São João do Porto: Guia da Maior Festa do Norte
Um milhão de pessoas, martelos de plástico, sardinhas em cada esquina e fogo de artifício sobre o Douro à meia-noite. O guia honesto de quem já fez (e sobreviveu a) quinze edições do São João do Porto.
Há uma coisa que precisa de entender antes de pôr os pés no Porto na noite de 23 para 24 de junho: o São João não é uma festa que se assiste. É uma festa que lhe acontece. Vai levar com um martelo de plástico na cabeça vindo de uma avó de 78 anos com sorriso angelical, vai cheirar a sardinha assada na rua a três quarteirões de distância, e por volta da meia-noite vai estar a saltar em cima de um manjerico em pleno Aliados sem saber muito bem porquê. É assim. E é magnífico.
O São João do Porto é, sem grande margem para discussão, a maior festa popular de Portugal. Não pela escala oficial — porque oficialmente ninguém sabe ao certo quantas pessoas estão na rua, e os números variam entre 500 mil e um milhão consoante o jornalista e a quantidade de cerveja Super Bock consumida na altura da contagem. É a maior pela intensidade. Pela forma como a cidade inteira, do Bonfim a Massarelos, decide que naquela noite ninguém dorme, ninguém fica em casa, e ninguém tem vergonha de cantar fora de tom.
Porque é que se bate na cabeça das pessoas com um martelo de plástico?
Pergunta legítima. A resposta curta é: ninguém sabe ao certo. A resposta longa envolve duas teorias, ambas razoáveis e ambas provavelmente parcialmente verdadeiras.
A primeira diz que o martelo substituiu o alho-porro nos anos 60. Sim, leu bem: durante séculos, os portuenses andavam pela rua a bater com cabeças de alho-porro umas nas outras, num gesto entre o ritual de fertilidade e a brincadeira pagã que sobreviveu à cristianização da festa. Algures na ditadura, um vendedor ambicioso achou que martelos de plástico apitavam melhor, eram mais higiénicos e, sobretudo, vendiam-se aos turistas. Tinha razão. Hoje, vendem-se às centenas de milhares.
A segunda teoria, mais romântica, é que a marteladinha é um substituto suave dos antigos rituais de corte que pediam sorte no amor e na saúde a São João Baptista. Como ele foi decapitado, a memória ficou simbólica. Pessoalmente, fico-me pela primeira: explica melhor por que razão se vendem martelos cor-de-rosa fluorescentes com luzinhas.
O manjerico, o santo, o porquê do dia 23
O São João tem três objetos sagrados: o martelo, o manjerico e a sardinha. Do manjerico (a planta aromática que se compra com uma quadra espetada num papelinho) espera-se que dure até ao próximo São João. Há quem garanta segredos: não regar de cima, não levar para dentro de casa no dia 24, falar com ele em voz baixa. Eu nunca consegui manter um vivo mais de três semanas, e tenho a teoria de que sou o único portuense incapaz disto. Mas vale a pena comprar um, pelo cheiro e pela quadra, que costuma ser deliciosamente patriarcal e tortuosa.
O dia 24 de junho é a véspera litúrgica de São João Baptista, primo de Jesus, o homem do deserto e dos gafanhotos. Mas a festa começa na noite de 23. É solsticial, é pagã, é pré-cristã, e a igreja conseguiu apenas baptizá-la, nunca domesticá-la. Esta é a parte que adoro: dois mil anos de cristianismo e, no final, ainda saltamos fogueiras a meio da rua na cidade do Porto.
Antes do dia 23: o que fazer no Porto em junho
Se chega ao Porto com dois ou três dias de antecedência (recomendado, porque encontrar avião e alojamento à última é um exercício de masoquismo financeiro), aproveite. A cidade entra em modo crescente: as varandas começam a aparecer engalanadas, as bandeirolas estendem-se de Cedofeita ao Bonfim, e os bairros tradicionais (Fontainhas, Sé, Miragaia) preparam os arraiais com uma seriedade que cabe entre a logística militar e a romaria.
