Mafra como Base: Escapadas de um Dia que Valem a Pena
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Mafra como Base: Escapadas de um Dia que Valem a Pena

· · Mafra

Mafra fica a menos de 40 minutos de Sintra, Ericeira, Lisboa e da costa selvagem do Oeste. Com a Tapada Nacional à porta e praias de surf no concelho, funciona melhor como base do que como paragem de uma tarde.

Mafra tem um problema que a maioria dos turistas nem percebe: é boa demais como ponto de partida. Quem vem só para ver o Palácio Nacional de Mafra e a sua biblioteca de cortar a respiração (38 mil volumes, morcegos incluídos para controlo de insectos) acaba por perder tudo o que está à volta. E o que está à volta é, francamente, o melhor da região de Lisboa que ninguém menciona nos guias convencionais.

Vivo nesta zona há tempo suficiente para dizer com confiança: Mafra funciona melhor como base do que como destino de uma tarde. A menos de 40 minutos de carro tens Sintra, Ericeira, a costa selvagem até Peniche e o interior profundo do Oeste. Mas antes de saíres, dedica pelo menos uma manhã ao que tens à porta.

Primeiro, esgota Mafra

Parece óbvio, mas muita gente salta directamente para o palácio e ignora tudo o resto. A Tapada Nacional de Mafra é um parque murado de 800 hectares que já foi reserva de caça real. Hoje podes percorrê-lo a pé, de bicicleta ou até de charrete. Cervos, javalis e aves de rapina aparecem com regularidade, sobretudo se entrares cedo, antes das 10h. A Tapada merece meio dia, não uma hora apressada entre selfies.

Para uma paragem mais curta, o Jardim do Cerco fica mesmo ao lado do palácio e é o tipo de jardim onde os locais vêm ler o jornal ao domingo. Não tem a grandiosidade de Versailles nem tenta ter. Tem sombra, silêncio e um tanque onde os miúdos atiram pão aos patos. É suficiente.

Se preferes praia sem multidões, o Parque de Santa Marta em Cascais merece uma nota à parte, mas dentro do concelho de Mafra a costa de São Julião e a Praia de Ribeira d'Ilhas (onde se fazem campeonatos de surf) são paragens obrigatórias. Ribeira d'Ilhas tem estacionamento, um bar de praia razoável e ondas que funcionam quase o ano todo.

Ericeira: 15 minutos e um mundo diferente

A Ericeira é a escapada mais fácil a partir de Mafra. São 12 quilómetros, 15 minutos de carro pela N116, e passas de vila barroca a vila piscatória com grafitis e lojas de pranchas. A Reserva Mundial de Surf não é marketing, é classificação oficial da World Surfing Reserves desde 2011, uma de apenas onze no mundo.

Mesmo que não surfes, a Ericeira justifica-se pelo peixe. O Prédio Ericeira é o tipo de sítio onde o menu muda conforme o que chegou nessa manhã. Não peças carne aqui. Pede o que o empregado recomendar do dia, acompanhado de arroz de tomate, e não compliques. Uma refeição para dois com vinho da casa ronda os 40-50 euros, confirme localmente porque os preços do peixe flutuam.

Para lá chegar sem carro, há autocarros da Mafrense que ligam Mafra a Ericeira com frequência razoável nos dias úteis. Ao fim-de-semana os horários reduzem, por isso confirma na estação. De bicicleta é possível mas a estrada tem algum trânsito e pouca berma.

Sintra: 30 minutos, outro planeta

Sintra dispensa apresentações, mas merece avisos. Nos meses de Verão, o Palácio da Pena e a Quinta da Regaleira são uma experiência mais próxima de um parque temático do que de uma visita cultural. Filas de duas horas, autocarros cheios e preços de bilhete que já passam dos 14 euros por pessoa.

A minha recomendação: esquece os palácios mais populares e explora os cantos que a maioria ignora. O Convento dos Capuchos, por exemplo, é uma construção franciscana escavada na rocha coberta de cortiça, tão pequena que os monges tinham de se dobrar para entrar nas celas. Custa menos de metade do bilhete da Pena e quase nunca tem fila. Para um roteiro mais completo, o nosso guia de bairros de Sintra cobre recantos que vale a pena explorar sem pressas.

