Porto Art Nouveau: Rota a Pé pelos Edifícios Esquecidos
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Porto Art Nouveau: Rota a Pé pelos Edifícios Esquecidos

· · Porto

Esqueça a fila da Lello. O verdadeiro Art Nouveau do Porto está escondido em portões, varandas e vitrais que ninguém olha. Uma rota a pé de quatro quilómetros, sete paragens, e a regra de ouro: olhe sempre para cima.

Toda a gente que visita o Porto tira a mesma fotografia da Livraria Lello e vai-se embora convencida de que viu a cidade. Eu digo-vos uma coisa: a Lello é bonita, sim, mas é também uma armadilha turística com fila à porta e bilhete de entrada. Se querem ver o Porto que ninguém vos mostra no Instagram, deixem os Clérigos para trás durante umas horas e olhem para cima. Para cima dos azulejos, para cima das montras de souvenirs, para as fachadas curvas, os ferros forjados em forma de íris, os vitrais com flores que parecem ter sido desenhados por alguém com febre. Isto é Art Nouveau portuense, e está escondido à vista de todos.

O movimento chegou ao Porto por volta de 1900, trazido por arquitectos como José Marques da Silva e Francisco de Oliveira Ferreira, que tinham passado por Paris e voltaram com a cabeça cheia de Hector Guimard e Victor Horta. O problema é que o Porto nunca abraçou o estilo da forma como Barcelona ou Bruxelas o fizeram. Aqui ficou-se pelos detalhes: uma porta, uma varanda, um vitral. Por isso o jogo é diferente. Não vamos ver edifícios inteiros, vamos caçar pormenores. E isso, juro-vos, é muito mais divertido.

A regra antes de começar: olhem para cima

Os portuenses passam a vida a olhar para o chão da Rua de Santa Catarina porque está cheia de gente. Vocês fazem o contrário. A maior parte da decoração Art Nouveau do Porto está no primeiro e segundo andares, acima das lojas que mudaram cinquenta vezes desde 1910. Tragam calçado confortável, uma garrafa de água, e idealmente comecem por volta das 9h da manhã, quando a luz é rasante e os relevos das fachadas ganham sombra. À tarde, com o sol a pino, tudo fica chapado e vocês passam ao lado.

A rota que vos proponho tem cerca de 4 quilómetros e demora entre três a quatro horas se forem com calma, parando para café e para fotografar. Termina perto dos Jardins do Palácio de Cristal, onde podem sentar-se debaixo de uma magnólia e descansar os pés enquanto olham para o Douro. Mais sobre isso já a seguir.

Ponto 1: A Confeitaria do Bolhão e a Rua Formosa

Comecem na Confeitaria do Bolhão, na Rua Formosa, número 339. A fachada é de 1896, com letreiro original, madeira escura, e vitrais que ainda lá estão por teimosia. Entrem, peçam um pão de Deus e um galão (à volta de 3 euros os dois) e comam ao balcão como faz toda a gente que trabalha ali à volta. Não se sentem na esplanada virada para a rua, isso é para turistas e paga-se mais.

Depois, andem pela Rua Formosa em direcção ao Bolhão. Reparem nos números 266 e 274: portas com gradeamento em ferro a desenhar curvas vegetais, típicas do Art Nouveau francês. Estão a precisar de uma demão de tinta, mas é precisamente esse estado de abandono que torna a coisa interessante. Isto é arqueologia urbana, não é Disneyland.

Ponto 2: A Casa Oliva e a Rua dos Clérigos

Atravessem em direcção à Praça da Liberdade e subam pela Rua dos Clérigos. Antes de chegarem à torre, parem no número 18: a antiga Casa Oliva, com um portão que é uma sinfonia de ferro forjado, e uma fachada superior que ninguém olha porque toda a gente está distraída a fotografar a torre. Aqui está o problema do Porto turístico em miniatura: o belo está sempre ao lado do óbvio, mas a multidão escolhe sempre o óbvio.

Se estiverem com fome a esta altura e quiserem fazer uma pausa séria, recomendo desviar-se até à Duarte's Comida de Rua. É comida de rua bem feita, sem firulas, com porções honestas e preços que ainda fazem sentido nesta cidade que está a ficar cara como Lisboa. Peçam uma sandes, sentem-se na esplanada, e continuem a rota.

Ponto 3: Rua de Cândido dos Reis e a farmácia Vitália

Subam pela Rua de Cândido dos Reis. Esta rua é uma das melhores para Art Nouveau no Porto, e quase ninguém a conhece porque está à margem do circuito habitual. Reparem nas varandas dos números 110 e 122, com curvas de ferro que se enrolam como gavinhas de videira. Há também alguns vitrais originais nas claraboias de algumas entradas, mas têm de espreitar pelos portões entreabertos. Os porteiros, se estiverem por ali, deixam-vos ver. Os portuenses, no fundo, gostam que se interessem pela cidade deles, desde que vocês não tirem fotografias com flash dentro de casa das pessoas.

