São João do Porto: O Guia Honesto da Maior Noite
Meio milhão de pessoas, sardinha a 2 euros, martelos de plástico e fogo de artifício à meia-noite sobre o Douro. O guia honesto da maior festa popular da Europa: onde comer em pé, porque deves evitar a Ribeira, e a única razão para ires ao Castelo do Queijo às seis da manhã.
Há uma coisa que ninguém te diz sobre o São João do Porto: na manhã de 24 de junho, por volta das seis, a Ribeira cheira a sardinha queimada, a alho frito e a uma vaga lembrança de cerveja entornada nas pedras da calçada. Os turistas mais resistentes ainda arrastam os pés em direção ao metro. Os portuenses, esses, vão a caminho da praia do Castelo do Queijo para o banho ritual no Atlântico, com os martelos de plástico ainda pendurados nas mãos. Não há nada de telúrico nisto. É só a maior noite do ano numa cidade que, durante 24 horas, decide oficialmente perder o juízo.
Se vens ao Porto pela primeira vez no São João, esquece tudo o que leste sobre festas tradicionais portuguesas "autênticas". Isto não é uma romaria de aldeia. É uma cidade inteira, do Bonfim a Massarelos, da Foz a Campanhã, transformada num arraial gigantesco onde toda a gente bate na cabeça de toda a gente com martelos de espuma. É infantil. É absurdo. É, possivelmente, a melhor festa popular da Europa, e digo isto sem exagero retórico.
O que é, afinal, o São João
Tecnicamente, celebra-se São João Baptista, na noite de 23 para 24 de junho. Historicamente, é uma festa pagã do solstício de verão a que o cristianismo deu uma camada de verniz. Praticamente, é um pretexto para os portuenses fazerem aquilo que melhor sabem fazer: comer na rua, beber em excesso moderado, cantar mal e dançar pior, tudo ao mesmo tempo, com um manjerico no parapeito da janela e fogo de artifício às 24h00 sobre o Douro.
O que distingue o São João do Porto de qualquer outra festa popular portuguesa é a escala. Falamos de meio milhão de pessoas, mais ou menos, distribuídas por uma cidade que normalmente alberga 230 mil. As ruas fecham. Os elétricos param. O metro funciona toda a noite. E há sardinhas a grelhar literalmente em cada esquina, desde a Sé até à Praça da Batalha.
O ritual dos três objetos
Para sobreviveres ao São João, precisas de três coisas, e nenhuma delas é opcional.
- Martelo de plástico: Custa entre 1 e 3 euros nos vendedores ambulantes. Substituiu o alho-porro nos anos 60, quando alguém percebeu que dar pancadas com plástico é menos agressivo do que com legumes. Bate-se na cabeça de toda a gente, incluindo desconhecidos, polícias e crianças. Toda a gente bate em ti também. É esse o jogo.
- Manjerico: Um vaso de manjericão minúsculo com um cravo de papel e uma quadra popular espetada num palito. Não se cheira por baixo do nariz, cheira-se por cima, com o dedo a roçar nas folhas. É de mau-tom comprar sem o cravo.
- Balão de São João: Aquelas lanternas de papel que sobem para o céu. Tecnicamente proibidas em algumas zonas por causa dos incêndios, mas continuam a aparecer. Olha para cima por volta da meia-noite e vais perceber porquê.
Onde comer (e o que pedir)
Toda a sardinha grelhada do mundo está concentrada nesta noite no Porto. Em qualquer rua estreita do centro histórico vais encontrar grelhadores improvisados com tachos de barro, brasas a fumegar e um homem suado a virar peixes com um pano. A sardinha custa, em média, entre 1,50 e 2,50 euros por unidade nesta noite. Trazes o teu pão (ou compras ali) e comes em pé, no passeio, com gordura a pingar para os sapatos. É assim. Não há mesa.
O acompanhamento canónico é o caldo verde, servido em copos de papel, e a broa de milho. Algumas tasques mais antigas servem febras grelhadas com pão, que são, na minha opinião, mais saborosas que a sardinha quando a brasa está bem feita. Se te canses do circuito da rua e quiseres sentar-te a comer comida de rua decente sem o caos absoluto, vale a pena conhecer o Duarte's Comida de Rua noutro dia da estadia. No próprio São João, a brincadeira é mesmo comer em pé.
Uma dica que poucos guias dão: a meio da noite, por volta das duas da manhã, vai aparecendo nas esquinas a sopa de cebola. Não é elegante. Não é sequer particularmente saborosa quando comparada com versões francesas. Mas, depois de seis horas a beber Super Bock em copo de plástico, é uma redenção. Custa 2 ou 3 euros. Aceita-a com gratidão.
O percurso que recomendo
Tarde: aquecer sem te queimares
Começa por volta das 16h00 nos Jardins do Palácio de Cristal. É o melhor sítio da cidade para ver o Douro sem multidões antes da loucura começar, e há sombra suficiente para te recuperares se o calor de junho estiver a ser sério (e geralmente está, entre 24 e 28 graus). Os pavões andam à solta. Não os incomodes.
Por volta das 18h30, desce a pé pela Rua de Cedofeita. Está sempre cortada ao trânsito no São João e cheia de pequenos grupos a montar mesas de plástico na rua. Aqui ainda dá para falar. Daqui a duas horas, não.
