The Royal Cocktail Club
Porto
Antigo cabaré, hoje discoteca toda de vermelho escarlate na Baixa do Porto, onde se dança Madonna e Whitney até de madrugada. Vai depois da uma da manhã e deixa o esnobismo musical à porta.
Há sítios no Porto que mudam de função mas guardam o gesto. A Pérola Negra, na Rua de Gonçalo Cristóvão 284, foi sala de cabaré antes de ser a discoteca vermelha que hoje enche as madrugadas da Baixa. E a verdade é que essa herança nunca foi apagada: o vermelho escarlate domina tudo, das paredes ao tecido dos sofás, e o resultado é um espaço que parece feito de propósito para que ninguém olhe muito para o telemóvel e olhe mais para a pista. É kitsch? É. Assume-o sem pedir desculpa, e é precisamente por isso que funciona.
Não vais aqui para descobrir o último som de Berlim. Vais para dançar Madonna, Whitney, Michael Jackson e meia dúzia de hinos dos anos 80 e 90 que toda a gente finge não saber e canta de cor à terceira bebida. A Pérola Negra escolheu uma faixa horária da nostalgia e cravou-a. Quem entra à procura de techno minimalista sai desiludido. Quem entra para suar a cantar "I Wanna Dance with Somebody" sai feliz.
Estamos em plena Baixa do Porto, a poucos minutos a pé da Praça da Batalha e da zona de Santa Catarina. A Rua de Gonçalo Cristóvão corre paralela ao eixo dos Aliados, por isso vir a pé do centro é o mais simples. De metro, a estação Bolhão fica a uma curta caminhada; se vieres dos lados de Trindade, é igualmente rápido. À noite, e isto é um conselho prático do Porto inteiro, o metro fecha cedo demais para a vida noturna real, por isso conta com táxi ou TVDE para a viagem de volta. Estaciona longe e esquece o carro: a Baixa à noite não é amiga de quem anda às voltas à procura de lugar.
A grande vantagem da localização é poderes fazer da Pérola Negra a última paragem de uma noite bem montada. Começa o serão com cocktails como deve ser n'The Royal Cocktail Club, passa por um copo mais descontraído no Gare Porto, e deixa a pista de dança para o fim. Se a fome apertar antes ou depois, o Duarte's Comida de Rua resolve o assunto sem cerimónia.
O décor vermelho é o protagonista e cria aquela iluminação baixa em que toda a gente parece melhor do que está. A música é generalista de propósito: pop, dance retro, alguns hits mais recentes para não deixar a malta mais nova de fora. O público é misto, do grupo de amigas em despedida de solteira ao casal dos quarenta que veio reviver a juventude. Não é um sítio de pose. É um sítio de dançar.
A faixa de preços anda no €€, o que para o Porto significa bebidas a um valor honesto para uma discoteca de centro de cidade. Não esperes preços de bar de bairro, mas também não vais sair com a carteira em pânico. Confirma diretamente as condições de entrada e eventual consumo mínimo, porque isso varia consoante a noite e os eventos especiais.
Sejamos diretos. A Pérola Negra não é para quem quer uma noite sofisticada de DJ de culto e cocktails de autor. Para isso, há outros endereços no Porto. É para quem quer largar a postura, cantar a plenos pulmões e dançar até de manhã sem julgamentos. É das poucas casas da cidade que abraça abertamente o brega bom, aquele que toda a gente diz não gostar e depois é o primeiro a saltar quando dá o refrão.
Se vais passar uns dias na cidade, encaixa-a numa noite mais relaxada do teu roteiro de sete dias pelo Porto e Norte, de preferência numa noite em que possas dormir até tarde no dia seguinte. E se calhares estar na cidade em junho, prepara-te: a noite da festa de São João transforma a Baixa inteira num cabaré ao ar livre, e sítios como este apanham a ressaca da multidão até de madrugada.
Para o dia seguinte, quando a cabeça pedir ar e verde, um passeio lento pelos Jardins do Palácio de Cristal é o antídoto óbvio. E se a vontade for sair da cidade de vez, há boas viagens de um dia a partir do Porto para recuperar a dignidade.
A Pérola Negra é honesta no que oferece: vermelho, nostalgia e uma pista que não pede licença. Não tenta ser cool, e essa é a sua maior virtude num centro de cidade onde toda a gente anda a tentar ser. Vai depois da uma da manhã, leva amigos que não têm medo de cantar mal, e deixa o esnobismo musical à porta. A Baixa do Porto tem coisas mais bonitas para ver de dia. À noite, esta é das mais divertidas.