A meio da tarde, antes de a cidade ferver, vá aos Jardins do Palácio de Cristal. Não pelo Palácio em si (que de cristal não tem nada, é um pavilhão de betão dos anos 50 que ainda hoje magoa quem amou o original demolido), mas pelas vistas sobre o Douro, pelos pavões a passearem-se entre os turistas, e por aquela sensação de que, mesmo numa cidade em pré-explosão festiva, há cantos em que se respira. Entrada gratuita. Confirme localmente os horários, mas em junho costuma fechar quando o sol se põe e isso, no norte, é tarde.
Para um almoço sério antes da festa, ignore as ruas turistadas da Ribeira e vá comer à Duarte's Comida de Rua. É comida portuguesa contemporânea, com porções honestas, e o tipo de sítio onde se entra a almoçar e se sai a planear a próxima refeição. Boa preparação para o que vem aí.
Se o seu São João é mais cultural do que alcoólico (existe, juro), reserve uma manhã para conhecer a cidade com método. Recomendo o walking tour pelo centro histórico com a Living Tours: leva-o pela Sé, pela rua das Flores, pelo São Bento, e explica-lhe coisas que os portuenses dizem que sabem mas geralmente não sabem (eu, por exemplo, descobri há pouco que a Estação de São Bento tem 20.000 azulejos. Tinha vivido 20 anos a passar lá e nunca os contei. Ninguém conta).
A noite de 23 de junho: itinerário possível
Não há um itinerário certo. Mas há um que funciona. Eu faço-o, com variações, há quinze anos.
17h00 a 19h00: arraiais de bairro
Comece cedo. Os arraiais de bairro são o melhor segredo da festa, e dizem-se segredo porque os turistas concentram-se quase todos na Ribeira e nos Aliados. Vá às Fontainhas: ruas estreitas, manjericos em todas as varandas, churrasco a 4 ou 5 euros o prato, vinho verde em copos de plástico. A Sé tem outro, mais íntimo. Miragaia outro ainda. Nenhum precisa de marcação, todos servem caldo verde, sardinhas, broa, febras. Ande, prove, decida-se.
19h00 a 22h00: descida ao Douro
Aqui é onde o São João se distingue da maioria das festas portuguesas: é viva ao ar livre, em toda a cidade, mas tem um ponto cardeal. Esse ponto é o rio. Por volta das oito da noite, comece a descer para os Aliados. Pelo caminho vai cruzar-se com toda a gente: grupos de amigos com cachos de manjericos, miúdos com martelos, velhotes a verem o cortejo do alto das varandas. Pare numa esquina, beba uma cerveja, ouça. As bandas filarmónicas saem em cortejo, alguns bairros têm rusgas (grupos de cantares populares que percorrem a cidade). Veja uma. Não precisa de entender as letras, basta entender o ritmo.
22h00 a 24h00: rua, sardinhas, fumo
A esta hora, a cidade já cheira. Cheira a sardinhas assadas em milhares de grelhadores improvisados nas ruas, em frente a portas de casas, em pátios de escolas. Compre um prato (geralmente 6 a 8 euros com pão e pimentos), coma de pé, encostado a um muro qualquer, vendo a multidão passar. É o momento em que percebe que o São João não é uma festa, é uma cidade temporariamente reconfigurada para que toda a gente coma e beba na rua.
00h00: o fogo
À meia-noite há fogo de artifício sobre o Douro. Lançado da Ponte D. Luís I, dura cerca de quinze minutos, e é, sem exagero, o melhor fogo de Portugal. Os melhores pontos: a varanda da Avenida dos Aliados (lotada, mas energética), o miradouro da Vitória (mais calmo), as escadas dos Guindais (íntimo, ideal para quem está em grupo pequeno), ou Vila Nova de Gaia, do lado de lá do rio (vista frontal, mais espaço, mas a vinda de volta é uma aventura). Se ficar do lado do Porto, conte com uma hora a sair da zona ribeirinha.
