Ribeira Brava com Crianças: O Guia Sem Filtros para Famílias
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Ribeira Brava com Crianças: O Guia Sem Filtros para Famílias

· · Ribeira Brava

A Madeira não é o destino mais óbvio para famílias, mas Ribeira Brava tem piscinas junto ao mar, um mercado compacto cheio de frutas tropicais, e um parque infantil ao lado de uma igreja do século XVI. Um guia sem filtros para quem viaja com crianças.

Vou ser direto: a Madeira não foi desenhada a pensar em famílias com crianças pequenas. As levadas têm desníveis, os restaurantes servem tarde, e metade das atrações turísticas exigem pernas de cabra. Ribeira Brava, no entanto, é uma excepção honesta. Não é um parque temático, não tem entretenimento fabricado, mas tem algo melhor: uma vila costeira de tamanho humano onde as crianças podem correr sem que ninguém entre em pânico.

Porquê Ribeira Brava e não o Funchal

O Funchal tem mais opções, claro. Mas também tem mais trânsito, mais escadas, mais restaurantes que olham de lado para o carrinho de bebé. Ribeira Brava fica a cerca de 30 minutos do Funchal pela Via Rápida, e a diferença de ritmo nota-se ao primeiro café. Aqui, a marginal é plana, o centro é compacto, e há espaço real para as crianças se mexerem. Se estão a alugar carro (e devem, na Madeira), vale a pena fazer daqui base para pelo menos um dia inteiro.

A praia: expectativas realistas

Primeiro, o aviso que ninguém dá: a praia de Ribeira Brava é de calhau, não de areia. Se os vossos filhos estão habituados ao Algarve, preparem-nos. Dito isto, o complexo balnear tem duas pequenas piscinas junto ao mar, e uma delas é perfeita para crianças. A água é limpa, há vigilância na época balnear, e o molhe protege das ondulações mais fortes. Tragam sapatos de água, que os seixos não perdoam pés descalços.

A marginal que liga Ribeira Brava à vizinha Tabua tem cerca de 1,5 km e é plana o suficiente para carrinhos de bebé. De manhã, antes das 10h, é uma caminhada excelente: o mar de um lado, as bananeiras do outro, e quase ninguém no caminho. Para crianças maiores, há pedalos e pranchas de stand-up paddle para alugar na praia durante o verão.

O mercado: a melhor aula de ciências da viagem

O Mercado Municipal da Ribeira Brava é pequeno, o que para famílias é uma vantagem. Não cansam, não se perdem, e em vinte minutos viram tudo. Levem as crianças de manhã cedo, de preferência num dia de semana. A secção de frutas é a melhor parte: anonas, maracujás, bananas da Madeira que não se parecem com nada do supermercado. Comprem fruta para o lanche da praia. Uma mão de bananas custa pouco e são incomparavelmente mais doces do que as de importação.

Se os miúdos têm idade para provar, peçam para ver o bolo de mel, o doce denso e escuro que é tradição madeirense. Não é mel, apesar do nome: é melaço de cana-de-açúcar. Alguns adoram, outros fazem careta. De qualquer forma, é uma experiência.

A Igreja e a praça: dez minutos bem gastos

A Igreja Matriz de São Bento é do século XVI e vale uma visita rápida, mesmo com crianças. O interior é fresco (alívio nos dias quentes), os arcos góticos impressionam visualmente, e os dois enormes candelabros de cristal suspensos do tecto costumam captar a atenção até dos mais irrequietos. Não esperem uma visita de meia hora: dez minutos bastam, e saem pela porta principal directamente para a praça.

E é na praça que está o verdadeiro prémio para os mais novos: um pequeno parque infantil mesmo ao lado da igreja. Não é nada de extraordinário, mas tem baloiços, um escorrega, e sombra. Enquanto as crianças brincam, os pais podem sentar-se num café da praça e respirar. É o tipo de momento que não aparece nos guias turísticos mas que salva tardes inteiras.

