Mosteiros de Alcobaça e Batalha a Partir de Nazaré
Quatro horas, dois mosteiros UNESCO, e um guia nazareno que liga a história monástica de Alcobaça e Batalha à própria vila piscatória. A Alma Nazaré Tours faz a recolha no teu hotel a partir de 60€, com regresso a tempo do almoço.
Nazaré tem dois rostos. Um é a falésia, o canhão submarino e a obsessão pelas ondas que aparece em todos os documentários. O outro fica a vinte minutos de carro para o interior, em pedra calcária e silêncio: os mosteiros de Alcobaça e da Batalha, dois Património Mundial da UNESCO que a maioria dos visitantes vê de relance numa autocarrada vinda de Lisboa. Se está a ficar uns dias na vila, faz mais sentido ir a partir daqui, com tempo, e idealmente com alguém que saiba contar a história sem soar a folheto turístico.
É aí que entra a Alma Nazaré Tours, operada pelo Joaquim Grilo, conhecido localmente por Quim-Zé. É uma empresa de animação turística registada (RNAAT nº 269/2015), pequena, com base na Nazaré, e o tour aos dois mosteiros é uma das suas saídas regulares. Não é o tour mais barato do mercado, mas é dos poucos que parte mesmo da Nazaré e não te obriga a estar às oito da manhã num ponto de encontro em Lisboa.
O que envolve o tour, passo a passo
A reserva mais simples faz-se através da Civitatis, onde o tour aparece como "Batalha & Alcobaça Monasteries Tour" por 60€ por pessoa. A duração total é de cerca de quatro horas, com recolha no teu hotel ou alojamento na Nazaré, transporte em minibus, guia em português, espanhol ou inglês, e regresso à porta de onde saíste. Os bilhetes de entrada nos mosteiros não estão incluídos: 15€ adulto e 7,50€ sénior em cada um, que se pagam à entrada.
A primeira paragem costuma ser Alcobaça. Saindo da Nazaré pela A8, são pouco mais de quinze minutos. O Mosteiro de Santa Maria de Alcobaça é cisterciense, do século XII, e foi um dos primeiros edifícios góticos de Portugal. A nave central, vista de pé à entrada, é um daqueles momentos em que percebes que fotografias não chegam: trinta metros de altura, austeridade absoluta, sem ornamentação que distraia. Os túmulos de D. Pedro e D. Inês de Castro, frente a frente, são o ponto alto. A história do amor proibido e da vingança macabra é contada em todos os tours, mas vale a pena ouvir bem porque os relevos dos sarcófagos contam o que aconteceu, em ordem, como uma banda desenhada do século XIV.
A cozinha medieval, com aquela enorme chaminé central e o canal por onde corria água diretamente do rio Alcoa, é uma das paragens onde tens de te demorar. Não é só uma curiosidade: é uma das melhores cozinhas monásticas conservadas da Europa.
Batalha: o lado luminoso
A segunda paragem é o Mosteiro de Santa Maria da Vitória, na Batalha, a uns vinte minutos de Alcobaça. Foi mandado construir por D. João I em agradecimento pela vitória em Aljubarrota, em 1385, e a obra arrastou-se por dois séculos e sete reis. O resultado é uma mistura de gótico tardio e manuelino que não faz pelo silêncio: faz pela luz. Se Alcobaça é cisterciense e contida, a Batalha é o oposto.
As Capelas Imperfeitas, que ficam acessíveis pelo exterior do mosteiro, são o que lá há de mais surpreendente. São inacabadas literalmente, sem tecto, e os pilares oitavados terminam no céu. A Capela do Fundador, com os túmulos de D. João I e D. Filipa de Lencastre, e o Claustro Real, com aquela tracaria manuelina obsessiva, valem por si só a entrada. O guia costuma chamar-te a atenção para o portal principal, com 78 figuras esculpidas. Se não te disserem, passa-se ao lado.
O que torna esta experiência diferente
O ponto forte do tour da Alma Nazaré não é o transporte, é o Quim-Zé. É um nazareno que conhece os mosteiros como quem conhece a sala de casa, e tem uma forma de cruzar a história monástica com a história da própria Nazaré, aquela ligação medieval entre os monges de Alcobaça e os pescadores do Sítio. Para perceber a Nazaré atual, este contexto faz diferença. Ele tem outro tour, o "De onde vem a coragem?", que liga Nazaré a três sítios UNESCO (Alcobaça, Batalha e Tomar) num formato mais longo. Se tens o dia inteiro, vale perguntar.
O melhor momento, para mim, é o claustro de Alcobaça por volta do meio-dia, quando o sol entra direito e os arcos projetam aquelas sombras geométricas no chão. Vai com paciência para a Capela do Fundador na Batalha: a luz dos vitrais sobre o granito é coisa que se vê por minutos, não por segundos.
Dicas práticas
- Reservar: mínimo dois participantes. A Civitatis aceita reservas até 24 horas antes em civitatis.com. Para datas privadas ou tours personalizados, contacta diretamente: [email protected] ou +351 912 460 967.
- O que vestir: calçado fechado e confortável, os pavimentos são desnivelados. Casaco leve mesmo em pleno agosto, dentro da igreja de Alcobaça arrefece dez graus em relação ao exterior.
- O que levar: dinheiro ou cartão para os bilhetes (30€ por pessoa para os dois). Garrafa de água. Câmara, mas o flash não é permitido.
- Quando ir: manhã, sem dúvida. Os autocarros grandes vindos de Lisboa começam a chegar por volta das 11h30. A primeira hora em cada mosteiro é claramente a mais sossegada.
O que comer antes ou depois
O tour acaba antes do almoço se sair de manhã, ou ao fim da tarde se sair depois das 13h. Se voltares com fome, o Sitiado serve peixe fresco no Sítio, com vista para a praia, e o Pangeia Restaurante é boa opção para quem quer algo mais cuidado. Para perceberes Nazaré para lá dos mosteiros, vale a pena combinar com a leitura do nosso guia do mercado e do peixe seco, e, se ainda tens curiosidade pelas ondas gigantes, o guia do canhão da Nazaré explica como e quando ver o espetáculo. Para quem quer afastar-se da multidão, o guia das areias desertas dá pistas para tardes mais sossegadas.
Os mosteiros não são experiências de adrenalina nem de praia: são paragens lentas, e a Nazaré tem espaço para isso, sobretudo fora dos meses de pico. Se passares aqui mais de dois dias, este meio dia justifica-se, e fica longe do circuito de excursão de autocarro turístico que despeja gente em Alcobaça às 14h.