Onde Tomar Café em Nazaré (e o Que Pedir)
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Onde Tomar Café em Nazaré (e o Que Pedir)

· · Nazaré

A maior parte do café na primeira linha da praia é mau, morno e caro. Saiba o que pedir (bica, meia de leite ou galão), onde fugir da multidão e porque o melhor café de Nazaré se bebe lá em cima, no Sítio, com vista para o farol.

Há uma verdade incómoda sobre Nazaré que ninguém escreve nos folhetos: a maior parte do café que se serve na primeira linha da Avenida da República é mau. Não médio, mau. Servido morno, num copo de papel, a quem acabou de ver as ondas gigantes na Praia do Norte e ainda tem o telemóvel na mão. Pagam-se dois euros por uma bica que, em qualquer pastelaria de bairro, custaria setenta cêntimos e saberia muito melhor. A boa notícia é que basta afastar-se cinquenta metros do areal para a coisa mudar de figura.

Este é um guia honesto sobre onde se bebe bem em Nazaré, o que pedir em cada sítio e, mais importante, como se comporta um café numa vila piscatória que vive em dois andares: a praia em baixo e o Sítio lá em cima, no alto da falésia, ligados por um funicular que sobe desde 1889.

Primeiro, aprenda a pedir

Antes de mais, o vocabulário, porque pedir mal é o primeiro erro do visitante. Se quiser um expresso curto, peça uma bica (ou simplesmente "um café"). Se quiser algo mais comprido e suave, peça um abatanado. Café com uma pinga de leite é um garoto. Café com leite a meias, servido em chávena grande, é uma meia de leite. E o famoso galão vem num copo alto, com muito mais leite do que café, ideal ao pequeno-almoço. Nada disto custa, num sítio decente, mais de um euro e meio.

A regra de ouro em Nazaré: quanto mais perto do mar e quanto mais línguas estiverem escritas no menu, pior o café e mais caro. Quanto mais velhotes a jogar às cartas lá dentro, melhor o café.

O ritual da manhã, longe do areal

O melhor pequeno-almoço de Nazaré não é uma fotografia panorâmica do oceano. É às oito da manhã, nas ruas estreitas atrás da Avenida, quando os pescadores reformados ocupam os balcões e as senhoras das sete saias vão fazer as compras. Peça uma meia de leite e uma torrada de pão caseiro com manteiga a derreter, o clássico nacional que custa menos de três euros e enche mais do que qualquer brunch. Se houver pastéis de nata acabados de sair, e em Nazaré quase sempre há, peça dois. Um para agora, outro para a falésia.

Uma palavra sobre doçaria regional, porque vale a pena planear. Nazaré não tem um pastel-bandeira tão célebre como Belém, mas está rodeada de territórios de açúcar. A meia hora de carro, em Alfeizerão, faz-se o verdadeiro pão de ló de Alfeizerão, húmido a ponto de parecer cru no centro, e isso é precisamente o ponto. Mais para o interior, nas Caldas da Rainha, encontram-se as cavacas e as trouxas de ovos. Se vai esticar a perna até lá, fica a sugestão de combinar café com paisagem nos trilhos de Caldas da Rainha que descrevemos noutro guia.

Lá em cima, no Sítio: a vista que se paga (mas vale)

Suba o funicular ou conduza pela estrada que serpenteia a falésia até ao Sítio. Aqui em cima está o Santuário de Nossa Senhora da Nazaré, o miradouro do Suberco com a vista de cartão-postal sobre a praia em forma de concha, e o Forte de São Miguel Arcanjo com o seu farol vermelho, hoje transformado em centro interpretativo das ondas gigantes. É também aqui que faz mais sentido sentar-se com calma.

É no Sítio que recomendo o Zulla Terrace Bar para o fim de tarde. Não é uma pastelaria de pescadores, é um terraço com vista, e portanto paga-se o cenário. Mas se há momento para pagar uma vista em Nazaré é quando o sol cai sobre o Atlântico e o farol começa a recortar-se contra um céu cor de tangerina. Peça um café depois do almoço ou guarde-o para o pôr do sol com algo mais forte. A regra mantém-se: a bica continua a ser bica, e aqui ela acompanha um dos melhores panoramas da costa portuguesa.

