de fazer e pede uma fatia com um fio de azeite por cima. Simples, e é melhor do que metade das entradas que vais pagar a peso de ouro nos restaurantes turísticos da costa.

Se for época, prova os figos, as ameixas, o que a estação der. A fruta do Alentejo cresce ao sol e sabe-o. E se encontrares quem venda doçaria conventual da região, a sericaia e as queijadas valem cada caloria. A sericaia, esse pudim de canela rachado por cima, servido tradicionalmente com ameixa de Elvas, é a sobremesa que define o Alentejo melhor do que qualquer postal.

O que saltar sem remorsos

Salta as bugigangas. Toda a vila com algum movimento turístico acaba por ter uma banca de íman de frigorífico e galo de Barcelos de plástico, e o galo de Barcelos nem sequer é do Alentejo. Salta os queijos pré-embalados de marca nacional, salta o azeite em garrafa de plástico sem nome de lagar, e salta qualquer coisa que custe o mesmo que custaria em Lisboa. O ponto de fazer mercado fora das grandes cidades é precisamente fugir aos preços e à uniformidade das grandes cidades.

Depois do mercado: a vila à tua espera

Com a mala cheia, vale a pena ficar. Sobe ao castelo, que coroa a colina e oferece a melhor vista da vila e da planície em redor, e perde-te nas ruas estreitas do centro histórico. Mas se quiseres transformar a manhã de mercado numa estadia a sério, considera dormir fora do barulho, no campo. As Casas da Moagem, um turismo rural nos arredores, são o tipo de sítio onde acordas com o canto dos pássaros e cozinhas com aquilo que compraste de manhã. É a forma mais honesta de prolongar a experiência.

Para quem fica até à noite e tem energia, a vila ainda tem onde queimar as últimas horas. A Discoteca Alexander's é a opção para quem não quer que a noite acabe cedo, embora o Alentejo seja, por natureza, terra de jantares demorados mais do que de pistas de dança.

Miróbriga ao fim da tarde

Antes ou depois do mercado, reserva o fim da tarde para Miróbriga, as ruínas romanas a poucos minutos do centro. A luz do Alentejo ao entardecer faz coisas com a pedra antiga que vale a pena ver com calma. A visita guiada a Miróbriga ao pôr do sol é a melhor maneira de perceber o sítio sem o calor brutal do meio-dia e com um guia que sabe contar o que as pedras já não dizem sozinhas.

A grande feira: se conseguires planear, planeia

Se a tua visita coincidir com o fim do verão, há um nível acima do mercado semanal. A Feira do Monte, a grande tradição alentejana de Santiago do Cacém, é a feira anual que enche a vila de gado, artesanato, comes e bebes e música. É o mercado elevado a festa, e é quando a vila inteira sai à rua. Se podes encaixar a viagem nessas datas, encaixa: é uma manhã de mercado que se transforma em dias de celebração.

E quando o Alentejo te apanhar

Faz-te um aviso: depois de uma volta destas, o Alentejo tende a colar-se. Vais querer continuar a procurar mercados, queijos e doçaria por essa região fora. Se isso te acontecer, e vai acontecer, vale a pena olhar para o interior. Já escrevemos sobre como comer em Portalegre onde comem mesmo os locais, sobre os bairros de Portalegre que valem a caminhada e sobre como passar um fim de semana real em Portalegre sem cair em armadilhas. São paragens diferentes da mesma viagem: a do Alentejo que se come devagar.

O resumo, para levares na cabeça

  • Quando ir: de manhã cedo, idealmente ao sábado. Confirma horários localmente.
  • O que comprar: queijo de ovelha curado, pão alentejano inteiro, azeite de lagar, mel de rosmaninho, enchidos de quem conheces.
  • O que provar: pão quente com azeite, fruta da estação, sericaia e queijadas se houver.
  • O que saltar: bugigangas, marcas de supermercado, qualquer coisa ao preço de Lisboa.
  • Como rematar: castelo, Miróbriga ao fim da tarde e, se calhar a data, a Feira do Monte.

Fazer um mercado em Santiago do Cacém não é coleccionar produtos. É perceber uma terra pela barriga, que é, no fim de contas, a forma mais sincera de perceber o Alentejo. Chega cedo, prova tudo, leva o queijo. O resto resolve-se.

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