Porto e Norte em 7 Dias: Roteiro Honesto para Junho
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Porto e Norte em 7 Dias: Roteiro Honesto para Junho

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Sete dias para ver o Norte sem correr: Porto a pé, Braga sem fila, um dia inteiro no Douro e jantar de despedida em Cedofeita por trinta euros para dois. Junho é a janela, e este é o roteiro honesto.

Junho é o mês em que o Norte decide finalmente comportar-se. A chuva de maio rendeu-se, agosto ainda não trouxe os autocarros de cruzeiros, e a luz, aquela luz amarela do final da tarde no Douro, dura até às 21h30. É a janela. Sete dias chegam para ver o que importa, sem correr e sem fazer o turista clássico que tira fotografia à Ribeira e foge para Lisboa.

Este não é o roteiro do Porto em 48 horas com 14 vinhos do Porto incluídos. É o que eu faria se um amigo me ligasse a dizer: tenho uma semana, mostra-me o teu Norte. Aviso desde já: vai haver bacalhau, vai haver granito (o material, não a metáfora), e vai haver, sim, Sandeman, mas só de passagem.

Dia 1: Porto, devagar e a pé

Comece em Cedofeita, não na Ribeira. Tome o pequeno-almoço numa pastelaria de bairro, peça um galão e uma tosta mista, e prepare-se para andar. O Porto entende-se com os pés, não com o tuk-tuk. A descida da Rua das Flores até São Bento tem mais para contar do que qualquer audioguia.

Para enquadrar bem a cidade no primeiro dia, vale a pena começar com um walking tour pelo centro histórico com a Living Tours. Não é por preguiça, é por contexto: depois de duas horas a ouvir alguém que sabe a diferença entre azulejo de fachada e azulejo de painel, o resto da semana faz mais sentido. Se preferir andar sozinho, comece em São Bento, suba à Sé, desça por Miragaia e siga até à Ribeira só ao fim da tarde, quando os grupos já se foram.

Almoço: fuja da Ribeira, dos restaurantes com fotografias dos pratos lá fora e dos sítios que oferecem "menu turístico". Suba ao Bonfim ou a Cedofeita e procure uma tasca onde haja portugueses a comer. A regra não falha em junho.

Para jantar, e porque ninguém aguenta francesinha ao primeiro dia, vá ao Duarte's Comida de Rua. É comida de rua portuguesa feita a sério, sem pretensão, com pão da casa e ingredientes do dia. Peça o que estiver no quadro, beba uma cerveja artesanal do Norte e deixe a francesinha para o dia 4, quando já tiver caminhado o suficiente para a digerir.

Dia 2: Porto verde e Vila Nova de Gaia

Reserve a manhã para os Jardins do Palácio de Cristal. Vá cedo, antes das 10h, quando os pavões ainda estão preguiçosos e a vista para o Douro é só sua. É um dos sítios onde o Porto se permite respirar. Sente-se no banco virado para a foz, leia dez páginas de um livro, e depois desça pelos Massarelos até ao rio.

Atravesse a Ponte Luís I por cima, a pé. É de borla e é a melhor fotografia que vai tirar na semana, sem pagar drone. Do outro lado, em Vila Nova de Gaia, escolha uma cave: Taylor's tem o melhor terraço, Graham's a melhor curadoria, Cálem o tour mais teatral. Evite fazer mais do que duas, ou junho passa a fevereiro dentro da sua cabeça.

Ao fim de tarde, suba ao Mosteiro da Serra do Pilar para o pôr do sol. É gratuito, não tem fila, e a vista sobre as seis pontes do Porto é a melhor coisa que esta cidade oferece de borla.

Dia 3: Braga, a cidade que não é Porto

Apanhe o comboio urbano em Campanhã (cerca de 3,25€, 70 minutos). Braga merece um dia inteiro, e em junho, com o São João a aproximar-se, está em estado de festa quase permanente. Antes de ir, leia o nosso guia de Braga para perceber porque é que a cidade tem mais para oferecer do que o Bom Jesus e a fotografia obrigatória da escadaria.

Se viajar mais para o início de junho, ainda apanha eco da semana santa, embora a edição grande seja em abril. Para quem se interessa pelas tradições religiosas e a forma como Braga se transforma nesse período, vale a leitura do guia da Semana Santa em Braga, mesmo fora de época. Em junho, o que sobra é a cidade no seu ritmo normal, que é meio monástico, meio universitário, com cafés cheios e ruas que cheiram a pão acabado de fazer.

Almoço em Braga: bacalhau à Braga, óbvio. Não é a maneira mais leve de comer bacalhau, mas é a única que faz sentido na cidade. Acompanhe com vinho verde tinto, que existe e é melhor do que parece.

Dia 4: Guimarães e Citânia de Briteiros

De Braga para Guimarães são 20 minutos de comboio. Aqui nasceu Portugal, diz a muralha, e a cidade leva isso a sério sem ser piroso. O centro histórico é UNESCO e merece, ao contrário de muitos centros UNESCO. Faça o circuito: Largo da Oliveira, Paço dos Duques, Castelo. Almoço no Toural ou nas redondezas, sempre fugindo dos restaurantes com bandeiras de muitos países à porta.

