Nazaré com Crianças: O Guia Honesto das Famílias
Esqueça as ondas gigantes: com crianças, Nazaré é o funicular vezes sem conta, o carapau a secar ao sol e o cartucho de nozes no miradouro. Um guia honesto sobre onde comer sem dramas, quando ir e o que fazer quando o vento estraga a praia.
Há duas Nazarés, e qualquer pai ou mãe que apareça aqui em agosto descobre isto em cerca de dez minutos. Há a Nazaré das ondas gigantes, dos surfistas que descem falésias atrás de paredes de água de vinte metros, das fotografias que correram o mundo. E há a Nazaré real, a que interessa quando se viaja com um miúdo de seis anos que só quer entrar no funicular outra vez. Este guia é sobre a segunda. A primeira fica para quando os filhos forem adolescentes e já não quiserem vir convosco.
Vou ser direto: Nazaré com crianças é mais fácil do que parece, desde que esqueçam a fantasia de relaxar numa esplanada enquanto eles brincam tranquilamente. Isto não vai acontecer. O que vai acontecer é uma sucessão de pequenas vitórias, e a cidade, felizmente, está desenhada para facilitar quase todas elas.
O funicular é o vosso melhor amigo
Comecem pelo óbvio, porque o óbvio aqui funciona. O Ascensor da Nazaré, o funicular que liga a Praia ao Sítio desde 1889, é o tipo de coisa que os adultos acham giro e que as crianças acham mágico. Sobe a falésia em poucos minutos, com aquele estremecer mecânico que faz os miúdos agarrarem-se ao corrimão como se fossem astronautas. Custa poucos euros por viagem e, sinceramente, vão fazê-la mais do que uma vez. Aceitem isso desde já.
Lá em cima, no Sítio, está o miradouro do Suberco. A vista sobre a praia em forma de concha é genuinamente espetacular, e há gradeamento, o que para quem viaja com crianças pequenas não é detalhe menor. Avisem desde já: aqui é onde vendem as nozes, os frutos secos e os figos secos das senhoras de saia rodada. Comprem um cartucho. Funciona como combustível e como distração durante pelo menos quinze minutos.
O farol e o forte: onde a Nazaré gigante faz sentido
Se quiserem mostrar aos filhos onde acontecem as ondas famosas, caminhem ou apanhem o carro até ao Forte de São Miguel Arcanjo, no Sítio, junto ao farol. Lá dentro há uma exposição dedicada ao surf das ondas grandes, com pranchas verdadeiras que parecem barcos e fotografias que impressionam crianças e adultos por igual. Mesmo fora de época, com o mar calmo, dá para explicar a história. E mesmo que não percebam nada de canhão submarino, vão gostar de ver as pranchas maiores do que eles.
Um aviso de pai para pai: a zona da falésia em Praia do Norte é deslumbrante e perigosíssima. As ondas que tornaram a Nazaré famosa chegam a sítios que parecem seguros. Não larguem a mão das crianças junto à água ali. Em dias de mar grande, fiquem nos miradouros sinalizados e ponto final.
A praia, sem ilusões
A praia da Nazaré, a da vila, é larga, com areia fina e, ao contrário do que o nome "ondas gigantes" sugere, na maré certa é perfeitamente civilizada para crianças. No verão tem nadadores-salvadores e os tradicionais toldos coloridos alugados, que são uma instituição local e dão sombra a sério, algo que qualquer pai aprende a valorizar por volta das duas da tarde.
O que mais entretém os miúdos não é necessariamente a água: é ver o peixe a secar ao sol nas redes, à moda antiga, mesmo no areal. Carapau aberto, estendido, a apanhar sol como qualquer turista. É uma aula de história viva e gratuita. Expliquem-lhes que era assim que se conservava o peixe antes dos frigoríficos e vejam-nos torcer o nariz com prazer.
Onde comer sem dramas
Comer fora com crianças é uma negociação permanente, e Nazaré tem opções que tornam a tarefa menos hostil. Lá em cima, no Sítio, perto do miradouro, o restaurante Sitiado tem a vantagem geográfica de ficar onde já estão de qualquer forma, depois do funicular. É prático para um almoço sem ter de descer e voltar a subir, e a vista compensa a inevitável espera por uma criança que decidiu que afinal não tem fome.
Para uma refeição com mais calma, vale a pena reservar mesa no Pangeia Restaurante, onde a cozinha tem mais ambição e onde, com sorte, conseguem aquela rara experiência de comer um prato quente do princípio ao fim. Se preferem algo mais central e descontraído, o outro espaço do Sitiado resolve bem o almoço da malta.
