Cascais ao Fim da Tarde: Vinho, Petiscos e Rotina
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Cascais ao Fim da Tarde: Vinho, Petiscos e Rotina

· · Cascais

Toda a gente chega a Cascais à uma da tarde e vai embora antes do jantar. É um erro: a melhor hora da vila começa às seis, quando a luz baixa e os autocarros desaparecem. Um roteiro de vinho e petiscos que começa na Boca do Inferno e acaba com moscatel gelado.

Cascais tem um problema de reputação. Toda a gente chega de comboio à uma da tarde, come uma sandes na marina, tira uma fotografia à baía e volta para Lisboa antes do jantar. É um erro logístico com consequências gastronómicas graves, porque a melhor hora de Cascais começa por volta das seis da tarde, quando a luz baixa, os autocarros de excursão desaparecem e a vila volta a pertencer a quem lá vive.

Este roteiro é para quem quer ficar. Começa a pé, acaba com um copo na mão, e assume uma coisa: que petiscar em Portugal não é uma refeição, é um método. Come-se pouco de cada vez, bebe-se devagar, muda-se de sítio. Quem se senta às oito e só se levanta às onze da mesma mesa está a fazer jantar, não petiscos. São coisas diferentes.

Regra número um: não jante antes das nove

Isto não é preciosismo, é matemática. Se começar a beber às seis, precisa de três horas de intervalo com comida a sério pelo meio. E em Cascais, o pôr do sol no verão anda pelas oito e meia, o que significa que o momento mais bonito do dia coincide exactamente com a hora a que a maioria dos turistas já está a pedir a conta.

Comece então a tarde longe da vila, na direcção de Boca do Inferno. A caminhada da marina até lá são uns vinte minutos pela Avenida Rei Humberto II de Itália, sempre com o mar à esquerda. A Boca do Inferno é, sejamos honestos, um sítio que funciona melhor com mau tempo do que com sol. Num dia calmo de agosto é uma gruta simpática com muita gente à volta. Num dia de vento sul em novembro, com a ondulação a entrar na fenda, percebe-se de onde vem o nome. Se for em pleno verão, vá na mesma, mas vá por volta das seis e meia: as bancas de artesanato começam a fechar e a luz sobre a falésia fica cor de tijolo.

De volta à vila pelo mesmo caminho, faça um desvio de cinco minutos até ao Farol Museu de Santa Marta. O farol às riscas azuis e brancas é uma das imagens mais reproduzidas de Cascais e, ao contrário da maioria das imagens muito reproduzidas, aguenta bem a visita presencial. O museu é pequeno, dedica-se à história da sinalização marítima e tem entrada em regime de bilhete municipal (confirme valores e horários localmente, porque mudam com a época). Vá pelo terraço e pela vista sobre a baía. Vinte minutos chegam.

O aperitivo antes do aperitivo

Antes de qualquer copo, é preciso resolver a questão do açúcar. Sim, açúcar antes do vinho. É pouco ortodoxo e é exactamente o que se faz por cá, porque as pastelarias de Cascais fecham cedo e não vale a pena adiar.

A Pastelaria A Bijou de Cascais é a casa que mais gosto de recomendar a quem chega. Não pelo espaço, que é modesto, mas porque é ali que se percebe a diferença entre uma pastelaria de bairro e uma pastelaria de esplanada turística. Peça um café e um pastel de nata, coma ao balcão, ouça a conversa. É o exame de admissão à vila.

Se preferir sentar-se, a Pastelaria Garrett é a instituição do centro, com décadas de história e uma clientela que inclui gente que vem aqui desde criança. É mais cara do que a média e o serviço, em agosto, pode ser lento. Vá fora de horas: às cinco da tarde de um dia de semana, encontra mesa e encontra o sítio no seu melhor. As areias de Cascais, os bolinhos de amêndoa e a montra em geral justificam o desvio.

Uma nota de honestidade: se o seu único objectivo em Cascais for a doçaria, está na vila errada. Cascais é boa em pastelaria mas não é a capital do assunto. Para uma imersão a sério em tradição doceira da região, o roteiro dos doces de Páscoa em Mafra leva-o a um universo completamente diferente, com receitas conventuais que não se encontram na costa.

Sete da tarde: o miradouro certo

Toda a gente vê o pôr do sol da marina ou do Guincho. A marina é confortável e tem demasiada gente. O Guincho é espectacular mas obriga a carro ou táxi e tira-o da rota dos petiscos.

A alternativa é descer até ao Miradouro da Azarujinha, já do lado de São João do Estoril, sobre uma praia pequena encaixada entre rochas. Chega-se de comboio (uma paragem, linha de Cascais) ou a pé pelo Paredão, o passeio marítimo que liga Cascais ao Estoril e além. O Paredão é, na minha opinião, a melhor infraestrutura pública da Linha: plano, à beira-mar, cheio de gente a correr, a passear cães e a namorar. A pé, de Cascais até à Azarujinha, conte quarenta minutos sem pressa.

Leve água. Não leve garrafa de vinho, que o resto do plano trata disso.

Se tiver um dia inteiro: o mar visto de dentro

Para quem tem tempo de sobra e quer transformar isto num programa de dia completo, há uma opção que muda a perspectiva de tudo o que vem a seguir: sair de Cascais de barco ao final da tarde. O passeio de sunset com observação de golfinhos parte da marina e devolve-o a terra precisamente na hora certa para o primeiro copo. Os golfinhos não são garantidos, nunca são, mas a costa vista de fora, com a Serra de Sintra atrás e as falésias a mudar de cor, resolve sozinha o preço do bilhete.

