Nazaré a Pé: Trilhos do Sítio à Pederneira
Toda a gente vem a Nazaré olhar para as ondas gigantes. Mas há uma vila que se faz a pé, do Sítio à Pederneira, com três níveis de dificuldade e uma falésia que castiga quem esquece o corta-vento.
Toda a gente vem a Nazaré olhar para a água. No inverno, com a ondulação certa, há tripés alinhados no Forte de São Miguel Arcanjo como se fosse a final de um campeonato, todos à espera de uma parede de vinte metros. Mas se vier no resto do ano, ou se simplesmente quiser virar costas ao circo do surf por umas horas, há uma Nazaré que se faz a pé, com botas em vez de prancha. Esqueça a ideia de uma serra dramática: aqui o desafio é a falésia, o pinhal e o desnível entre a praia e o Sítio. Organizei os percursos por dificuldade e por aquilo que realmente vai ver, sem inflar distâncias nem inventar miradouros que não existem.
Antes de calçar as botas
Nazaré tem três andares. Em baixo fica a Praia, a vila comprida colada à areia. No topo da falésia fica o Sítio, com o santuário, os miradouros e o farol. E num esporão a leste, esquecida pela maioria, fica a Pederneira, o burgo antigo. Quase todos os trilhos jogam com estes três níveis, e o grande protagonista é o vento. A falésia do Sítio apanha nortada a sério: leve corta-vento mesmo em agosto, porque a brisa que na praia é agradável, lá em cima descola-lhe o boné.
O calçado importa mais do que parece. Os passeios do Sítio são em calçada portuguesa polida por décadas de pés, escorregadia quando há humidade ou salpico do mar. Para os trilhos de terra do pinhal chega um ténis de sola com algum piso. Leve água: há cafés no Sítio e na Praia, mas entre eles, na falésia, não há nada além de gaivotas.
Fácil: o circuito do Sítio pela falésia
Este é o passeio que toda a gente devia fazer, e é quase plano. A maneira honesta de começar é subir do nível da praia ao Sítio pelo Ascensor da Nazaré, o funicular que trepa a falésia desde 1889. Custa poucos euros por viagem (confirme o valor localmente, que muda), e a subida em si já é metade do espetáculo: a vila encolhe debaixo dos seus pés enquanto a carruagem range pelo carril.
Lá em cima, comece no Miradouro do Suberco, a varanda sobre a Praia. É a fotografia de postal: o areal em meia-lua, os barcos, os telhados. Depois caminhe para oeste em direção ao Forte de São Miguel Arcanjo, o pequeno forte de pedra na ponta. É aqui que se quebram as ondas gigantes da Praia do Norte, e mesmo num dia calmo de verão o canhão submarino faz a água trabalhar de forma estranha lá em baixo. O forte tem uma exposição sobre o fenómeno e os recordes do surf; a entrada é simbólica.
O percurso completo, do funicular ao forte e volta, ronda os três quilómetros sem esforço e faz-se em hora e meia com paragens. A melhor hora é o fim da tarde, quando o sol cai sobre a Praia do Norte e a luz fica cor de tijolo. Antes de descer, é quase obrigatório enfrentar a fila das senhoras de sete saias a vender frutos secos e a tradicional sardinha seca ao sol. Se quiser perceber de onde vem aquela indumentária em vez de só a fotografar, vale a pena a visita guiada à tradição das sete saias com a Alma Nazaré Tours, que transforma um cliché turístico em algo que se entende.
Para almoço ou jantar no fim do circuito, no Sítio, o Sitiado joga a carta do peixe fresco com vista, e há um segundo espaço do Sitiado se o primeiro estiver cheio, o que acontece em agosto. Peça o peixe do dia grelhado e uma salada de polvo; resista à tentação de pedir entradas a mais, porque chegam sempre sem se pedir e a conta dispara.
Moderado: Sítio a Pederneira pelo miradouro escondido
Se o circuito da falésia é o trilho dos autocarros, este é o que tira o turista do mapa. Da zona do santuário, em vez de descer pelo funicular, siga a pé para leste em direção à Pederneira. O caminho passa por ruas residenciais e por troços com vista, e desce e sobe o suficiente para merecer a etiqueta de moderado: nada de técnico, mas as pernas notam.
A recompensa é o Miradouro da Pederneira, sobre as ruínas da antiga igreja, com a lagoa e os campos de um lado e o casario do outro. É um dos sítios mais sossegados de Nazaré, sem vendedores, sem filas, com bancos onde ninguém o apressa. Ao fim de semana há quem traga lanche e fique a ver o sol pôr-se. O troço completo, do Sítio à Pederneira e de volta à Praia, anda à volta dos cinco a seis quilómetros consoante o caminho que escolher, e leva meia manhã.
