Ribeira Brava Para Além da Praia: Bananeiras e São Bento
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Ribeira Brava Para Além da Praia: Bananeiras e São Bento

· · Ribeira Brava

Toda a gente passa por Ribeira Brava a caminho da Ponta do Sol e perde uma das vilas mais subestimadas da Madeira. A igreja do século XVI ninguém visita, os bananais sobem em socalcos quase verticais, e a poncha de pescador é uma decisão séria.

A maioria dos visitantes de Ribeira Brava chega de autocarro vindo do Funchal, tira uma fotografia ao pontão de calhau rolado, almoça um prego no pão na esplanada mais próxima e parte para a Ponta do Sol antes das três da tarde. É uma forma perfeitamente válida de passar duas horas. Também é, com franqueza, um desperdício. Esta vila no sul da Madeira, encaixada entre a foz da ribeira que lhe dá o nome e as encostas de bananeiras que sobem em socalcos quase verticais, tem mais para oferecer do que a praia de calhau e o miradouro do Espalmaceiros. O problema é que ninguém se dá ao trabalho de subir a colina.

Subi eu, num final de manhã de abril, e voltei convencido de que Ribeira Brava é uma das vilas mais subestimadas da ilha. Não é dramática como Seixal, nem postal como Câmara de Lobos, nem turística como Santa Cruz. É outra coisa: uma vila de trabalho, ainda agarrada à banana e ao mar, com uma igreja do século XV que ninguém visita e bananais que, vistos de cima, parecem um campo de pequenos guarda-chuvas verdes a brilhar ao sol.

A igreja que merece dez minutos do seu dia

Comecemos pelo edifício que dá nome a meio bairro. A Igreja Matriz de São Bento está mesmo no centro da vila, a poucos metros da praia, e é dos poucos templos da Madeira que sobreviveu razoavelmente intacto desde o início do século XVI. A torre sineira, com a sua cobertura xadrez de azulejo, é a imagem que toda a gente fotografa. O interior é que merece o detour.

Entre, sente-se um minuto. Repare na pia baptismal manuelina em pedra de cantaria, decorada com cordas torcidas e bolas, do tempo em que o gótico final ainda discutia com o renascimento. O retábulo-mor é maneirista, com tábuas pintadas que vale a pena observar com calma. E há um púlpito de madeira entalhada que, dependendo da luz que entra pelas janelas altas, parece flutuar. Tudo isto é gratuito e quase sempre vazio. Vinte minutos aqui valem mais do que uma hora à fila para entrar no Mosteiro dos Jerónimos.

Conselho prático: a igreja costuma estar aberta de manhã e ao fim da tarde, com pausa ao almoço. Se chegar e estiver fechada, dê uma volta pela praça e volte uma hora mais tarde. Não vale a pena planear o dia ao minuto em Ribeira Brava, ninguém o faz.

Porque é que há tantas bananeiras

Saia da igreja, caminhe duzentos metros para norte e levante os olhos. Do outro lado da ribeira, a encosta sobe em socalcos verdes que parecem desenhados com régua. Aquilo são poios de banana, a cultura que sustenta esta vertente sul desde o final do século XIX, quando a vinha entrou em crise por causa da filoxera e os agricultores procuraram alternativa.

A banana da Madeira é uma variedade pequena, a Cavendish anã, mais doce e mais perfumada do que a banana de plantação industrial que encontra no supermercado do continente. É também mais frágil, motivo pelo qual quase toda a produção fica na ilha. Quem prova uma banana madurada na própria árvore, comprada num mercadinho de estrada por um euro o quilo, percebe rapidamente porque é que os madeirenses ficam ofendidos quando alguém compara a fruta deles à dos Açores ou das Canárias.

Os poios são uma engenharia silenciosa de séculos. Cada plataforma é sustentada por um muro de pedra basáltica empilhada à mão, sem argamassa, e cada poio tem o seu próprio canal de rega derivado de uma levada. Sem este sistema, nada cresceria nesta encosta. Com ele, cresce uma das melhores bananas da Europa.

Onde ver os bananais de perto

Há duas formas fáceis. A primeira é subir de carro pela ER229 em direção a Serra de Água, parar no primeiro miradouro depois da saída da vila e olhar para baixo. A segunda, mais interessante, é caminhar. Saia da praça da igreja pela Rua do Visconde, atravesse a ponte sobre a ribeira e siga a estrada estreita que sobe pelo lado oeste. Em quinze minutos está no meio dos bananais, com vista para o mar e o cheiro de fruta madura no ar. Se for em maio ou junho, vai ver os cachos enormes envoltos em sacos azuis, técnica usada para proteger a fruta das aves e do sol direto.

Comer em Ribeira Brava sem cair na armadilha

A maior parte dos restaurantes da marginal vive de menus turísticos a 15 euros com sopa, espetada e pudim. São aceitáveis, sem mais. Para comer a sério em Ribeira Brava, afaste-se duzentos metros do mar.

Procure pratos típicos da costa sul da Madeira: lapas grelhadas com manteiga de alho e limão, gaiado em vinha de alhos (peixe da família do atum, mais barato e mais saboroso do que a maior parte dos peixes brancos), bolo do caco acabado de fazer com manteiga de alho. A espetada em pau de loureiro é obrigatória pelo menos uma vez na vida, mas peça-a num restaurante onde vejam o pau verdadeiro, não o espeto de aço inox. O loureiro perfuma a carne de uma forma que o metal nunca consegue.