O Museu Etnográfico: depende da idade

O Museu Etnográfico da Madeira, instalado num edifício recuperado no centro de Ribeira Brava, merece uma nota honesta. Com crianças abaixo dos 6 anos, esqueçam. Acima dos 8, pode funcionar, especialmente se gostam de barcos: a secção dedicada à pesca tem modelos de embarcações, artes de pesca antigas, e explica a história da pesca e da caça à baleia na Madeira, que é genuinamente interessante. Há também secções sobre tecelagem e vida rural. Abre de terça a sexta das 09h30 às 17h00, e sábados das 10h00 às 12h30 e das 13h30 às 17h30. Encerra domingos, segundas e feriados. Confirme preços localmente.

Onde comer sem dramas

Ribeira Brava não é um destino gastronómico de referência, e não vou fingir o contrário. Mas tem uma mão-cheia de restaurantes na marginal onde se come peixe grelhado honesto, bife de atum, e espetada madeirense (carne de vaca no espeto de loureiro). Para crianças, a espetada funciona surpreendentemente bem, porque é carne simples sem molhos complicados.

Os restaurantes junto à praia servem almoços a preços razoáveis para a Madeira, e a maioria tem esplanada. Cheguem antes das 12h30 se querem mesa com vista, porque os autocarros de turistas dos hotéis do Funchal aparecem por volta da uma. Evitem jantar muito tarde: com crianças cansadas de sol, às 19h já devem estar a comer.

Uma nota sobre a poncha: é a bebida regional, feita com aguardente de cana, mel e limão. Os adultos devem provar (peçam poncha de maracujá, que é a mais acessível), mas atenção que é mais forte do que parece. Não é sumo de fruta, apesar de parecer.

Excursões a partir de Ribeira Brava

Se ficam mais do que um dia, Ribeira Brava é um bom ponto de partida para explorar a costa sul da Madeira. Com crianças mais velhas (acima dos 7-8 anos), vale a pena considerar uma levada fácil. As levadas do Funchal oferecem trilhos com diferentes níveis de dificuldade, e alguns são perfeitamente acessíveis para famílias. Escolham percursos curtos (máximo 2-3 km), levem água, lanches, e impermeável: o tempo muda rápido na Madeira.

Outra opção excelente para famílias é passar um dia em Santana, na costa norte. As casas tradicionais de colmo são visualmente apelativas para crianças, e se quiserem organizar o dia, o nosso roteiro de 24 horas em Santana dá uma estrutura prática. E antes de saírem, vejam o nosso guia sobre o artesanato de Santana que vale a pena levar para casa, porque comprar uma lembrança feita à mão é sempre melhor do que um íman de frigorífico.

Dicas práticas sem rodeios

  • Protector solar, mesmo com nuvens. O sol da Madeira queima mais rápido do que no continente, e na praia de calhau a reflexão é brutal.
  • Sapatos de água para a praia. Não é opcional, é essencial.
  • Se viajam com bebé, a marginal é amiga de carrinhos. O centro histórico já nem tanto: há degraus e calçada irregular.
  • Estacionamento: há um parque junto à marginal que enche rápido ao fim-de-semana. Cheguem cedo ou estacionem nas ruas paralelas acima do centro.
  • A Via Rápida que liga ao Funchal tem túneis longos. Algumas crianças ficam desconfortáveis: avisem-nas.
  • Farmácias e supermercados existem no centro. Não precisam de trazer tudo do Funchal.

O veredicto honesto

Ribeira Brava não vai aparecer em listas de "melhores destinos para famílias na Europa". Não tem aquários, parques aquáticos, nem animação organizada. O que tem é uma coisa que pais cansados valorizam mais do que qualquer atração: espaço para respirar. Uma manhã na piscina da praia, almoço de peixe na esplanada, uma passagem pelo mercado, dez minutos na igreja, e a tarde no parque infantil. Não é glamoroso. Mas é real, é tranquilo, e no final do dia, toda a gente dormiu bem. Na Madeira com crianças, isso vale ouro.

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