Ribeira Brava: Bananas, Cana e o Doce Passado da Madeira
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Ribeira Brava: Bananas, Cana e o Doce Passado da Madeira

· · Ribeira Brava

Na Ribeira Brava, as bananeiras descem em socalcos até quase tocarem o calhau da praia, e um antigo engenho de aguardente guarda a memória do açúcar que pagou a igreja manuelina. Um roteiro doce pela costa sul da Madeira, do museu ao bolo de mel.

Quem chega à Ribeira Brava pela via rápida sai de um túnel e dá de caras com bananeiras. Não é figura de estilo: são milhares, plantadas em socalcos que os madeirenses chamam poios, a descer pela encosta até quase tocarem o calhau da praia. Há folhas de bananeira a espreitar por cima de muros de garagens, cachos embrulhados em sacos azuis a amadurecer ao lado de estendais de roupa, e um cheiro adocicado que se mistura com a maresia. A vila tem nome de rio bravo, mas o que realmente manda aqui há cinco séculos é a agricultura de coisas doces. Primeiro foi a cana-de-açúcar. Depois, a banana. E essa história, contada com calma, vale mais do que qualquer tarde de toalha na praia.

O ouro branco que pagou a igreja

Antes da banana, a Madeira viveu do açúcar. No século XV e XVI, a ilha foi um dos maiores produtores de açúcar do mundo, e os vales da costa sul, com água abundante a correr das serras, eram perfeitos para mover engenhos. O dinheiro do chamado ouro branco pagou igrejas, retábulos e pinturas flamengas que ainda hoje se veem por toda a ilha. Os mercadores madeirenses trocavam açúcar por arte na Flandres, o que explica por que razão uma ilha no meio do Atlântico tem um espólio de pintura flamenga que faria inveja a muita cidade europeia.

Na Ribeira Brava, o testemunho mais visível dessa era é a Igreja Matriz de São Bento, com origens no século XV e pormenores manuelinos que sobreviveram a sucessivas remodelações. Repare na torre com o topo revestido de azulejos, visível de quase toda a baixa. É uma igreja de vila pequena construída com ambição de cidade, e isso só foi possível porque havia açúcar a sair daqui. Entre é grátis, claro, mas evite a hora da missa se quiser circular à vontade.

O engenho que virou museu

A poucos minutos a pé da igreja, na Rua de São Francisco, fica o Museu Etnográfico da Madeira, instalado num antigo solar que funcionou como engenho de aguardente de cana. É, sem rodeios, a melhor introdução à cultura material da ilha: moinhos, lagares, teares, aparelhos de pesca e, claro, toda a maquinaria ligada à cana-de-açúcar. A entrada custa pouco, mas confirme horários e preços localmente, porque os museus regionais fecham à segunda-feira com frequência. Reserve uma hora. Se só tem tempo para uma sala, vá direto à secção dos engenhos: percebe-se ali, melhor do que em qualquer livro, como a água das levadas movia a economia inteira da costa sul.

Um detalhe que escapa a muita gente: a aguardente de cana que se produzia em engenhos como este é a base da poncha, a bebida madeirense por excelência, batida com mel de abelha e limão. E o mel de cana, o melaço escuro que resulta da cozedura do sumo da cana, é o ingrediente que define o bolo de mel, o bolo escuro e denso que tradicionalmente se parte à mão, nunca à faca, e que aguenta meses sem estragar. Quando comprar um, está literalmente a comer a herança açucareira da ilha.

Os poios de banana, hoje

A cana entrou em declínio quando o Brasil inundou a Europa de açúcar barato, e a costa sul reconverteu-se. Hoje, da Ribeira Brava até à Madalena do Mar e à Ponta do Sol, a banana é a cultura rainha das cotas baixas, abaixo dos 300 metros, onde o sol e o abrigo dos vales criam um microclima quase tropical. A banana da Madeira é mais pequena do que a que encontra num supermercado continental, e visivelmente mais doce e perfumada. Não é opinião, é química: amadurece mais devagar e concentra mais açúcar.