De Mafra a Sintra são cerca de 25-30 minutos pela IC30 e depois pela N9. Estacionamento no centro de Sintra é uma guerra: chega antes das 10h ou estaciona na periferia e apanha o autocarro 434. Melhor ainda, vai numa terça ou quarta-feira fora de época.

Lisboa: a grande vizinha a 45 minutos

Pode parecer estranho sugerir Lisboa como escapada de um dia a partir de Mafra, mas é exactamente o que funciona. Estás a 40-45 minutos de carro pela A8 (portagem de cerca de 3 euros) ou podes apanhar o comboio em Malveira até ao Rossio (confirme horários na CP). A vantagem de ficar em Mafra é que regressas ao silêncio no fim do dia, em vez de voltares para um hotel no Chiado com turistas britânicos a cantar no andar de baixo.

Se é a tua primeira vez em Lisboa, o nosso guia sobre cultura local e tradições de Lisboa dá-te um ponto de partida mais honesto do que qualquer top 10 de TripAdvisor. Alfama de manhã cedo, Mouraria ao almoço, Príncipe Real ao fim da tarde. Não tentes fazer tudo num dia. Escolhe dois bairros e faz-lhes justiça.

Torres Vedras e o Oeste: a surpresa

A meia hora para norte de Mafra, Torres Vedras é ignorada por quase todos os turistas. E é exactamente por isso que funciona. As Linhas de Torres, fortificações construídas durante as Guerras Peninsulares para travar Napoleão, são um percurso pedestre fascinante com vistas sobre o vale. O Forte de São Vicente está restaurado e tem um centro interpretativo que explica a estratégia de Wellington com clareza.

Torres Vedras é também terra de vinho. A região do Oeste produz brancos frescos e tintos de corpo médio que andam abaixo do radar. Várias quintas aceitam visitas com prova, normalmente entre 10 e 20 euros por pessoa. Não esperes a sofisticação do Douro, mas a relação qualidade-preço é imbatível.

Para quem gosta de praia, Santa Cruz fica a 20 minutos de Torres Vedras e tem uma das praias mais dramáticas da região: falésias altas, areia larga e um penedo no meio da praia que parece saído de um filme islandês. Fora de época é quase deserta.

Peniche e as Berlengas: a excursão mais longa

Peniche está a cerca de 50 minutos de Mafra pela A8. Vale a pena se tiveres o dia inteiro. A fortaleza de Peniche foi prisão política durante o Estado Novo e hoje é museu. A visita é pesada mas necessária. O porto é animado, com barcos de pesca a descarregar pela manhã e restaurantes de caldeirada na doca.

Se o mar permitir (e entre Maio e Setembro normalmente permite), o barco para as Ilhas Berlengas sai do porto de Peniche. São 30 minutos de travessia, às vezes agitada. A reserva natural é pequena, podes percorrê-la em poucas horas, e o Forte de São João Baptista parece uma maquete pousada no Atlântico. Reserva o barco com antecedência, especialmente em Julho e Agosto, porque os lugares esgotam.

A opção slow: um dia sem carro em Mafra

Nem tudo tem de ser uma expedição. Uma das melhores coisas que podes fazer em Mafra é simplesmente não ir a lado nenhum. Começa pelo palácio de manhã, quando as excursões de Lisboa ainda não chegaram. A biblioteca é o ponto alto, e se tens interesse em órgãos barrocos, a basílica tem seis que ainda funcionam. Depois, almoça no centro (há tascas razoáveis na Rua dos Coutinhos e arredores). À tarde, perde-te pela Tapada ou pelo Jardim do Cerco.

Se procuras algo mais estruturado, o retiro detox na Quintinha do Mar é uma opção para quem quer desacelerar a sério. Não é para todos, mas se o teu corpo está a pedir uma pausa dos roteiros frenéticos, pode ser exactamente o que precisas.

E se calhar a meio da tarde, quando o sol começa a descer e a luz fica dourada sobre a cúpula do palácio, percebes que a melhor escapada de Mafra é a que te traz de volta a Mafra. Guarda espaço para os doces tradicionais de Mafra, que merecem um artigo só para eles (e já têm).

Resumo prático

  • Ericeira: 15 min de carro, autocarro Mafrense disponível
  • Sintra: 25-30 min de carro, estacionamento difícil
  • Lisboa: 40-45 min de carro ou comboio via Malveira
  • Torres Vedras: 30 min de carro
  • Peniche/Berlengas: 50 min de carro, barco sazonal
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