Nazaré com Crianças: O Guia Honesto das Famílias
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Nazaré com Crianças: O Guia Honesto das Famílias

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As ondas gigantes são para o Instagram. Com crianças, a verdadeira Nazaré é o ascensor de 1889 que sobe a falésia, o peixe a secar nas redes e o gelado ao fim da tarde na Avenida. Um guia honesto, sem romantismos.

Há uma fotografia que toda a gente conhece da Nazaré: uma onda do tamanho de um prédio de dez andares e um surfista minúsculo a descê-la como uma formiga em pânico. É a imagem que enche documentários e vende íman de frigorífico. E é, garanto-lhe, a coisa menos importante para si se chegar à Nazaré com crianças a reboque. As ondas gigantes só aparecem no inverno, veem-se de longe e atrás de uma barreira, e a única interação possível é um adulto a repetir "não te encostes ao muro". As crianças querem outra coisa: areia, gelado, e um elevador que sobe uma falésia quase a pique. A boa notícia é que a Nazaré tem as três coisas, em quantidade industrial.

O ascensor é o melhor brinquedo da cidade

Comece por aqui, porque é a forma mais rápida de comprar paz familiar por uns trocos. O Ascensor da Nazaré abriu em 1889, foi projetado pelo mesmo engenheiro que fez o do Bom Jesus em Braga, e sobe 318 metros de encosta em pouco mais de três minutos. Para um adulto é "giro". Para uma criança de seis anos é um foguetão. Parte mais ou menos de quinze em quinze minutos da estação na zona baixa, junto à Praia, e despeja-o lá em cima no Sítio, o bairro empoleirado na falésia.

Dica prática: sente-se do lado direito na subida. É o lado do mar, e a meio do percurso a cidade abre-se por baixo de si como uma maqueta, com as barracas às riscas alinhadas na areia. Confirme o preço do bilhete na bilheteira, que varia entre ida e ida-e-volta, mas é dos passeios mais baratos que vai fazer em Portugal. Evite a fila das 11h às 13h no verão, quando chegam os autocarros; vá às 9h30 ou ao fim da tarde, que além de não esperar apanha a luz boa.

Lá em cima: o Sítio, o farol e o miradouro que mete medo

O Sítio é o coração antigo da Nazaré e, para quem anda com miúdos, tem a vantagem rara de concentrar tudo a pé num quarteirão. O Miradouro do Suberco é o primeiro paragem obrigatória: debruça-se diretamente sobre a praia, a uns cem metros de altura, e as crianças vão querer espreitar por cima da balaustrada enquanto os pais têm uma pequena paragem cardíaca. Há grades, está seguro, mas leve a mão pequena bem agarrada à sua.

A poucos passos fica a Ermida da Memória, uma capela minúscula ligada à lenda que dá nome à terra: a do cavaleiro Dom Fuas Roupinho que, em perseguição a um veado numa manhã de nevoeiro, viu o cavalo travar à beira do precipício no último segundo. As crianças adoram esta história de cavalos e abismos; conte-lha antes de chegarem ao miradouro e ganha dez minutos de atenção genuína.

Depois caminhe até ao Forte de São Miguel Arcanjo, o fortinho do século XVI com o farol vermelho que aparece em todas as fotos das ondas grandes. Tem uma pequena exposição sobre o surf de ondas gigantes, com pranchas partidas penduradas que impressionam mais os miúdos do que qualquer placa explicativa. Daqui vê-se a Praia do Norte, a praia das ondas monstruosas, que é linda de se ver e absolutamente proibida para tomar banho. Deixe isso bem claro à tropa antes de descerem qualquer escada.

Se as histórias da Nazaré profunda lhe interessam para além do farol, vale a pena perceber de onde vêm os trajes e as superstições da vila. A experiência guiada sobre a tradição das sete saias com a Alma Nazaré Tours explica porque é que as mulheres mais velhas ainda usam sete saias sobrepostas, e fá-lo de uma forma que prende crianças a partir dos sete ou oito anos, desde que estejam descansadas e alimentadas. Com miúdos pequenos, salte; com pré-adolescentes curiosos, é ouro.

A praia: qual é segura e qual é só para ver

Aqui está a parte que ninguém lhe diz com clareza. A Nazaré tem essencialmente duas praias e elas não podiam ser mais diferentes. A Praia da Nazaré, a da vila, em frente à Avenida, é a praia de família: areia larga, declive suave, e nadador-salvador no verão. É aqui que vai armar a toalha e construir castelos. As famosas barracas às riscas coloridas, alugáveis à diária, dão sombra e um ponto de referência para não perder ninguém. Confirme os preços de aluguer no local, porque variam com a época.

