Passeio de Barco no Tejo ao Pôr-do-Sol em Lisboa
Duas horas a bordo do Sejas Feliz, um bote de fragata de 1947 restaurado pela Nosso Tejo. Sai do Terreiro do Paço, desce até Belém, e regressa com a Ponte 25 de Abril a brilhar nas costas, vinho branco incluído.
O barco chama-se Sejas Feliz. Foi construído em 1947 como bote de fragata, daqueles que carregavam mercadorias entre as duas margens do Tejo antes da ponte. Hoje sai todos os dias da Estação Fluvial Sul e Sueste, ao lado do Terreiro do Paço, e leva-nos a navegar pelo rio na hora em que Lisboa fica cor-de-laranja. O passeio é da Nosso Tejo, a única empresa em Lisboa que opera com embarcações tradicionais de grande porte. E sim, vale cada cêntimo.
Já fiz este passeio quatro vezes, com gente diferente, em meses diferentes. Posso dizer-vos com alguma confiança: vão no Verão tardio, entre meados de Setembro e início de Outubro. A luz é mais quente, o vento do estuário não corta, e a multidão dos cruzeiros já abrandou. Reservem o turno do pôr-do-sol, não o das 45 minutos do meio da tarde. Sai mais caro, dura duas horas, e é exactamente onde está a magia.
O que é, exactamente, este passeio
O Sejas Feliz é uma embarcação restaurada em 2014, com convés de madeira, cordas grossas e bancos corridos. Há um segundo barco na frota, o Sou do Tejo, um varino do final do século XIX, ainda mais antigo. Não esperem velas içadas como num cartão postal: a maior parte do tempo a navegação é a motor, e a vela serve mais para contexto do que para propulsão. No centro do convés há uma pequena cabine onde se serve vinho branco fresco, incluído no preço, a discrição.
A rota é sempre a mesma com pequenas variações conforme a maré: saem do Terreiro do Paço, descem em direcção a Belém, passam por baixo do Padrão dos Descobrimentos, viram junto à Torre de Belém e regressam com a Ponte 25 de Abril a brilhar nas costas. A meio do trajecto, ao largo de Algés, o capitão desliga o motor durante uns minutos. É aí que se ouve o rio.
O melhor momento (e o que me surpreendeu)
Toda a gente foca o pôr-do-sol em si, com razão. Mas o que me ganhou foi os 20 minutos antes: o sol ainda alto, a luz amarela a bater nas fachadas brancas de Belém, e a Torre a parecer maior do que vista de terra. Tirem fotografias nessa fase. Quando o sol cai mesmo, está toda a gente em pé, encostada à amurada, e é mais difícil arranjar um bom enquadramento.
O segundo momento que ninguém vos diz: a passagem por baixo da Ponte 25 de Abril, no caminho de regresso. As luzes acendem-se, ouve-se o ronco do trânsito por cima, e percebe-se a escala daquilo. Vista de baixo, a estrutura é outra coisa.
Detalhes práticos sem rodeios
- Operador: Nosso Tejo, Lda
- Website: https://www.nossotejo.pt
- Telefone: +351 910 501 012
- Email: [email protected]
- Ponto de encontro: Estação Fluvial Sul e Sueste, Av. Infante Dom Henrique 1B, 1100-278 Lisboa
- Duração: 2 horas para o turno do pôr-do-sol. Existem versões de 45 minutos e 1h45 noutros horários.
- Preço: a partir de cerca de 35 € por pessoa no turno do pôr-do-sol. Confirme directamente com o operador.
- Inclui: vinho branco a discrição e comentário do guia em PT/EN.
Cheguem 30 minutos antes. O embarque é rápido mas o portão da estação fluvial fecha à hora marcada e a tripulação não espera por atrasados. Não há lugares marcados, por isso, se quiserem ficar virados para sul (o lado de Almada), entrem nos primeiros. Eu costumo ficar à popa, perto do leme: vê-se bem para os dois lados e há menos vento na cara.
O que vestir e levar
Mesmo em Agosto, o Tejo arrefece depois do sol cair. Levem uma camisola ou casaco leve, mesmo que à partida pareça desnecessário. Calçado prático, com sola que agarre, porque o convés de madeira fica escorregadio se houver respingos. Óculos de sol obrigatórios para a primeira hora. Não levem mochilas enormes: o espaço é limitado e ficam a estorvar.
Telemóvel com bateria, claro, mas considerem deixar o telemóvel no bolso nos primeiros vinte minutos depois do sol entrar no horizonte. A luz muda tão depressa que não compensa estar a fotografar.
Como chegar e o que fazer antes ou depois
A Estação Fluvial Sul e Sueste fica colada ao Terreiro do Paço, do lado oposto ao Arco da Rua Augusta. Metro azul, estação Terreiro do Paço, e estão lá em cinco minutos. De Uber ou Bolt, peçam para vos deixarem na Rua dos Bacalhoeiros: é o acesso mais fácil sem ter de atravessar a praça toda.
Como antecipação, gosto de almoçar leve na Baixa e depois passar por As Bifanas do Afonso para um lanche rápido a meio da tarde. Se preferirem ganhar contexto visual, subam a um miradouro antes de descer ao rio: o nosso guia dos miradouros de Lisboa serve bem para escolher. Ver a cidade do alto e depois do rio em poucas horas é dos melhores exercícios para entender Lisboa.
Depois do passeio, e ainda com as bochechas vermelhas do vento, jantem na Mouraria ou no Bairro Alto. Este passeio combina particularmente bem com uma noite de fado em O Faia, que abre às 20h00 e fica a 15 minutos a pé do Cais do Sodré.
Vale a pena?
Vale. É um daqueles passeios em que se percebe por que razão Lisboa nasceu virada para o rio e não para terra. Para quem chega à cidade pela primeira vez, é uma boa introdução à geografia. Para quem cá vive, é uma forma de re-aprender a olhar para o sítio onde mora. Confiram a meteorologia 48 horas antes: se houver nordeste forte, o passeio sai mas o convés fica desconfortável. Em dia calmo, é raro existir melhor forma de passar duas horas em Lisboa.
Para mais contexto antes ou depois do passeio, vale a pena ler o nosso guia das 10 coisas para fazer em Lisboa e o guia da cultura local lisboeta. Reservem com 3 a 5 dias de antecedência em alta época: chega.