Porto no Verão: Rio, Praias e Fugas de Um Dia
No verão, o Porto passa o dia a fugir do sol e a noite a celebrá-lo. Um guia opinativo para trabalhar com o calor: jardins de manhã, elétrico 1 até à Foz com peixe grelhado em Matosinhos, fugas de comboio e noites que só começam à meia-noite.
Há uma altura do dia, no Porto em julho, em que a cidade muda de temperatura sem mudar de hora. Por volta das sete da tarde, o sol deixa de bater a direito na Ribeira e começa a deslizar pela margem de Gaia, e de repente toda a gente que estava escondida do calor sai à rua ao mesmo tempo. É esse o Porto de verão: uma cidade que passa o dia a fugir do sol e a noite a celebrá-lo. Quem chega em agosto à espera do granito frio e da chuva miudinha que tornou a cidade famosa vai apanhar um susto. Faz calor. Faz mesmo. E a melhor forma de o aproveitar não é trancar-se num museu com ar condicionado, mas seguir a água: o rio de manhã, o mar à tarde, e as colinas com sombra a meio.
Comece pelas alturas, antes do calor apertar
Se há um erro que os visitantes fazem no verão, é descer logo à Ribeira ao meio-dia. A Ribeira ao meio-dia em agosto é um forno de pedra cheio de gente a transpirar à procura de uma mesa com sombra que não existe. Faça o contrário. Comece em cima, nos Jardins do Palácio de Cristal, idealmente antes das dez da manhã, quando ainda há orvalho nos buxos e os pavões andam à solta sem ninguém a persegui-los com o telemóvel. A entrada é gratuita e os jardins abrem cedo. O que poucos guias dizem é que o melhor miradouro não é o terraço óbvio junto à cúpula, mas os recantos virados a poente, onde se vê o Douro a desenhar a curva em direção à foz. Leve um café de fora, sente-se num banco, e deixe a cidade acordar lá em baixo.
Daqui, a descida faz-se a pé. Não tenha pressa. As ruas das Virtudes, com os seus socalcos e o miradouro improvisado onde os estudantes se sentam ao fim do dia com cerveja morna, levam-no naturalmente para o centro. É também por aqui que percebe a escala da cidade: o Porto é pequeno e vertical, e quase tudo o que interessa está a vinte minutos a pé de quase tudo o resto. Se quiser estrutura nesse vaguear, o walking tour pelo centro histórico com a Living Tours faz o trabalho de juntar as pontas, da Sé à Estação de São Bento, com aquele tipo de história que não vem nos painéis informativos.
O rio é para a manhã, não para o meio-dia
A relação do Porto com o Douro é a coisa mais óbvia da cidade e, mesmo assim, a maioria das pessoas vive-a mal. O passeio clássico de barco rabelo pelas seis pontes é simpático mas turístico até ao osso, e no pico do verão vai partilhá-lo com trezentas pessoas e um guia a debitar números em quatro línguas. Há uma alternativa melhor e quase gratuita: caminhar a margem.
Atravesse o tabuleiro inferior da Ponte Luís I, do lado do Porto para Gaia, logo de manhã. A vista para a Ribeira a partir do meio da ponte é, sem exagero, uma das melhores da Europa, e às nove da manhã tem-na quase só para si. Do lado de Gaia, em vez de entrar logo numa cave de vinho do Porto, ande pelo cais até onde os autocarros já não chegam. As caves estão abertas e as provas valem a pena, mas faça-as a meio da tarde, quando a cave fresca é um alívio e não uma obrigação. De manhã, fique com a luz.
A meio desta caminhada vai ter fome, e é aqui que entra o melhor conselho prático que lhe posso dar sobre comer no Porto em dia de calor: esqueça a francesinha. Sim, eu sei. A francesinha é um monumento, e há de a comer numa noite fresca de outono em que o estômago aguente meio quilo de carne afogada em molho de cerveja e queijo derretido. Em pleno agosto, ao sol, é uma sentença. Vá antes a Duarte's Comida de Rua, onde a comida é pensada para se comer de pé, depressa e bem, sem aquele torpor que arruina uma tarde. Coma qualquer coisa leve, beba água, e guarde o apetite grande para a noite.
À tarde, vá ao mar (o elétrico 1 é o segredo)
Toda a gente sabe que o Porto fica junto ao mar e quase ninguém vai lá. É um dos grandes mistérios da cidade. A foz do Douro, onde o rio finalmente se entrega ao Atlântico, está a apenas vinte minutos do centro e é onde os portuenses realmente passam os domingos de verão.
A forma certa de lá chegar é o elétrico 1, o último elétrico histórico da cidade que ainda faz serviço a sério. Apanha-se junto à Igreja de São Francisco, na Ribeira, e segue toda a margem do rio até à Foz, chocalhando sobre carris antigos com o Douro sempre à direita. É lento, é quente, range nas curvas, e é uma das melhores viagens de transporte público que vai fazer na vida. O bilhete custa poucos euros e compra-se ao condutor. Saia no fim da linha e estará na fronteira entre o rio e o mar.
