Mafra ao Balcão: Os Cafés Que Valem a Paragem
Em Mafra, o fradinho da Pastelaria Fradinho (feijão branco, amêndoa, ovo) é o doce que não pode perder. Mas há mais: do pão de deus da Sempre Quente ao specialty coffee em Ericeira, este é o roteiro honesto dos cafés que valem a paragem no concelho.
Há uma coisa que Mafra faz melhor do que quase qualquer vila portuguesa da sua dimensão: cafés de bairro com personalidade. Não estou a falar de terceira vaga, latte art e grão etíope de altitude. Estou a falar do tipo de sítio onde a senhora atrás do balcão já sabe que você quer o café curto antes de abrir a boca, onde o pastel acabou de sair do forno há sete minutos e onde a esplanada tem vista para algo que não seja um prédio de escritórios. Mafra tem isto em doses generosas, e tem também, para quem quiser, a nova geração de specialty coffee que chegou pela costa, via Ericeira.
Este é o meu roteiro, com opiniões incluídas. Não é exaustivo. É honesto.
Pastelaria Fradinho: o clássico obrigatório
Comecemos pelo óbvio, porque às vezes o óbvio é óbvio por boas razões. A Pastelaria Fradinho fica a poucos passos do Palácio Nacional de Mafra, e é o tipo de pastelaria que existia antes de alguém inventar a palavra "brunch". O que interessa aqui é uma coisa e uma coisa só: o fradinho. É o doce da casa, batizado com o nome do fundador, Francisco Fradinho, e feito com massa de feijão branco, amêndoa e ovos. Parece estranho? É. E é extraordinário. Crocante por fora, cremoso por dentro, doce sem ser enjoativo.
Peça um fradinho e um café. Não peça um cappuccino. Não peça um croissant. Confie no processo. O café é o que é, um bom café de máquina portuguesa, sem pretensões. A pastelaria tem mesas no interior e umas cadeiras do outro lado da rua, com vista directa para a fachada barroca do Palácio. Não há esplanada mais cinematográfica no concelho.
Se vier de manhã, aproveite para visitar o Jardim do Cerco, que fica mesmo ao lado do Palácio. É um dos jardins mais subestimados da região de Lisboa, com uma geometria setecentista que merece mais do que uma passagem rápida. Tome o café primeiro. Passeie depois.
O que pedir
- O fradinho (o doce, não o feijão). Não saia sem provar.
- Café curto, sem açúcar se conseguir.
- Se tiver fome a sério, há salgados decentes, mas não é aqui que se vem almoçar.
Cafetaria Doce Camélia: a pastelaria que se modernizou
Na Praça da República, a Doce Camélia fez o que muitas pastelarias portuguesas tentam e poucas conseguem: modernizar-se sem perder a razão de existir. O espaço é bonito, com uma decoração mais contemporânea do que a média, mas não caiu na armadilha do minimalismo vazio. Há bolos, muitos bolos, e são bonitos e bons, o que nem sempre coincide.
Este é o sítio certo para quem viaja com crianças ou com alguém que acha que um café sem opções de pequeno-almoço completo não é um café. Há tostas, sandes, e uma variedade de doçaria que vai do tradicional ao decorativo. Os bolos de festa e o cake design são a especialidade da casa, mas no dia-a-dia, o que brilha são as tartes e os pastéis mais clássicos.
A Doce Camélia também funciona como restaurante no andar de cima, mas eu venho cá pelo piso de baixo, pela montra de bolos e por um galão a meio da tarde.
O que pedir
- Uma fatia de tarte do dia. Muda frequentemente, confie na sugestão de quem está ao balcão.
- Se for de manhã, a tosta mista com o pão da casa é surpreendentemente boa.
- Galão em copo de vidro, como deve ser.
Padaria Sempre Quente: o pão de deus que justifica o desvio
O nome não mente. A Padaria Sempre Quente é, antes de mais, uma padaria. E numa padaria portuguesa, o rei é o pão. Mas o que traz aqui gente de fora é o pão de deus: aquele pão doce com cobertura de coco e gema de ovo que, quando é bem feito, é uma das melhores coisas que se podem comer ao pequeno-almoço em Portugal.
Na Sempre Quente, é bem feito. A cobertura é generosa sem ser pegajosa, o pão é fofo, e sai do forno com uma frequência que significa que raramente apanha um que não esteja fresco. O café é simples e correcto, o serviço é simpático, e o espaço é o que é: uma padaria de bairro, sem design de interiores nem playlist curada.
