Ribeira Brava ao Almoço: Mercado, Espetada e Bolo do Caco
Guia

Ribeira Brava ao Almoço: Mercado, Espetada e Bolo do Caco

· · Ribeira Brava

Os autocarros turísticos passam Ribeira Brava em cinco minutos. Quem fica para almoçar descobre uma igreja com elementos manuelinos genuínos, um mercado sem teatro para turistas, e a espetada em pau de louro como deve ser feita. Três horas, sem pressa.

Ao meio-dia em Ribeira Brava, o sol bate a pino na promenade e a maioria dos autocarros turísticos já seguiu para Câmara de Lobos ou para o Cabo Girão. Fica quem sabe: meia dúzia de madeirenses a beber poncha no balcão, dois ou três casais alemães confusos com o menu, e o cheiro a louro queimado a sair pelas portas dos restaurantes da rua principal. É a melhor hora para chegar. Os pratos saem mais rápidos, há mesa sem reserva, e o calor do início da tarde dá vontade exata daquilo que esta vila do sul da Madeira faz melhor: comer devagar, beber qualquer coisa fresca, e fingir que não temos pressa nenhuma.

Ribeira Brava é frequentemente despachada como paragem de cinco minutos: foto à igreja, café no largo, próxima paragem. É um erro. A vila tem uma das melhores combinações de mercado, restaurantes de espetada decentes e bolo do caco fresco de toda a costa sul. E ao contrário do Funchal, dá para fazer tudo a pé sem encontrar um único guarda-sol com bandeira a apontar para um grupo.

Como chegar e onde estacionar (sem perder a manhã)

De carro, são cerca de 25 minutos do Funchal pela VR1, saída 7. O estacionamento subterrâneo junto à promenade é a aposta certa: à superfície, no verão, é uma loteria. De autocarro, a Rodoeste tem ligações regulares do Funchal (cerca de uma hora, confirme horários localmente porque mudam consoante a época). Se vem de cruzeiro, há transfers diretos, mas avise: a maioria deposita-o à porta da igreja às 11h, exatamente quando os autocarros maiores chegam. Atrase-se de propósito.

A vila organiza-se entre dois pontos: a foz da ribeira (com a promenade e o pequeno fortim de São Bento) e o largo da matriz, a duzentos metros. Tudo o que interessa cabe num raio de dez minutos a pé. Use isso a seu favor.

Começar pela Igreja: porque vale mais do que parece

Antes de comer, faça os vinte minutos da Igreja Matriz de São Bento. Sei o que está a pensar: já vi quinhentas igrejas em Portugal, esta há de ser igual. Não é. A matriz de Ribeira Brava é uma das poucas igrejas madeirenses com elementos manuelinos genuínos, do início do século XVI, e o púlpito de pedra com a flor de lis é o tipo de detalhe que os guias rápidos saltam mas que justifica a entrada. O retábulo da capela-mor é tardo-gótico, o azulejo é sevilhano do XVII, e o silêncio às 11h30 da manhã, com a porta lateral entreaberta para o largo, faz mais pela paciência do que qualquer aplicação de meditação.

Entrada gratuita na altura em que escrevo isto, mas há uma caixa de donativos perto da entrada. Cinco euros é justo se gostou. Se não gostou, ainda assim vá: a vista do largo para a ponte e para o mar enquadra-se melhor do lado de fora da porta da igreja do que de qualquer outro ponto da vila.

O mercado: o que comprar e o que ignorar

O mercado municipal de Ribeira Brava é pequeno, sincero, e fica ao lado da estação de autocarros. Não tem o teatro do Mercado dos Lavradores no Funchal, e isso é uma vantagem: aqui ninguém lhe vai oferecer fatias de meloa a três euros cada. Os preços são os mesmos para quem mora na vila e para quem chegou agora.

  • O que comprar: tomate cherry da costa sul (no verão é quase obsceno de doce), banana-prata da Madeira (mais pequena, mais firme, melhor do que a importada), maracujá-banana quando há, e queijo fresco se o conseguir levar refrigerado.
  • O que ignorar: as bancas de "souvenirs" com poncha em garrafas decorativas. A poncha boa vende-se nos bares, fresquinha. As que estão à temperatura ambiente em garrafas com fitas são para vitrine, não para beber.
  • Quando ir: sábado de manhã, idealmente entre as 8h e as 10h. À tarde, metade das bancas já fechou.

Se for em junho, leve nêsperas. A Madeira tem nêsperas do tamanho de ovos de codorniz, e na época custam menos de dois euros o quilo se comprar fora do Funchal. É uma fruta de validade curta: coma-as no dia.

A questão fundamental: onde almoçar?

Esta é a parte em que tenho de ser direto. Há uma dúzia de restaurantes a meia hora de caminhada uns dos outros, e a maioria é razoável. Razoável não chega quando se tem fome e dois dias na ilha. A escolha sensata, especialmente se quer espetada como deve ser, é o Restaurant & Grill Muralha Terrace.