Quanto ao que pedir: caldeirada e peixe grelhado são o evangelho local, mas sejamos honestos sobre crianças. A maioria vai querer arroz, batata frita e talvez umas pescadinhas fritas, que aliás são deliciosas e tipicamente nazarenas, servidas com a cauda na boca em círculo. Peçam essas para partilhar. Para os adultos, o peixe do dia grelhado quase nunca falha numa terra de pescadores. Evitem a tentação de pedir marisco caro num sítio que não conhecem só porque estão à beira-mar.
Ao fim do dia, quando as crianças já estão a render menos e vocês precisam de uma bebida fria, o Zulla Terrace Bar é o tipo de sítio onde se pode beber qualquer coisa enquanto eles correm os últimos cartuchos de energia. Não é um bar de crianças, mas ao fim da tarde, com o sol a baixar, ninguém se importa que andem por ali.
Quando o tempo não colabora: cultura à prova de birras
Mais cedo ou mais tarde, num fim de semana em Nazaré, vai chover ou vai estar vento a mais para a praia. É aqui que a localização da vila salva o dia, porque está rodeada de monumentos a meia hora de carro.
A jogada óbvia é a visita aos mosteiros de Alcobaça e da Batalha a partir da Nazaré. Sei o que estão a pensar: mosteiros com crianças, a sério? Mas oiçam. O Mosteiro de Alcobaça tem a história trágica de D. Pedro e D. Inês, que é basicamente uma telenovela medieval com túmulos esculpidos frente a frente, e as crianças ficam fascinadas com a parte macabra. A cozinha monástica, com o rio a passar lá dentro para os monges pescarem, costuma ser o ponto alto para os mais novos. Na Batalha, a abóbada inacabada das Capelas Imperfeitas, aberta ao céu, parece coisa de jogo de vídeo. Funciona melhor do que esperam.
A tradição das sete saias
Se houver vontade de perceber a Nazaré para lá das ondas, a experiência sobre a tradição das sete saias com a Alma Nazaré Tours conta a história daquele traje que veem por toda a vila. As nazarenas usavam sete saias sobrepostas, e há várias explicações, umas práticas, outras simbólicas, ligadas aos sete dias da semana ou às marés. Para uma criança curiosa, é uma boa forma de transformar "aquela senhora tem muitas saias" numa história que fica. É também uma forma de apoiar quem mantém estas tradições vivas, em vez de as reduzir a fotografia para turistas.
Bases para esticar a viagem
Nazaré funciona bem como campo-base para a região, e se estiverem por aqui vários dias há paragens que valem o desvio. Caldas da Rainha, ali ao lado, é surpreendentemente boa para famílias, com o seu parque enorme e mercado de fruta diário; o nosso guia honesto dos trilhos de Caldas da Rainha dá ideias para esticar as pernas dos miúdos sem grandes dramas.
Para quem viaja em maio e tem curiosidade religiosa ou histórica, Fátima fica a menos de uma hora, e a peregrinação do dia 13 é uma experiência intensa que o nosso guia honesto da peregrinação de Fátima ajuda a preparar, multidões e tudo. E se calhar têm filhos mais crescidos, na casa dos quinze ou dezasseis: um salto a Coimbra durante a Queima das Fitas mostra-lhes o que é uma cidade universitária em festa, embora isso já seja outro tipo de viagem completamente diferente.
Logística sem rodeios
Algumas verdades práticas. Nazaré é íngreme: a parte de baixo, a Praia, e a parte de cima, o Sítio, estão separadas por uma falésia. Com carrinho de bebé, esqueçam descer a pé pelas escadas; usem o funicular ou contornem de carro. As ruas da Praia são bastante planas e fáceis de empurrar; as do Sítio também, depois de lá chegarem.
- Quando ir: junho e setembro são o ponto ideal, com praia utilizável e sem o caos de agosto. Em agosto, a vila enche e as filas para tudo, incluindo o funicular, testam a paciência de qualquer um.
- Estacionamento: esqueçam estacionar junto à praia em pleno verão. Deixem o carro nas zonas mais afastadas e desçam a pé, ou usem os parques sinalizados à entrada da vila.
- Quanto custa: uma refeição de família num restaurante decente fica-se por valores razoáveis se ficarem pelo peixe do dia e pratos para partilhar; o funicular e o aluguer de toldo somam pouco ao orçamento diário. Confirmem preços e horários localmente, que variam com a época.
- Segurança na água: respeitem as bandeiras. A praia da vila é uma coisa; Praia do Norte é outra completamente diferente e não é local de banhos para ninguém, quanto mais para crianças.
No fim, Nazaré com crianças não é sobre as ondas gigantes que vos trouxeram a curiosidade. É sobre a cara do vosso filho quando o funicular arranca, sobre o cartucho de nozes partilhado no miradouro, sobre o carapau a secar ao sol que ele vai contar aos amigos. A grande onda fica para a próxima. Por agora, há um peixinho frito com a cauda na boca à vossa espera, e isso, acreditem, é mais do que suficiente.