É o tipo de sítio onde se para antes de uma manhã na Tapada Nacional de Mafra. Um pão de deus, um café, e depois 800 hectares de floresta e fauna para explorar. É uma combinação perfeita.
O que pedir
- Pão de deus. Ponto final.
- Se já tiver comido pão de deus, um pão com manteiga fresco também resolve.
- Café curto ou pingado.
Mvsevs: a esplanada com a melhor vista de Mafra
O Mvsevs fica no Terreiro D. João V, mesmo em frente ao Palácio, e tem aquilo que em Mafra é moeda rara: uma esplanada ampla, com sombra, e com uma vista que compete com qualquer café de praça europeia. A fachada do Palácio Nacional ocupa todo o horizonte, e ao fim da tarde, quando a luz dourada bate na pedra, é difícil não ficar ali mais meia hora do que o planeado.
O Mvsevs é mais bar do que pastelaria. Funciona bem para um café ao fim da manhã, mas é ao final do dia que ganha vida, com cocktails e petiscos. Não venha aqui à espera do melhor pastel de nata da sua vida. Venha pela localização, pela cadeira ao sol, e por um gin tónico ou uma imperial ao fim de uma tarde passada a explorar o Palácio e os seus jardins.
O que pedir
- Café ao sol, de manhã.
- Imperial ou gin tónico, ao fim da tarde.
- Petiscos se tiver fome, mas para jantar a sério, considere descer até ao Prédio Ericeira na costa.
A costa: specialty coffee em Ericeira
Se o seu conceito de bom café exige grão de origem única, extracção controlada e alguém que sabe a diferença entre um V60 e um Chemex, então precisa de ir até Ericeira, que faz parte do concelho de Mafra e fica a cerca de 15 minutos de carro.
A Ericeira dos últimos anos tornou-se num pólo de specialty coffee à boleia da comunidade de surfistas e nómadas digitais que ali se instalou. O resultado é uma oferta de café que seria respeitável em Lisboa ou no Porto.
The Capsule é provavelmente o mais sério do lote. Torram o próprio grão, servem hand brews para quem quiser, e têm uma carta de bebidas não alcoólicas fermentadas que inclui kombucha de café. Sim, leu bem. Se isso lhe parece demasiado, peça um flat white e vai ficar bem servido. O espaço é pequeno, o ambiente é descontraído, e o nível de detalhe no café é de outra categoria.
O Dear Rose Café é outra opção forte, com café de especialidade e uma carta focada em comida saudável e de base vegetal. É o tipo de sítio onde se pode passar uma manhã inteira com um portátil, um matcha latte e zero culpa.
O que pedir no The Capsule
- Flat white, se quiser algo seguro e excelente.
- Hand brew do grão da semana, se quiser explorar.
- Kombucha de café, se tiver espírito aventureiro.
O que pedir no Dear Rose
- Specialty latte com leite de aveia.
- Qualquer coisa da carta de pequeno-almoço.
A lógica do dia: como combinar cafés e visitas
Mafra não é grande. Pode fazer tudo isto num dia, se quiser, ou espalhar ao longo de um fim-de-semana, que é o que recomendo.
De manhã, comece na Padaria Sempre Quente com um pão de deus, e depois siga para a Tapada Nacional. Se preferir ficar pelo centro, o Fradinho com vista para o Palácio é um início de dia impecável. A meio da manhã, passe pelo Parque de Santa Marta para esticar as pernas antes do almoço.
À tarde, o Mvsevs para um café lento na esplanada, e depois, se quiser fugir para a costa, Ericeira para specialty coffee e um passeio junto ao mar.
Se estiver em Mafra por mais tempo e quiser explorar a vertente de bem-estar, o Retiro Detox na Quintinha do Mar é uma opção interessante para equilibrar os excessos de pastelaria.
E se já conhece a doçaria conventual de Mafra, o nosso guia dos doces de Páscoa em Mafra aprofunda essa tradição com mais detalhe.
O veredicto
Mafra não é Lisboa. Não vai encontrar aqui um café com 47 opções de leite vegetal e um DJ set às quartas-feiras. O que vai encontrar é melhor: pastelarias com história, padarias que levam o pão a sério, e uma nova geração de café na costa que mostra que a qualidade não precisa de código postal da capital. Peça o fradinho. Sente-se na esplanada. E não tenha pressa.