Reservei a primeira vez por engano (era o único que tinha mesa às 13h num sábado) e voltei nas três viagens seguintes. A terraço dá para a ribeira e para o mar, mas isso é acessório. O essencial: a espetada é em pau de louro genuíno, não em espeto de metal, o que muda tudo. O louro queima ligeiramente, perfuma a carne, e quando o pau chega à mesa pendurado naquele suporte vertical, o sumo da carne pinga para o pão que está por baixo. É esse pão, embebido em gordura de vaca e sal grosso, que separa uma espetada decente de uma espetada que se recorda.

Ordens diretas: peça espetada em pau de louro para duas pessoas (não se acanhe, vem generosa), milho frito como acompanhamento (não as batatas, peço desculpa), e uma poncha pescador para começar. Para acabar, se ainda couber, peça um copo pequeno de aguardente de cana com mel. Se vier sozinho, há prato individual com espetada mais pequena. Custos rondam os 18-25 euros por pessoa com bebida, o que para o que é, é justo.

Detalhe que ninguém lhe diz: o bolo do caco serve-se quente, com manteiga de alho e salsa. Não peça sem manteiga "para experimentar puro". O bolo do caco puro é pão. Com manteiga de alho é a razão pela qual existe.

Sobre poncha: a versão curta

Há três ponchas que importam. A regional clássica leva aguardente de cana, mel de cana, e sumo de limão, mexida com um caralhinho de madeira (sim, é assim que se chama o pau, e os madeirenses dirão o nome em voz alta sem corar). A pescador junta laranja e é mais doce. A maracujá é para turistas, mas é boa.

Não beba mais do que duas ao almoço. A poncha sabe a sumo, mas o álcool é de cana e bate forte quando se levanta da mesa para sair ao sol. Se vai conduzir até ao Funchal à tarde, pare numa só. Aliás, considere apanhar autocarro.

O resto da tarde: três opções honestas

1. Ficar e não fazer nada

A promenade da Ribeira Brava tem bancos à sombra, café decente no quiosque, e uma vista para o oceano que melhora cada hora à medida que a luz baixa. Se trouxe livro, este é o sítio. Os locais fazem isso ao domingo e não há nenhuma vergonha em copiar.

2. Ir até à Calheta

Quinze quilómetros a oeste fica a Calheta, e se quer praia de areia (importada, mas areia) e piscinas naturais, a melhor forma de aproveitar sem stress logístico é a excursão de dia inteiro saindo daqui mesmo. Tem motorista, evita o estacionamento impossível do verão, e inclui paragem nas piscinas do Anjos para um mergulho frio que cura qualquer ressaca de poncha.

3. Voltar com fotografias decentes

Se viajar é fácil mas chegar a casa com fotografias boas continua a ser difícil para a maioria de nós, considere a sessão de fotografia local. Não é o que eu costumo recomendar (sou da escola de telemóvel no bolso), mas para casais e famílias em viagem específica vale o investimento. A luz da tarde na ribeira é particularmente boa, com sombra alta vinda da serra.

Quando vir: a estação importa mais do que parece

A Madeira é vendida como destino de doze meses, e em parte é verdade. Mas Ribeira Brava ao almoço tem temperaturas muito diferentes consoante o mês. Em janeiro, vento. Em agosto, calor pesado que mata o apetite até às quatro da tarde. Os meses ideais são abril, maio, e junho, mais os primeiros quinze dias de outubro.

Em abril, combine a vila com uma manhã nas levadas. As levadas essenciais para abril apanham a vegetação no pico, antes do calor que cala as cigarras. Em junho, há o Festival do Atum e as noites longas do Funchal: vale a pena planear duas bases (uma noite em Ribeira Brava, duas no Funchal em pleno festival) para apanhar o melhor dos dois mundos.

Se ficar mais dias na ilha, considere subir a norte. O contraste é genuíno: o sul é seco e luminoso, o norte é verde e dramático. Vinte e quatro horas em Santana é tempo suficiente para perceber que está noutra ilha completamente.

O que evitar (com carinho)

  • Restaurantes com menu plastificado em quatro idiomas à porta: regra simples, regra que funciona. A excepção são os que têm fotografias, porque os locais às vezes pedem ajuda visual.
  • Comprar lembranças no caminho da igreja: os mesmos pares de chinelos de napa custam metade no mercado do Funchal.
  • Bolo do caco congelado: se vir o pão a chegar à mesa duro do meio, devolva. O bolo do caco fresco é macio em todo o lado.
  • Mexilhões à conquilha: não são daqui. Se quer marisco, espere até ao Funchal ou a Câmara de Lobos.

Um almoço, três horas, uma vila

O segredo de Ribeira Brava é precisamente este: não há segredo. Há uma igreja melhor do que se diz, um mercado honesto, um restaurante de espetada que faz a coisa como deve ser, e uma promenade que perdoa a quem chegou apressado. Dê três horas à vila ao almoço de um dia útil. Não cinco minutos a caminho de outro sítio. Três horas inteiras, com mesa marcada, sem agenda apertada para a tarde.

É a diferença entre ter "passado pela Madeira" e ter "almoçado em Ribeira Brava". A segunda história é melhor para contar à mesa quando voltar. Em geral, as melhores histórias de viagem são sempre sobre uma refeição específica, num sítio específico, num dia em que ninguém estava com pressa. Esta é uma delas, à espera de ser feita.

Gastronomia Madeira Ribeira Brava