Noite: a Ribeira é uma cilada (mas vais querer ir na mesma)
Toda a gente te vai dizer para ires à Ribeira para o fogo de artifício à meia-noite. Toda a gente vai estar lá. Eu não te digo para não ires, mas digo-te que ir e ficar lá significa não te mexeres durante quatro horas, com 100 mil pessoas a empurrar-te de todos os lados. A vista do fogo sobre o Douro é, de facto, espetacular, com a queima a fazer-se de duas margens, a do Porto e a de Gaia, e a refletir-se na água.
A alternativa que defendo: vê o fogo da Ponte do Infante ou da Ponte D. Luís I no tabuleiro superior. Vês exatamente a mesma coisa, com menos um terço da multidão, e tens fuga rápida para Cedofeita ou para a Praça dos Poveiros quando a queima acaba.
Depois da meia-noite: o que ninguém te conta
O São João só começa, a sério, à meia-noite e um minuto. É quando os bairros saem para a rua. Sobe a Aliados até Santa Catarina. Atravessa para os Poveiros, onde os concertos vão até às seis. Se estiveres com energia, vai até à Foz pela linha do elétrico antigo (cuidado, está sobrelotado) e termina ao amanhecer no Castelo do Queijo, com o banho no Atlântico que separa os turistas dos verdadeiros sobreviventes.
Onde NÃO ir (opinião impopular)
Há restaurantes no centro histórico que duplicam ou triplicam o preço dos menus na noite de São João e enchem-se de turistas a comer mal por 45 euros. Salta-os. Se queres comer sentado nessa noite, reserva fora do triângulo Aliados-Sé-Ribeira, idealmente em zonas como Bonfim ou Cedofeita.
Outra impopular: não compres o pacote de "São João all-inclusive" que alguns hotéis vendem. Inclui geralmente um jantar tristíssimo e um lugar reservado numa varanda "VIP". O São João é, por definição, na rua. Numa varanda VIP não é São João, é um cocktail caro com vista.
Onde dormir (e o aviso que precisas)
Os preços de alojamento no Porto duplicam, por vezes triplicam, na noite de 23 para 24 de junho. Reserva com dois ou três meses de antecedência se puderes. Bairros como Bonfim, Cedofeita e Bolhão têm caminhado para o centro da festa nos últimos anos e geralmente oferecem melhor relação qualidade-preço que a Baixa.
Se vens de fora, considera ficar em Vila Nova de Gaia. Tens a vista das caves de Vinho do Porto sobre a Ribeira, atravessas a Ponte D. Luís I a pé em dez minutos, e voltas a casa sem teres de pegar em metro lotado.
O dia seguinte (24 de junho): feriado municipal
É feriado no Porto. Os museus principais (Serralves, Casa da Música, Museu Nacional Soares dos Reis) estão fechados ou abrem tarde. As lojas também. O dia 24 é, tradicionalmente, dia de cataplana ou de feijoada à transmontana em casa, com a família, à volta de uma mesa, em silêncio quase total, porque toda a gente tem ressaca.
Se queres aproveitar o feriado para conhecer o Porto fora do habitual, recomendo o walking tour pelo centro histórico com a Living Tours, que costuma operar mesmo no feriado em horários reduzidos, e que te leva por ruas onde, doze horas antes, dançaste com desconhecidos.
Se ficares mais dias: as fugas óbvias
O Porto é base perfeita para sair durante o dia e voltar à noite. Tenho um guia detalhado de viagens de um dia a partir do Porto que cobre desde Aveiro até ao Gerês.
Para mim, a melhor fuga é Braga, a meia hora de comboio urbano. Cidade jovem, comida séria, custos 30% mais baixos que o Porto. Tenho um guia de Braga que vale a pena ler antes de ires, e se calhares por lá em março ou abril, a Semana Santa em Braga é a outra grande festa religioso-popular do Norte, no oposto exato emocional do São João: enquanto o Porto grita, Braga reza.
Cinco regras finais para sobreviveres
- Calçado fechado. Ténis, idealmente. Vais andar entre cascas de sardinha, brasas e cerveja entornada durante doze horas. Sandálias são para a praia no dia seguinte.
- Dinheiro em notas pequenas. Muitos vendedores ambulantes não têm multibanco e não te vão saber trocar uma nota de 50.
- Bateria externa para o telemóvel. A rede móvel cai várias vezes por excesso de utilizadores. Combina pontos de encontro físicos com o teu grupo antes de saírem do hotel.
- Hidrata. Junho no Porto não é Alentejo em agosto, mas com cerveja, sardinha salgada e oito horas em pé, a desidratação é real. Há fontes públicas e os bares dão sempre copos de água se pedires.
- Diverte-te com o martelo. Bater na cabeça das pessoas com um martelo de plástico parece estúpido, e é. Mas é o ritual. Recuses-te e ficas de fora. Aceitas e percebes, ao fim da quinta cabeça, porque é que esta cidade aguenta a noite mais longa do ano com um sorriso parvo na cara.
O São João não é, no fim de contas, uma festa que se explique bem por escrito. É uma festa que se vive em pé, com gordura nos dedos, manjerico na mão e um total desconhecido a sorrir para ti porque acabou de te dar um martelada na cabeça. Vai. Mas vai preparado.