Bebida: poncha. A de Ribeira Brava é tradicionalmente feita com aguardente de cana, mel de cana (não mel de abelha) e limão. A versão pescador, ainda mais forte, leva apenas aguardente, mel e limão sem açúcar. Uma chega para a tarde inteira. Duas e já não conduz para o Funchal.

Usar Ribeira Brava como base

Aqui vai a opinião impopular: ficar alojado em Ribeira Brava é melhor do que ficar no Funchal, se o seu objetivo for explorar a ilha de carro. Está a 25 minutos da capital pela via rápida, a 15 da Calheta, a 40 do Porto Moniz e a uma hora de Santana. Os preços são metade dos do Funchal, há estacionamento gratuito em quase todo o lado e à noite ouve-se a ribeira em vez de discotecas.

Para quem quer combinar Ribeira Brava com a costa oeste, a saída lógica de meio dia é Calheta. A nossa excursão de dia inteiro à Calheta e às piscinas naturais saindo de Ribeira Brava é uma forma de fazer o trajeto sem alugar carro, com paragens nos miradouros que os autocarros públicos saltam. Boa opção se chegou de avião e ainda não está confortável a conduzir nas vertiginosas estradas costeiras da ilha.

O que fazer com as outras horas do dia

Ribeira Brava esgota-se em meio dia. Felizmente, a Madeira não. Aqui ficam três sugestões de combinações honestas:

Manhã na vila, tarde nas levadas

Igreja, bananais, almoço de lapas, e depois uma levada perto do Funchal. Há trilhos de duas horas perfeitamente acessíveis, sem necessidade de equipamento técnico. As nossas recomendações de levadas para abril partem todas de pontos a menos de 40 minutos de Ribeira Brava. A Levada do Caldeirão Verde, por exemplo, é uma escolha clássica para quem quer floresta laurissilva sem multidões.

Combinação com o Funchal em junho

Se está cá em junho, a vida cultural está toda na capital: o Festival do Atum, as noites de música na Praça do Município, o início da temporada de mergulho. Use Ribeira Brava como dormida e vá ao Funchal só ao fim do dia, evitando os cruzeiros que despejam multidões ao meio-dia. O nosso guia de Funchal em junho tem o calendário detalhado.

Dia em Santana, noite em Ribeira Brava

Travessia da ilha pelo Paul da Serra, almoço de carne em pau de loureiro em Santana, regresso ao fim da tarde. São cerca de duas horas e meia de carro no total, mas é uma das melhores formas de perceber a diferença entre a Madeira do norte (húmida, verde, escarpada) e a do sul (seca, agrícola, mediterrânica). Para o roteiro detalhado de Santana, consulte o nosso roteiro de 24 horas em Santana. As casas de colmo continuam a ser o cliché obrigatório, mas o melhor de Santana é o que está fora do parque temático.

Quando ir

Ribeira Brava é confortável o ano todo, com temperaturas entre 18 e 26 graus na maior parte dos meses. Mas há nuances. Em janeiro e fevereiro, o sul da ilha está fresco e ventoso e a vila fica meio adormecida. Março e abril são excelentes: vegetação no auge, multidões ainda longe, ondulação razoável para caminhar pela marginal. Maio e junho são, na minha opinião, o melhor momento, com bananais em produção, dias longos, e a temperatura da água do mar a passar finalmente os 20 graus.

Julho e agosto enchem com famílias portuguesas em férias e turistas centro-europeus, e os preços de alojamento subam visivelmente. Setembro e outubro voltam a acalmar e mantêm o calor, sendo das melhores épocas para combinar praia e levadas. Novembro e dezembro são imprevisíveis, com chuvas pesadas possíveis na vertente sul, mas também dias luminosos perfeitos para fotografia.

Como chegar

Do aeroporto da Madeira, são cerca de 35 minutos pela via rápida VR1, com portagem incluída na renda do carro de aluguer (em quase todos os casos). De autocarro, a Rodoeste opera várias carreiras diárias entre o Funchal e Ribeira Brava, partindo da estação rodoviária junto à marina. O bilhete custa cerca de quatro euros e a viagem demora 50 minutos, com paragens em Câmara de Lobos. É confortável, fiável e bem mais barato do que o táxi.

Se vem só para o dia, o autocarro é mais do que suficiente. Se vai dormir, ou se quer combinar Ribeira Brava com excursões pelo interior e pela costa oeste, alugar carro é praticamente obrigatório.

O que levar para casa

Esqueça os ímans de cortiça e os galos de Barcelos (que, recordo, são do Minho, não da Madeira). De Ribeira Brava, leve duas coisas: uma garrafa de aguardente de cana de produtor local, vendida em mercearias do centro a preço razoável, e um quilo de bananas da árvore, embrulhadas em jornal para aguentarem a viagem de avião. Ambas vão lembrá-lo, três dias depois, em casa, de que esta vila merece bem mais do que a paragem rápida que o seu autocarro turístico tinha previsto.

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