Oito e meia: começa o vinho

Petiscar em Cascais tem uma armadilha óbvia. As ruas pedonais do centro histórico, sobretudo a zona da Rua Frederico Arouca e adjacentes, estão cheias de esplanadas com ementas em cinco línguas e fotografias dos pratos. Fotografias dos pratos são sempre um mau sinal. Não é que a comida seja intragável, é que é indiferente, e paga-se a localização.

A regra que uso é simples: afaste-se duas ruas da linha principal. Suba na direcção da Rua da Bela Vista ou vá para os lados do mercado. Os preços caem uns trinta por cento e a probabilidade de ouvir português à mesa do lado sobe na mesma proporção.

Sobre o que beber, algumas convicções pessoais:

  • Vinho verde branco: a escolha óbvia para começar. Fresco, baixo em álcool, resiste bem ao calor. Peça um Loureiro ou um Alvarinho se a carta permitir escolher a casta. Um copo anda tipicamente entre os 3 e os 5 euros num sítio decente.
  • Brancos de Lisboa e de Colares: estamos na região, faz sentido. Colares é vizinho, é raro, é caro e é uma experiência à parte. Se vir um Colares a copo, prove sem hesitar. Se só houver garrafa, pense duas vezes: são vinhos com personalidade forte e não agradam a todos.
  • Tinto do Alentejo ao jantar: previsível mas eficaz com carne e queijos. Se quiser algo mais interessante, procure um tinto do Dão. É mais fresco, mais ácido e combina melhor com petiscos gordurosos.
  • Moscatel de Setúbal no fim: dois dedos num copo pequeno, gelado. Custa pouco e fecha a noite melhor do que qualquer sobremesa.

O que pedir para comer

Petiscos são um exercício de contenção. A tentação é pedir tudo de uma vez e acabar com a mesa cheia de pratos frios. Faça em rondas de dois ou três.

Primeira ronda, sempre a mesma: azeitonas, um queijo e presunto. Peça queijo de ovelha curado ou, se estiver na época e a casa tiver, um queijo amanteigado da Serra da Estrela, que se come à colher. Presunto de porco preto se houver, e não se assuste com o preço por dose: é caro porque é bom.

Segunda ronda, o mar. Estamos em Cascais, seria absurdo não o fazer. Ameijoas à Bulhão Pato, com alho, coentros e limão, e um bocado de pão para o molho, que é onde está metade do prazer. Camarão cozido, simplesmente, com sal grosso. Peixinhos da horta, que apesar do nome não têm peixe nenhum: são feijão-verde em tempura, ancestral directo do tempura japonês, e são a coisa mais subestimada da cozinha portuguesa.

Terceira ronda, se ainda houver espaço: peixe ou carne a sério. Um choco frito à setubalense, uma açorda de gambas, ou uns bifinhos de porco à alentejana com ameijoas.

Para quem quer trocar o comer pelo cozinhar, e vale mesmo a pena para quem passa vários dias na zona, a oficina de cozinha tradicional em Cascais ensina técnicas de base que transformam a leitura de qualquer ementa portuguesa depois. Faça no primeiro dia da viagem, não no último. A diferença no resto das refeições é notória.

Meia-noite: o último copo e o pão de amanhã

Cascais não é uma vila de noite longa. Há bares, há gente até tarde no verão, mas isto não é o Bairro Alto e não deve ser julgado por isso. Por volta da meia-noite, a maior parte das mesas está a fechar e a coisa mais civilizada a fazer é um último copo perto do mar, de preferência sentado num muro.

Para a manhã seguinte, deixe já resolvido o pequeno-almoço. A Sacolinha é a padaria e pastelaria a que se volta em Cascais, com uma produção que vai muito além do pastel de nata e uma clientela local que aparece antes das nove. Pão fresco, salgados, bolos. Vá cedo e coma ali mesmo.

Como chegar e quanto custa

O comboio da Linha de Cascais sai de Cais do Sodré, em Lisboa, com partidas frequentes ao longo do dia e viagem de cerca de quarenta minutos até ao terminal de Cascais. É o transporte óbvio, evita o problema do estacionamento (que em agosto é um pesadelo caro) e permite beber vinho sem culpa. Verifique os horários dos últimos comboios de regresso antes de se sentar para o último copo, porque a noite acaba mais cedo do que a maioria das pessoas espera.

Quanto a orçamento, uma noite completa de petiscos e vinho para duas pessoas, em sítios honestos fora da linha principal, fica algures entre os 50 e os 80 euros. Nas esplanadas centrais do verão, o mesmo consumo pode facilmente passar dos 120. A diferença são duas ruas a pé.

Se sobrar tempo na região

Cascais funciona bem como base para dias inteiros noutro sítio. A meia hora de comboio e autocarro está Sintra, que é um universo por si só e que compensa explorar com método em vez de correr atrás dos palácios: o guia de bairros de Sintra ajuda a decidir onde vale a pena parar. E se o objectivo for perceber o contexto cultural mais amplo da região, com bairros, tradições e o que ainda resiste ao turismo de massas, o guia de cultura local em Lisboa é a leitura complementar certa.

Mas volte sempre a Cascais para jantar. Às nove da noite, com um copo de verde na mão e um prato de ameijoas a chegar, percebe-se por que razão tanta gente que vem cá passar o dia acaba por ficar a viver.

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