Praia do Creiro
Arrábida
O Portinho da Arrábida oferece águas dignas das Caraíbas e uma logística digna de um teste de resistência. Entre a areia branca e o verde da serra, revelamos como evitar o caos e por que razão a água gelada vale cada segundo de esforço.
Há uma imagem que todos vendem do Portinho da Arrábida: um semicírculo perfeito de areia branca, águas de um azul-turquesa que faria inveja a qualquer ilha grega e o verde profundo da serra a cair sobre o mar. A imagem é real, não há Photoshop que a melhore. Mas o que a fotografia não lhe conta é o esforço logístico, a temperatura punitiva da água e a paciência de santo necessária para estacionar o carro a menos de dois quilómetros da areia. O Portinho não é uma concessão fácil; é um prémio para quem sabe navegar a burocracia do verão e as idiossincrasias da costa de Setúbal.
Localizado no coração do Parque Natural da Arrábida (Portinho da Arrábida, 2900-635 Setúbal, Portugal), este pequeno enclave é muito mais do que um local para estender a toalha. É uma reserva marinha protegida, a Reserva Luiz Saldanha, onde a biodiversidade é levada a sério. O resultado? Uma transparência de água que permite ver cada rocha e cada cardume a metros de profundidade, mas que também mantém uma temperatura média que raramente ultrapassa os 17 ou 18 graus, mesmo em agosto. É um banho que acorda os mortos, mas que limpa qualquer vestígio de stress acumulado na cidade.
Se planeia chegar ao Portinho às onze da manhã num sábado de julho, a minha recomendação é simples: não vá. Durante os meses de verão, o acesso automóvel é rigorosamente controlado. A estrada que desce da N379-1 costuma estar fechada ao trânsito comum, exceto para residentes e veículos autorizados. O segredo, se é que ainda há segredos aqui, é usar o parque de estacionamento do Creiro. É grande, é pago (mas barato, mantendo o nível de preço € do local) e exige uma caminhada de dez a quinze minutos por um trilho pavimentado. Se tiver mobilidade reduzida ou muitas geleiras, informe-se sobre os autocarros vaivém que a Câmara de Setúbal costuma disponibilizar. É menos glamoroso do que chegar de descapotável, mas é a única forma de não passar o dia a discutir com a GNR.
Uma vez na areia, o cenário impõe-se. À sua frente, a Pedra da Anixa, uma pequena ilha rochosa que é o paraíso dos mergulhadores. Atrás, a encosta da Arrábida protege a baía dos ventos do norte, criando um microclima onde o mar raramente tem ondas. É uma piscina natural gigante. O areal é fino e branco, mas o espaço é escasso. Ao contrário das extensas praias da Comporta, aqui luta-se por cada metro quadrado.
Para quem se cansa depressa da inércia, o Portinho oferece alternativas culturais. O Forte de Santa Maria da Arrábida, uma fortificação do século XVII que outrora protegia a costa de piratas, alberga hoje o Museu Oceanográfico. Vale a pena a visita curta para entender o que vive debaixo daquela água translúcida antes de mergulhar nela. Se preferir uma perspetiva mais elevada e espiritual sobre esta paisagem, recomendo vivamente que combine o seu dia de praia com O Silêncio Franciscano: Uma Caminhada Espiritual ao Convento da Arrábida. Ver o Portinho lá de cima, do alto das celas dos monges, dá uma escala totalmente diferente à sua pequenez perante a geologia da serra.
Com uma classificação de 4.7 estrelas e mais de 5200 críticas, a popularidade do local reflete-se nos seus poucos e disputados restaurantes. Não espere menus de degustação com espumas ou conceitos disruptivos. Aqui o rei é o peixe assado, as amêijoas à Bulhão Pato e, claro, o choco frito de Setúbal. O preço é geralmente justo (€), mas o serviço em dias de pico pode ser lento. Se quiser garantir uma mesa com vista para o mar, o telefone (+351 265 545 010) é o seu melhor amigo. Reserve com dias de antecedência ou prepare-se para comer uma sandes de coiratos no parque de estacionamento.
O Portinho da Arrábida não é para os preguiçosos ou para quem procura facilidades. É um destino que exige planeamento e resistência física ao choque térmico. Mas, quando estiver a boiar naquele azul, com o cheiro a esteva e maresia a misturarem-se no ar, vai perceber que todas as voltas dadas à procura de lugar valeram a pena. É um pedaço de perfeição mediterrânica perdido no Atlântico português, e continua a ser um dos lugares mais bonitos que este país tem para oferecer.