Faça-o de manhã cedo, antes das onze, por duas razões: a luz é mais limpa e ainda não há calor. No regresso à Praia, para reidratar com estilo, o Zulla Terrace Bar tem um terraço virado ao mar feito de propósito para pernas cansadas e uma cerveja gelada. Não é barato, mas paga-se a vista e o facto de poder ficar sentado uma hora sem ninguém o levantar da cadeira.
Onde comer depois
Para um almoço mais sério depois da caminhada, o Pangeia Restaurante sai do guião do peixe grelhado de praia e cozinha com mais ambição. É o sítio para ir quando já comeu sardinha que chegue e quer um prato pensado. Reserve ao jantar em época alta.
Exigente: o pinhal e a costa para norte
Para quem quer pernas a arder e quilómetros a sério, o terreno está no Pinhal de Nazaré, a mancha de pinheiro-bravo que se estende para norte da Praia do Norte. Há caminhos de terra batida que serpenteiam entre as árvores e saem à arriba, com a vantagem de o pinhal cortar o vento que castiga a falésia descoberta. Aqui a dificuldade não vem do declive mas da distância e da areia: alguns troços são fofos e cansam o dobro.
Não vou inventar marcações nem números exatos de percursos sinalizados; leve uma aplicação de trilhos no telemóvel e não conte com sombra constante nem com água pelo caminho. A regra é simples: encha a garrafa antes, ponha protetor solar, e calcule sempre o regresso, porque ao quilómetro oito o pinhal começa a parecer todo igual. A paisagem aqui é mais bruta e menos postal do que a do Sítio, mas tem algo que os miradouros turísticos não têm: silêncio a sério, partido só pelo rebentar das ondas lá em baixo.
Quem tiver fôlego e tempo pode esticar a costa para sul até São Martinho do Porto, a baía em forma de concha onde o mar entra por uma boca estreita e fica manso como uma piscina. É outra vila, outro ritmo, e o contraste com a fúria da Praia do Norte explica meio Atlântico português numa tarde.
Quando o tempo não ajuda: trocar botas por dia de cultura
A nortada, quando aperta, estraga qualquer trilho de falésia. Em vez de teimar, mude o plano. Nazaré está cercada de história a meia hora de carro. Os mosteiros de Alcobaça e da Batalha, ambos Património Mundial, fazem-se num dia, e quem não quer guiar pode apanhar a excursão aos mosteiros de Alcobaça e Batalha a partir de Nazaré, que resolve a logística e os bilhetes. A pedra trabalhada da Batalha num dia de chuva vale tanto como qualquer miradouro.
Se a sua viagem calhar a 13 de maio, há um desvio que muda tudo: Fátima, a um pulo, recebe centenas de milhares de peregrinos e a estrada enche-se de gente a pé. Antes de decidir se quer estar lá ou fugir nesse dia, leia o nosso guia honesto da peregrinação de Fátima a 13 de maio, que diz o que ninguém diz sobre multidões, trânsito e onde dormir.
Esticar a região a pé
Se ganhou o gosto pela caminhada e tem mais dias, a zona dá para mais. A meia hora para sul, Caldas da Rainha tem percursos pedestres de outra natureza, mais de campo e parque do que de falésia, e cobrimo-los no guia honesto dos trilhos de abril em Caldas da Rainha, ideal para a primavera. E se a viagem se esticar até Coimbra em maio, prepare-se para outro tipo de multidão: a Queima das Fitas e a praxe de Coimbra não têm nada de pinhal, mas fazem parte do mesmo Centro de Portugal que se descobre devagar.
O resumo prático
- Fácil: circuito do Sítio pela falésia, cerca de 3 km, sobe-se de funicular, melhor ao fim de tarde.
- Moderado: Sítio à Pederneira e de volta à Praia, 5 a 6 km, faça-o de manhã cedo.
- Exigente: Pinhal de Nazaré e costa para norte, distância à vontade, leve água e aplicação de trilhos.
- Dias maus: mosteiros de Alcobaça e Batalha, ou São Martinho do Porto.
Nazaré não precisa de uma serra para valer uma caminhada. Precisa só de que olhe para baixo, para os trilhos e para a falésia, em vez de olhar sempre para o horizonte à espera da próxima onda gigante. Calce as botas de manhã, deixe o circo do surf para a tarde, e vai descobrir que a melhor vista da vila é a que se ganha a pé.