Praia do Portinho da Arrábida
Arrábida
Esqueça o Algarve: o verdadeiro azul de Portugal está no Creiro, onde ruínas romanas de salga de peixe convivem com a imponente Pedra da Anicha. Descubra como sobreviver à logística da Arrábida e garantir o seu lugar neste anfiteatro natural entre a serra e o mar.
Esqueça o Algarve. Se quer saber onde é que os lisboetas e os setubalenses de gema se escondem quando o mercúrio sobe, a resposta está na base da Serra da Arrábida. A Praia do Creiro não é apenas uma sucessão de areia e água salgada; é um exercício de paciência e uma recompensa visual que, francamente, faz o resto da costa portuguesa parecer um pouco pálida. Localizada em pleno Parque Natural, esta enseada é o ponto onde o calcário da serra mergulha num Atlântico que, por um capricho da geologia e da luz, decidiu fingir que é o Mediterrâneo.
Chegar aqui exige estratégia. Se tentar vir em pleno agosto, ao meio-dia, prepare-se para o arrependimento. O acesso à Praia do Creiro, situada no código postal 2925-378 São Lourenço, Setúbal, é controlado pelo programa "Arrábida sem Carros". A minha recomendação? Deixe o carro nos parques periféricos (como o da Figueirinha ou em Setúbal) e apanhe o autocarro shuttle. É a única forma de manter a sanidade mental e evitar multas criativas da GNR. O preço é simbólico (€), mas o valor de não ter de manobrar num precipício entre jipes estacionados é incalculável.
O que separa o Creiro da vizinha Praia do Portinho da Arrábida não é apenas a distância física, mas a carga histórica que se sente mal se põe o pé na areia. No lado nascente da praia, vai encontrar as ruínas de uma estação arqueológica romana. Não é um cenário de cartão-postal montado para turistas; são os restos reais de uma fábrica de salga de peixe do século I d.C. Imagine os romanos, há dois mil anos, a preparar o garum (o molho de peixe fermentado que era o ketchup da época) exatamente onde hoje as famílias estendem as toalhas. É este tipo de detalhe que dá peso ao lugar.
Depois, há a Pedra da Anicha. Este ilhéu rochoso, que emerge das águas turquesas como o dorso de uma baleia petrificada, é uma Reserva Zoológica. Se tiver coragem para enfrentar a temperatura da água, que, sejamos honestos, é revigorante para não dizer gélida —, leve máscara e tubo. A vida marinha em redor da pedra é das mais ricas de Portugal. Verá sargos, polvos e, com sorte, algumas das espécies protegidas que fazem deste ecossistema um santuário. É o oposto das praias de massas onde o fundo é apenas areia e beatas de cigarro.
O Creiro é uma praia de categoria €, o que significa que não precisa de vender um rim para almoçar por perto, embora a oferta seja limitada e muito disputada. Existem alguns restaurantes de apoio à praia, mas a verdadeira sofisticação aqui é a simplicidade. Um café, uma imperial gelada e a vista para o Portinho. Não há horários fixos de abertura para a praia em si, mas os serviços de vigilância e os concessionários operam normalmente entre as 09:00 e as 19:00 durante a época balnear. Se tiver dúvidas sobre as condições ou acessos, o contacto oficial é o +351 265 009 330.
Para quem não aguenta estar parado na toalha a ouvir o último êxito de verão da coluna do vizinho, recomendo a subida. A estrada que serpenteia a serra oferece perspetivas que explicam por que razão os monges franciscanos escolheram este isolamento. Se estiver com disposição para uma jornada mais introspectiva, pode ler o nosso guia sobre O Silêncio Franciscano: Uma Caminhada Espiritual ao Convento da Arrábida. A vista lá de cima coloca a escala humana em perspectiva: somos apenas pontos minúsculos entre o verde profundo da serra e o azul infinito do mar.
Em suma, a Praia do Creiro é para quem aprecia o esforço. Não é uma praia de conveniência à beira da estrada nacional. É um lugar que exige planeamento, que nos obriga a apanhar um autocarro com estranhos e a caminhar sob o sol. Mas quando mergulha naquela água e olha para trás, vendo a massa verde da serra a abraçar a areia branca, percebe que o preço a pagar é baixo para o que recebe em troca. É Portugal no seu estado mais puro, sem artifícios, apenas geologia, história e um azul que parece roubado de um sonho.