Ponto 4: A Casa do Ferreira das Tabuletas

Voltem em direcção à Praça de Carlos Alberto e procurem na Rua das Carmelitas a famosa Casa do Ferreira das Tabuletas, com painéis de azulejos alegóricos de 1864. Tecnicamente é anterior ao Art Nouveau, mas é o tipo de fachada que o movimento herdou e levou mais longe: a obsessão pela superfície, pela decoração, pelo desenho. Sentem-se um minuto no banco em frente e absorvam. Esta é provavelmente a melhor fachada do Porto que não é da Estação de São Bento.

Ponto 5: A Rua Galeria de Paris e o Café Magestic, mas não para entrar

Sigam para a Rua Galeria de Paris. Esta zona, à noite, vira-se em bares e turistas a beber francesinha line de plástico. De manhã, é silenciosa e dá para ver bem as fachadas. Mais à frente, na Rua de Santa Catarina, vão passar pelo Café Magestic. Eu sei o que estão a pensar: "Vou entrar e tomar um café Art Nouveau". Não façam isso. Os cafés são 5 euros, o serviço é apressado, e a experiência não compensa. Olhem para a fachada por fora, fotografem, e sigam em frente. Depois, num qualquer café de bairro, tomam um expresso a 80 cêntimos e tem mais sabor.

Ponto 6: A descida para Miragaia e os edifícios escondidos

Esta é a parte da rota onde a maior parte dos guias desiste, e por isso é a parte que vão gostar mais. Desçam pela Rua dos Caldeireiros em direcção à zona ribeirinha de Miragaia. Por aqui, entre casas a desabar e prédios reabilitados para alojamento local, há pelo menos uma dúzia de fachadas com elementos Art Nouveau: óculos circulares com gradeamento floral, varandas com motivos de pavão, portões com curvas de chicote. Não vos vou indicar números porque a graça é descobrir. Andem devagar, olhem para cima, e parem sempre que vos pareça que algo merece atenção.

Se conseguirem chegar até à zona da Alfândega, façam um desvio até à Rua do Infante D. Henrique. Há aqui uma série de edifícios eclécticos com elementos Art Nouveau misturados com neoclássico, herança do Porto burguês do final do século XIX. É um cocktail estranho mas funciona.

Ponto 7: O remate nos Jardins do Palácio de Cristal

Terminem nos Jardins do Palácio de Cristal. Entrada gratuita, abertos até ao pôr-do-sol. O pavilhão que lá está hoje não é o original (esse foi demolido em 1951 num dos piores crimes do urbanismo portuense), mas os jardins continuam a ser um dos melhores miradouros sobre o Douro. Sentem-se num banco, abram a garrafa de água, e digam-me se três horas a andar pelo Porto a olhar para cima não vos deu uma cidade completamente diferente da que viram ontem.

Como fazer a rota com guia, se preferirem

Se preferirem fazer isto acompanhados, com alguém que sabe a história de cada portão e que vos leva a sítios onde não entrariam sozinhos, vale a pena considerar o Walking Tour pelo Centro Histórico do Porto com a Living Tours. Não é especificamente sobre Art Nouveau, mas a guia adapta o percurso se o pedirem com antecedência, e há sempre coisas que um guia local sabe e que um folheto não conta.

Quando ir e o que evitar

O Porto está cada vez mais cheio. Em Agosto, a Rua de Santa Catarina é um inferno de gente, e a rota perde graça. Vão entre Outubro e Maio, idealmente a meio da semana. Evitem a Páscoa, que está a tornar-se uma estação alta secundária, e evitem fim-de-semana de Junho a Setembro. Manhã cedo é sempre melhor do que tarde.

Se estiverem no Norte e tiverem tempo para explorar para lá do Porto, recomendo dois desvios fáceis. Primeiro, um dia em Braga, com a sua arquitectura barroca e a cidade universitária que ninguém espera. O guia que escrevi sobre Braga dá-vos tudo o que precisam. E se calhar de irem na altura certa, a Semana Santa em Braga em 2026 é uma das coisas mais intensas que se pode viver em Portugal. Para outras ideias de fuga, vejam também as melhores viagens de um dia a partir do Porto.

O que levar e o que não levar

  • Calçado confortável. Sério. O Porto tem calçada portuguesa e ladeiras a sério.
  • Garrafa de água reutilizável. Há fontes públicas a meio do percurso.
  • Câmara com zoom, se forem fotógrafos. O telemóvel chega para a maior parte das fachadas, mas para os detalhes do segundo andar um zoom ajuda.
  • Não levem mochilas grandes nem trolleys. Não há nada mais turístico do que arrastar uma mala pela Rua das Flores.
  • Levem um caderno, se forem do tipo que gosta de tomar notas. A rota dá para vinte ou trinta paragens se quiserem ir devagar.

O Porto que vale a pena

O Porto está numa fase complicada. Está bonito porque foi reabilitado, mas está também a perder os habitantes que lhe davam vida. Os edifícios Art Nouveau de que vos falei foram, na maior parte dos casos, encomendados por uma burguesia comerciante que já não existe e por arquitectos que sabiam que estavam a fazer algo único. Hoje, muitos desses edifícios são alojamento local. É o que é. O melhor que podemos fazer é olhar para eles enquanto ainda lá estão, perceber porque foram feitos, e contar a outras pessoas para fazerem o mesmo. É por isso que escrevo estes textos.

Boa caminhada.

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