Mafra existe por causa de uma promessa, e de um rei com o ego à medida do ouro brasileiro que lhe chegava aos cofres. D. João V prometeu um convento se tivesse um herdeiro. Teve-o, e o resultado não foi um convento modesto: foi o maior edifício barroco da Península Ibérica, com 1200 salas, 156 escadarias e uma biblioteca de 36 mil volumes protegidos por uma colónia de morcegos que, todas as noites, se encarrega dos insetos. Desde 2019, o conjunto, palácio, basílica, convento, Jardim do Cerco e Tapada, é Património Mundial da UNESCO.
O Palácio que não se esgota numa visita
É fácil subestimar quanto tempo o Palácio Nacional de Mafra exige. A maioria dos visitantes reserva uma hora; duas é o mínimo para não correr. A biblioteca, com os seus 88 metros de comprimento e pavimento em mármore, é o ponto alto, mas a enfermaria dos frades, a sala da bênção em pedra lioz policromada e o conjunto único de seis órgãos históricos na basílica merecem atenção demorada. Os carrilhões das duas torres somam 114 sinos, encomendados na Flandres no século XVIII, e ainda hoje tocam em ocasiões especiais.
Para lá das paredes do palácio
A Tapada Nacional, antiga coutada de caça real, ocupa 819 hectares a poucos minutos do centro. Tem percursos pedestres de 4 a 9 km, passeios de charrete e carro elétrico, demonstrações com aves de rapina e passeios noturnos para observar veados e javalis. É um dos melhores programas de natureza acessíveis a partir de Lisboa, e muito menos concorrido do que Sintra.
O Jardim do Cerco, nas traseiras do palácio, funciona como zona de descompressão gratuita: jardins formais, sombra generosa e silêncio a sério.
O que comer e quanto tempo ficar
Mafra merece um dia inteiro, especialmente se combinar o palácio com a Tapada. Para almoço, procure pratos da tradição saloia: os bolos saloios (pão regional denso e saboroso) acompanham bem qualquer refeição. A proximidade da Ericeira traz o marisco à mesa, a açorda de lagosta é o prato de referência da costa. Se vier de Lisboa, são 30 km pela A8; de carro, menos de 40 minutos.
Quem leu o Memorial do Convento de Saramago vai reconhecer aqui o cenário, a construção faraónica, os milhares de trabalhadores, o peso das pedras. O romance ganhou outra dimensão quando o palácio entrou na lista da UNESCO, e hoje é impossível percorrer aqueles corredores sem pensar em Baltasar e Blimunda.