À tarde, se ainda tiver pernas, vá à Citânia de Briteiros. É uma cidade castreja com 2500 anos a meia hora de carro, é raro estar cheia, e dá uma escala ao Norte que muda a forma como vê Braga e Guimarães. Entrada modesta, confirme localmente.

Volte ao Porto à noite. Esta é a noite para ir à francesinha. Não vou recomendar uma específica porque é matéria de guerra civil, mas a regra é: nunca a coma à beira-rio, nunca a coma depois das 22h, e nunca a peça com batata frita congelada (pergunte).

Dia 5: Douro, o dia obrigatório

Não se pode passar uma semana no Norte sem subir o Douro. A pergunta é como. Para ideias completas, o nosso guia das melhores viagens de um dia a partir do Porto tem a lista honesta, com os comboios e os carros e o que vale a pena.

A minha versão preferida em junho: comboio cedo, Porto-Régua (cerca de 14€, duas horas e meia), com o cuidado de pedir lugar do lado do rio (lado direito a ir, lado esquerdo a voltar). Régua é prática, não bonita. De lá, apanhe um cruzeiro curto até ao Pinhão, almoce no Pinhão (a estação de comboio é uma obra de azulejo que vale a paragem só por si), prove um vinho do Douro, e volte de comboio. É um dia longo mas é o dia.

Se for de carro, suba pela N222 entre Régua e Pinhão. Foi votada uma das estradas mais bonitas do mundo, e em junho, com as vinhas verdes e o rio em baixo, percebe-se porquê. Faça a paragem no Miradouro de Casal de Loivos, traga água, traga sapatos confortáveis.

Dia 6: Costa, finalmente

O Porto tem mar, mas o Porto não é praia. Para isso, vá um pouco mais a Norte: Vila do Conde, Póvoa de Varzim, ou, se for de carro, suba até Viana do Castelo. Em junho a água ainda está fria, mas a luz e a comida compensam.

Viana é, na minha opinião, a cidade mais bem desenhada do Norte. Tem um centro histórico que cabe na palma da mão, um santuário com um dos melhores miradouros de Portugal (Santa Luzia, faça a subida pelo elevador funicular), e marisco que justifica a viagem. Se for sexta-feira ou sábado em junho, é provável que apanhe alguma festa ou romaria. Pergunte no posto de turismo.

Almoço: arroz de marisco, pelo menos para duas pessoas, em qualquer restaurante perto da marina. Acompanhe com Alvarinho, que aqui se bebe à temperatura certa e a um terço do que pagaria em Lisboa.

Dia 7: Voltar ao Porto, devagar

O último dia é para o Porto outra vez, mas o Porto que ainda não viu. Faça a Foz a pé. Saia do centro de manhã, apanhe o autocarro ou o elétrico 1 (que ainda funciona como elétrico de bairro, sem fila de turistas, em horário de ponta), e desça até à Foz do Douro. Ali, à beira-mar, almoce peixe grelhado num dos restaurantes da Marginal. O preço é justo, o peixe é fresco, e a vista é ao nível do prato.

À tarde, faça uma coisa que ninguém faz: visite a Casa de Serralves, mas vá só ao jardim. O museu é bom, mas em junho, com o tempo bom, são os 18 hectares de jardim que fazem o dia. Leve um livro, sente-se no relvado em frente à casa rosa, e perceba porque é que isto é, talvez, o melhor sítio do Porto para não fazer nada.

Para a despedida, jante numa tasca do Bonfim ou em Cedofeita. Peça uma sopa, um prato de carne (cabrito se houver), uma sobremesa caseira, e um vinho da casa. Pague trinta euros para dois e perceba porque é que o Porto, quando se respeita o ritmo da cidade, é uma das viagens mais honestas que pode fazer em junho na Europa.

Notas práticas

  • Quando ir em junho: a primeira quinzena é ideal. A partir do São João (24 de junho) a cidade está em festa, o que é fantástico se quiser viver, mas péssimo se quiser dormir.
  • Como circular: o Porto faz-se a pé e de metro. Para Braga, Guimarães e Régua, comboio. Para Viana ou Douro profundo, carro alugado.
  • Onde ficar: evite a Ribeira (barulho, preço, turistas). Cedofeita, Bonfim e Foz são as melhores zonas para uma semana.
  • Orçamento honesto: 700 a 1000€ por pessoa para a semana, sem voo, com alojamento médio e a comer e beber bem sem ostentação.
  • O que trazer: sapatos sérios para as calçadas, casaco fino para a noite (mesmo em junho, perto do rio refresca), e fome.

Sete dias é tempo a sério. Não tente fazer mais. O Norte recompensa quem desacelera, e junho é o mês em que essa lição se aprende sem esforço.

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