01h00 a 06h00: as fogueiras, o balão, o mar
Depois do fogo, há dois caminhos. O primeiro: as fogueiras. Acendem-se em vários bairros, e a tradição manda saltá-las três vezes para ter sorte no ano que vem. Não é simbólico — são fogueiras a sério, com chamas até à cintura, e as pessoas saltam mesmo, alguns descalços, todos um pouco bêbados. Use sapatos fechados. Por favor.
O segundo caminho: largar balões de São João (aqueles balões de ar quente de papel com uma vela dentro) e descer até à Foz para ver o sol nascer no mar. É uma tradição menos universal do que parece — muita gente vai para casa às três da manhã — mas se aguentar, é o final mais bonito possível para a noite. A Foz é a desembocadura do Douro, há praias, há cafés que abrem para o pequeno-almoço, e por volta das seis e meia da manhã o sol aparece sobre o Atlântico com aquela luz que justifica tudo.
Onde comer (e onde não)
Regra prática: na noite do São João, qualquer restaurante que esteja aberto está com 90 minutos de espera. Coma na rua. Mas se quiser uma refeição séria no dia 23 de manhã, ou no dia 25 quando a cidade ressuscita, há muito por onde escolher. Já mencionei a Duarte's Comida de Rua; vale o detalhe e a calma.
Quanto a francesinhas: toda a gente lhe vai dizer onde é a melhor, e toda a gente tem uma opinião diferente. A verdade é que há cinco ou seis sítios excelentes, e a sua francesinha favorita vai ser provavelmente a primeira que comeu acompanhado de alguém de quem gosta. Não vou recomendar uma. Mas peça-a com molho à parte se for a primeira: o molho é forte, picante, alcoólico, e nem toda a gente o aguenta logo na primeira tentativa.
Como sobreviver: logística que ninguém lhe vai contar
- Alojamento: reserve com três a quatro meses de antecedência. Os preços duplicam, às vezes triplicam. Considere ficar em Gaia, do outro lado do rio, ou em Matosinhos.
- Transportes: o metro do Porto costuma circular toda a noite na véspera de São João. Confirme na altura, mas é a forma mais inteligente de chegar e sair.
- Carro: esqueça. As ruas do centro fecham, a polícia desvia tudo, e estacionar é impossível.
- Dinheiro: leve numerário. Muitos arraiais e bancas só aceitam dinheiro vivo. Os multibancos da zona ribeirinha esgotam por volta das onze da noite. Sério.
- Roupa: o Porto em junho pode ser de 28 graus à tarde e 14 às quatro da manhã. Camadas, camisola na mochila, sapatos fechados.
- Telemóvel: leve bateria extra. A rede satura por volta da meia-noite. Combine pontos de encontro com antecedência.
E se sobrar tempo? Saia do Porto
Se ficar quatro ou cinco dias, vale a pena usar o Porto como base e explorar o norte. Recomendo dois desvios. Um dia em Braga (a quarenta minutos de comboio, três euros e tal de bilhete) para perceber que o norte religioso e o norte académico convivem na mesma cidade: tem o guia de Braga aqui, e se viajar perto da Páscoa, leia também o guia da Semana Santa de Braga para perceber como o norte vive os seus rituais. E se quiser ir mais longe num só dia, organize-se com o nosso guia das melhores viagens de um dia a partir do Porto: dá-lhe Guimarães, o Douro, Aveiro, e algumas opções menos óbvias.
O que ninguém lhe diz sobre o São João
Vai cansar-se. Vai cheirar a fumo nas três duches seguintes. Vai perder um amigo na multidão e reencontrá-lo às quatro da manhã sem que isso pareça estranho. Vai dançar com pessoas que nunca mais vai ver. Vai ouvir um homem de setenta anos cantar uma quadra picante a uma mulher da idade dele e perceber que esta festa é, no fundo, pagã e bonita e sem complexos.
E na manhã de 24, quando atravessar a Avenida dos Aliados coberta de plásticos e pétalas de manjerico, com uma equipa municipal já a varrer o desastre, vai sentir uma coisa rara: a sensação de ter participado em qualquer coisa que existia antes de si e vai existir depois de si. Não é frequente. Aproveite.