A partir daqui, as praias estendem-se para norte. As mais próximas, junto ao Castelo do Queijo e à Praia de Matosinhos, são urbanas, com areia larga e ondas para quem quer aprender a surfar. O Atlântico aqui é frio, mesmo em agosto: não venha à espera do Algarve. Mas há uma compensação que mais do que paga o arrepio inicial: Matosinhos é o melhor sítio do Grande Porto para comer peixe grelhado. A Rua Heróis de França tem uma fileira de casas que grelham sardinha, robalo e dourada na rua, ao carvão, e o cheiro chega-lhe antes de ver as mesas. Não reserve nas mais turísticas; entre numa que esteja cheia de gente a falar português e peça o peixe do dia, batata cozida, e um vinho verde bem gelado. É o almoço de verão definitivo do Porto, e custa-lhe muito menos do que o equivalente na Ribeira.
As fugas de um dia: quando a cidade aquece demais
Por muito que ame o Porto, há dias de agosto em que a melhor decisão é sair dele. A boa notícia é que poucas cidades europeias têm tantas fugas boas a tão pouca distância. Reuni as melhores num guia dedicado às viagens de um dia a partir do Porto, mas deixo aqui as três que recomendo primeiro a quem tem só uma tarde livre.
Braga, a uma hora de comboio
Braga é a resposta certa para quem acha que o Norte é só Porto. A cidade tem uma densidade de história e de vida própria que surpreende quem a despacha como "a cidade das igrejas". Vá pelo Bom Jesus do Monte, suba o escadório barroco a pé se as pernas aguentarem, e depois perca-se no centro, que é mais novo e mais animado do que a reputação sugere. Escrevi sobre isto em detalhe no guia de Braga, e se viajar na Páscoa vale a pena cruzar com a Semana Santa de Braga, uma das procissões mais impressionantes do país. Os comboios urbanos saem regularmente de São Bento e Campanhã e a viagem é barata.
O Douro, rio acima
Se vai ao Douro, vá de comboio, não de carro. A linha do Douro, a partir de Régua e até ao Pinhão, corre colada ao rio por entre socalcos de vinha, e é rotineiramente apontada como uma das viagens de comboio mais bonitas do mundo. No verão faz calor a sério no vale, por isso leve água e chapéu, e considere uma prova de vinho numa quinta com terraço sobre o rio. É o oposto do mar de Matosinhos: aqui a água é mansa e o calor é seco.
Guimarães, o berço
"Aqui nasceu Portugal", diz a muralha, e por uma vez o orgulho local é justificado. O centro histórico de Guimarães é Património Mundial e percorre-se inteiro numa tarde, com largos sombreados e esplanadas onde se está bem mesmo no pico do calor. É a fuga mais fácil de todas: comboio a partir de Campanhã, menos de uma hora, e está noutro século.
E depois cai a noite, finalmente
É à noite que o Porto de verão dá o melhor de si. Quando o calor abranda e a cidade arrefece, as ruas enchem-se de uma energia que não existe no inverno cinzento. E aqui o Porto tem uma vida noturna que merece ser levada a sério, organizada quase por geografia: a Galeria de Paris e as ruas em redor para começar, e Cedofeita e a zona da Rua do Almada para acabar.
Comece com calma. The Royal Cocktail Club é o sítio para o primeiro copo, daqueles onde o cocktail é levado a sério e ainda se consegue conversar sem gritar. É o aquecimento certo antes da noite acelerar. A partir daqui, a escolha depende do que procura. Gare Porto é referência para quem gosta de eletrónica e de uma pista que não pede desculpa por estar cheia até de madrugada. Pérola Negra Club joga noutro registo, mais glam e teatral, para noites em que apetece exagerar um bocado. E Industria Club é o clássico que aguenta a noite até o sol voltar a aparecer sobre o Douro, fechando o círculo do dia.
Um conselho de quem já fez esta noite muitas vezes: no verão, o Porto sai tarde. Antes da meia-noite e meia, as pistas estão vazias e vai sentir-se um pateta a dançar sozinho. Jante devagar, beba um copo numa esplanada, ande pelas ruas a ver a cidade encher, e só depois ataque a noite a sério. Hidrate-se entre copos, porque o calor acumulado do dia cobra a fatura, e guarde uns euros para o táxi de volta, que às quatro da manhã é mais sensato do que esperar pelo primeiro autocarro.
O Porto de verão, em resumo
O segredo do Porto em julho e agosto é simples: trabalhe com o calor, não contra ele. Manhãs altas e à sombra, nos jardins e no alto da cidade. Meio da tarde junto à água, de elétrico até à Foz e peixe grelhado em Matosinhos. Dias mais quentes trocados por uma fuga de comboio a Braga, ao Douro ou a Guimarães. E noites longas, que só começam quando o resto da Europa já foi dormir.
Faça as contas e um dia destes custa muito menos do que imagina: transportes públicos a poucos euros, almoço de peixe por menos de vinte por pessoa com vinho, jardins de graça, e só a noite a pesar de verdade na carteira. O Porto continua a ser uma das grandes cidades baratas da Europa, e no verão, com a luz a durar até às dez da noite, parece que o dia se estica de propósito para lhe dar tempo de fazer tudo. Aproveite. A chuva volta em outubro, e nessa altura há de ter saudades do calor de que andou a fugir.