A Praia do Norte, do outro lado da falésia, é a das ondas gigantes. Mesmo no verão, quando parece calma, tem correntes traiçoeiras e fundos que mudam. Veja-a, fotografe-a, e fique em terra. Repito porque é importante: ninguém entra na Praia do Norte com crianças. Ponto final.

Outro detalhe que fascina os miúdos sem custar um cêntimo: o peixe a secar ao sol em cima das redes, na areia, junto à Avenida. É a tradição da peixe seca da Nazaré, ainda viva, e as senhoras de saia rodada que tomam conta dele estão habituadas a explicar a curiosos. É um daqueles momentos de etnografia acidental que valem mais do que muito museu.

Onde comer sem drama (e sem gastar uma fortuna)

Comer com crianças na Nazaré é fácil porque a cidade vive do mar e do arroz, e poucas coisas agradam mais a um miúdo do que arroz com peixe ou uma massada. O truque é fugir das esplanadas da primeira linha da Avenida, onde se paga o aluguer da vista, e recuar uma ou duas ruas.

Para um almoço sério de família, o restaurante Sitiado é uma aposta sólida: cozinha de peixe sem pretensões, porções generosas e espaço suficiente para um carrinho ou uma cadeira de bebé. Peça o peixe do dia grelhado e um arroz de marisco para partilhar; as crianças que não comem peixe sobrevivem perfeitamente de batata cozida, salada e pão, que aqui é farto. Há, já agora, uma segunda morada com o mesmo nome, o outro Sitiado, útil quando o primeiro está cheio em agosto.

Se quiser variar do registo tradicional, o Pangeia Restaurante oferece uma carta um pouco mais ampla e ambiente descontraído, bom para aquele jantar em que um dos miúdos decidiu, hoje, que não come peixe de todo. E para o fim do dia, quando as crianças estão derreadas da praia e os adultos precisam de uma bebida em pé de igualdade, o Zulla Terrace Bar tem esplanada virada ao mar: um sumo natural para eles, uma cerveja fresca para si, e o pôr do sol a fazer o trabalho de animação infantil. Vá antes das 20h se levar miúdos pequenos, que depois disso o ambiente fica mais de adultos.

Quando o tempo está mau (ou quando já há areia a mais)

Mesmo no verão a Nazaré tem dias de nortada que cortam a respiração, e em qualquer estação chega o momento em que as crianças já viram areia suficiente para uma vida. É aqui que a localização da vila joga a seu favor: está a meia hora de carro de dois dos monumentos mais espetaculares de Portugal.

A experiência de visita aos Mosteiros de Alcobaça e Batalha a partir da Nazaré resolve-lhe meio dia de chuva com transporte incluído, o que com crianças é meio caminho andado. Batalha, com a sua fachada de pedra rendilhada e o claustro, costuma impressionar mesmo os mais novos; e em Alcobaça vale a pena, depois da igreja, comprar uma das pastelarias conventuais da praça em frente, porque nada reconcilia uma criança com a cultura como um doce de ovos. Se preferir fazer pela sua conta, ambos os mosteiros têm entrada relativamente barata e os menores costumam ser gratuitos; confirme localmente as condições do dia.

Para famílias que ficam vários dias na região e querem esticar os passeios, há mais Portugal a curta distância. Se calhar de estar por cá em maio, vale a pena perceber o fenómeno da peregrinação no nosso guia honesto de Fátima a 13 de maio, a meia hora dali. E quem gosta de andar a pé com a tropa encontra ideias no guia dos trilhos de Caldas da Rainha, vila termal cheia de jardins e da loiça pintada que diverte miúdos curiosos.

O plano de um dia que funciona mesmo

Junte tudo e o dia ideal com crianças desenha-se quase sozinho. De manhã, ainda com a luz fresca, suba no ascensor às 9h30 e percorra o Sítio: Suberco, Ermida da Memória, o farol e a prancha partida. Por volta das 11h30 desça e plante-se na Praia da Nazaré, com barraca alugada e castelo em construção, até à hora de almoço. Almoce peixe grelhado longe da primeira linha, faça a sesta obrigatória das duas da tarde, e volte à praia ao fim do dia, quando a areia arrefece e a multidão alivia.

O segredo da Nazaré com crianças não é fazer mais; é fazer menos e fazê-lo sem pressa. Esta é uma vila pequena, andável, onde a maior atração custa o preço de um café e dura três minutos. Resista à tentação de encher a agenda. Deixe-os ver o peixe a secar, deixe-os ter medo bom à beira do Suberco, deixe-os comer gelado a escorrer pela mão na Avenida ao fim da tarde. A onda gigante que enche os documentários eles veem na internet quando forem grandes. A Nazaré que vão lembrar é esta, a do elevador e da areia.

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