The Royal Cocktail Club
Balcão de mármore, luz baixa e uma carta de cocktails que muda com a estação. O Royal Cocktail Club, na Rua da Fábrica, joga ao nível das grandes capitais e tem um lounge no piso inferior com uma carta apresentada em tabuleiro de jogo. Vá depois do jantar, não antes.
Um bar de cocktails que joga a sério na Rua da Fábrica
Há bares de cocktails no Porto que vivem de candeeiros baixos e de uma carta com vinte assinaturas que sabem todas a xarope. O Royal Cocktail Club, na Rua da Fábrica 105, não é um deles. Está plantado numa rua estreita da Baixa, a dois passos dos Aliados e dos Clérigos, e a primeira coisa que se nota ao entrar é o balcão de mármore, longo, frio ao toque, que funciona como palco para os bartenders. A segunda coisa é o silêncio, que dura até as pessoas começarem a falar baixinho, porque o sítio impõe isso.
Não é um bar para ir antes do jantar a correr. É um bar para ir depois do jantar, quando já se decidiu que a noite vai ser longa e que vale a pena pagar mais por um copo bem feito. A faixa de preço €€€ não engana ninguém: aqui um cocktail de assinatura custa o que custa em Lisboa, Madrid ou Londres, e a justificação está no copo.
O que pedir, o que evitar
A carta muda com frequência e é precisamente isso que distingue o Royal da concorrência mais turística do Porto. O conselho honesto: deixe a carta de lado por dois minutos e fale com quem está atrás do balcão. Diga que tipo de espírito gosta, se prefere amargo ou ácido, se está com sede ou se quer algo para mastigar lentamente, e deixe-os trabalhar. É assim que se justifica vir até aqui em vez de pedir um gin tónico num qualquer rooftop da Ribeira.
Os clássicos reinterpretados costumam ser o ponto mais sólido da casa. Se houver alguma variação de Negroni ou Old Fashioned, é por aí que se começa. Evite a tentação de pedir algo doce só porque o nome é divertido. E se for em grupo, partilhem a ronda inicial em vez de cada um pedir o seu, para perceberem o registo da casa antes de se comprometerem.
O andar de baixo e o tabuleiro de jogos
A grande particularidade do Royal é o lounge no piso inferior. Lá em baixo, a luz é mais quente, os sofás são mais fundos, e há uma carta paralela apresentada em formato de jogo de tabuleiro, onde se escolhem cocktails como quem joga uma partida. Pode soar a artifício, e em parte é, mas funciona: força conversas, obriga as pessoas a olhar para o copo do outro, e transforma uma rodada normal numa pequena ocasião. É também onde se passa melhor uma terceira ou quarta bebida, quando o balcão de cima já está cheio e ruidoso.
Se vier acompanhado e quiser conversar a sério, peça uma mesa em baixo logo à entrada. Não há reserva online clara, e por isso o melhor é ligar para o +351 22 205 9123 no próprio dia, sobretudo à sexta e ao sábado. Aos domingos e a meio da semana, costuma haver lugar sem grande esforço, mas confirme directamente, porque o horário não está publicado de forma estável e pode mudar com a estação.
Como chegar e onde encaixar a visita
A Rua da Fábrica fica entre os Aliados e a Praça Carlos Alberto, num triângulo da Baixa que se faz inteiramente a pé. Vindo da estação de São Bento, são sete minutos a subir devagar. De metro, a estação mais próxima é Aliados, na linha amarela, a cinco minutos do bar. Esqueça o carro: estacionar nesta zona à noite é um exercício de paciência caro, e a melhor opção é parque pago no Silo Auto ou a Trindade e descer a pé.
O Royal funciona melhor como remate de uma noite, não como início. Uma sequência que costuma resultar: jantar de petiscos em alguma casa da Baixa, eventualmente uma passagem por Duarte's Comida de Rua para uma sandes a sério antes de se entrar no registo dos cocktails, e só depois subir até à Rua da Fábrica. Quem está a planear vários dias na cidade encontra um encaixe natural deste bar dentro do nosso roteiro de sete dias pelo Porto e Norte, normalmente como segunda ou terceira noite, quando já se conhecem as ruas e se quer abrandar.
Quem está aqui, o que vestir, o que esperar pagar
O público é uma mistura razoavelmente equilibrada de portuenses dos trinta para cima, casais em viagem e gente do hotel boutique do quarteirão. Não há código de indumentária declarado, mas não é o sítio para entrar de chinelos e camisa de praia. Calça boa, sapato fechado, uma camisa simples ou um vestido sem grande complicação resolvem qualquer noite.
Em termos de orçamento, conte com 12 a 15 euros por cocktail de assinatura, e mais se entrar em referências mais raras. Uma ronda de duas bebidas para duas pessoas, com gorjeta razoável, dificilmente fica abaixo de 50 a 60 euros. Pagamento com cartão é aceite sem problemas, mas o serviço agradece sempre alguma nota deixada em cima do balcão.
Quando ir, quando não ir
- Vá a meio da semana se quiser conversar com os bartenders sem sentir que está a roubar tempo a alguém.
- Vá depois das 22h00 ao fim de semana se gostar do bar cheio e barulhento.
- Não vá em noite de São João: a cidade inteira está na rua a martelar com martelinhos plásticos e o registo do Royal não combina com sardinha assada. Reserve a visita para o dia seguinte, à hora da ressaca controlada.
- No Inverno, o piso de baixo é o ponto certo. No Verão, o balcão de cima ganha em ventilação.
Como passeio diurno de contraste antes de uma noite no Royal, vale a pena uma volta pelos Jardins do Palácio de Cristal a apanhar sol, ou uma escapada curta seguindo um dos melhores roteiros de um dia a partir do Porto. Volta-se ao fim da tarde, descansa-se uma hora, janta-se cedo, e às onze entra-se na Rua da Fábrica com calma.
Veredicto
O Royal Cocktail Club não é um bar para todas as noites, nem pretende ser. É um sítio para uma ocasião pensada: aniversário discreto, primeiro encontro decente, última noite na cidade antes de voltar para o avião. Paga-se pela qualidade do copo e por quem o faz, e dentro dessa categoria, no Porto, são poucos os concorrentes que jogam ao mesmo nível. Vá com tempo, deixe-se aconselhar pelo balcão, peça para descer ao lounge a meio da noite, e saia antes de pedir o copo a mais que sempre se pede.