O meu conselho prático: compre bananas numa mercearia ou banca local da vila, nunca as de importação. Pague o que pedirem, que será pouco, e coma uma ali mesmo, no paredão da frente-mar, a olhar para os poios de onde ela veio. É o circuito curto mais satisfatório da Madeira. Se for caminhar pelas levadas noutro dia, leve meia dúzia na mochila: não há barra energética que lhes chegue. Aliás, se está a planear trilhos, o nosso guia das levadas essenciais para abril explica quais valem o esforço e quais pode saltar.

Vale a pena subir um pouco pela encosta, a pé ou de carro, para ver os poios de cima. Os muros de pedra que sustentam cada socalco foram levantados à mão ao longo de gerações, e a geometria do conjunto, vista do alto, é das imagens mais fortes da costa sul. Se quer levar isso para casa em condições, há quem faça disto profissão: uma sessão de fotografia na Ribeira Brava com fotógrafo local resolve o problema de tentar enquadrar bananeiras, mar e montanha com o telemóvel ao meio-dia, que é quando toda a gente tenta e ninguém consegue.

Onde comer quando a fome aperta

Depois do museu e da igreja, a fome resolve-se sem sair da baixa. O Restaurant & Grill Muralha Terrace tem a localização que o nome promete e grelhados que justificam a paragem. A minha sugestão é simples: peça peixe do dia ou espetada, acompanhe com bolo do caco com manteiga de alho, e termine com banana, em qualquer formato que a casa proponha. Banana grelhada, banana com bolo, banana simples: nesta vila, recusar sobremesa de banana é quase falta de educação. Uma poncha antes ou depois fecha o ciclo histórico: cana, mel, limão, tudo produto da ilha.

A excursão lógica: Calheta e o engenho vivo

Se a história da cana lhe despertou curiosidade, o passo seguinte é óbvio. Na Calheta, a vinte minutos para oeste, ainda funciona um dos últimos engenhos da ilha, onde a cana é moída na época da safra, normalmente entre março e maio. Nessa altura o ar em redor cheira a sumo de cana fervido, e pode provar aguardente e mel de cana no sítio onde são feitos. A forma mais cómoda de fazer isto sem carro é o dia inteiro na Calheta e piscinas naturais com saída da Ribeira Brava, que junta o lado doce da história com banhos de mar. Fora da época da safra, o engenho continua a merecer visita pela maquinaria e pela loja, mas confirme localmente o que está a funcionar.

Como chegar, quando ir, quanto custa

A logística é simples. De carro, a Ribeira Brava fica a cerca de meia hora do Funchal pela via rápida, quase sempre dentro de túneis, com estacionamento razoável junto à frente-mar. Sem carro, os autocarros da Rodoeste ligam o Funchal à vila várias vezes por dia; os horários mudam com as estações, por isso confirme localmente antes de planear o regresso.

  • Melhor altura: março a maio, se quiser apanhar a safra da cana nos engenhos. A banana, essa, colhe-se todo o ano.
  • Tempo necessário: meio dia chega para a vila; um dia inteiro se juntar a Calheta.
  • Orçamento: a vila é barata. Museu, café, almoço com peixe e poncha: dificilmente gastará mais do que gastaria num só jantar no Funchal.
  • Levar: chapéu e protetor solar. A costa sul é a zona mais soalheira da ilha, e os poios não têm sombra.

Um último argumento para quem está a montar o roteiro madeirense: a Ribeira Brava combina bem com contrastes. Se já leu o nosso roteiro de 24 horas em Santana, sabe que o norte da ilha é verde, húmido e fresco. A Ribeira Brava é o oposto exato: sol, calhau quente, bananeiras. Fazer os dois em dias seguidos é a forma mais rápida de perceber que a Madeira não é uma ilha, são várias. E todas, de uma maneira ou de outra, ainda vivem do que se planta nos poios.

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