Enquanto está em cima, vale a pena perceber porque é que estas mulheres usam sete saias sobrepostas e o que isso diz da história da vila. A visita guiada à tradição das sete saias com a Alma Nazaré Tours dá contexto àquilo que de outra forma se reduz a uma fotografia exótica. Faça-a antes do café, não depois, para o terraço já ter significado.

Onde o café encontra a mesa

Há uma fronteira ténue em Nazaré entre o café e a refeição, e alguns dos melhores sítios para um cimbalino ao balcão são, na verdade, casas de comer. O Sitiado, no alto da falésia, é um desses lugares onde se pode entrar só para um café e um doce a meio da tarde, com a vantagem de já estar no sítio certo quando a fome aperta e apetecer ficar para o jantar. Há, aliás, uma segunda morada do mesmo nome que vale a pena conhecer, porque a marca espalhou-se pela vila e nem sempre se está perto da primeira.

Para um café depois de uma refeição séria, o Pangeia Restaurante é a aposta certa quando se quer fechar o almoço como deve ser: bica curta, talvez um cálice de aguardente, e a conversa a alongar-se. Não é um café no sentido tradicional, é um restaurante, mas a melhor bica de uma vila piscatória bebe-se frequentemente ao fim de uma boa mesa de peixe, e não num balcão de paragem rápida.

O que pedir, em resumo prático

  • De manhã: meia de leite e torrada de pão caseiro. Custo: cerca de 3 euros. Hora ideal: antes das nove, antes dos autocarros.
  • A meio da tarde: bica e pastel de nata, ou um galão se estiver fresco e o vento norte estiver a soprar (e em Nazaré sopra quase sempre).
  • Ao pôr do sol: um café no Sítio com vista para o farol, e depois, sem pressa, algo mais forte.
  • Para levar: se passar por Alfeizerão ou Caldas da Rainha, traga doçaria regional. O café de Nazaré agradece companhia decente.

O erro clássico: o café da onda gigante

Entre outubro e março, quando o Canhão da Nazaré empurra ondas de mais de vinte metros contra a Praia do Norte e o mundo dos surfistas se concentra no Forte, abrem-se carrinhas e quiosques improvisados a vender café a preço de espetáculo. Beba-o se tiver de beber, mas não confunda aquilo com o café de Nazaré. É café de evento, como o de um estádio. O verdadeiro está nas ruas de trás, à mesa, ao balcão, entre quem cá vive.

Outra dica para os dias de mar grande: vista-se a sério. O frio em cima da falésia, em janeiro, com o vento atlântico, não perdoa, e nenhuma bica o aquece por dentro o suficiente. Leve gorro. Beba o café antes de sair, não enquanto espera pela onda.

Café como pausa entre passeios

Nazaré funciona bem como base para explorar a região, e o café entra naturalmente nesses dias de estrada. A poucos quilómetros estão dois dos maiores monumentos góticos do país, e há quem os faça num só dia. A visita aos mosteiros de Alcobaça e Batalha a partir de Nazaré é a forma confortável de o fazer, e em Alcobaça, já agora, a paragem para café é obrigatória precisamente por causa do tal pão de ló da zona.

Quem segue para sul ou para o interior pode encadear Nazaré com outros rituais bem portugueses. Se a viagem coincidir com maio, vale a pena ler o nosso guia honesto da peregrinação a Fátima a 13 de maio, e quem for em direção a Coimbra durante a época académica encontrará um café de outro mundo, o dos estudantes de capa preta, descrito no nosso guia da Queima das Fitas. Em todos estes sítios a lição é a mesma: o melhor café está sempre onde estão os locais, nunca onde está a multidão.

O essencial

Nazaré não é uma vila de cafetarias de design nem de baristas com balança. É uma vila de pescadores onde o café se bebe de pé, rápido, quente e barato, ou então sentado com vista, devagar, a ver o Atlântico fazer o que faz há séculos. Fuja da primeira linha. Suba ao Sítio. Sente-se onde os velhotes jogam às cartas. Peça bica, meia de leite ou galão conforme a hora, acompanhe com um pastel de nata ou com a doçaria da região, e nunca, em circunstância alguma, aceite café num copo de papel à beira-mar. A vila merece melhor de si, e você merece melhor da vila.

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