Costa Vicentina a partir de Nazaré: Praias Selvagens sem Multidões
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Costa Vicentina a partir de Nazaré: Praias Selvagens sem Multidões

· · Nazaré

Em pleno agosto, a Praia da Nazaré tem toalhas a meio metro umas das outras e chapéus de sol a oito euros. Há cinco praias a vinte minutos onde isso não acontece, e este guia honesto diz quais, quando ir, e onde almoçar a seguir.

Toda a gente que chega a Nazaré quer ver a onda. Compreende-se. Em fevereiro, no Canhão da Nazaré, a água levanta-se como um prédio de doze andares e parte. É o circo. Tem o seu lugar. Mas se conduziu até cá em julho à espera dessa epifania, lamento informá-lo: vai ver a Praia da Nazaré com toalhas a meio metro umas das outras, vai pagar oito euros por um chapéu de sol, e vai voltar para o hotel com o pescoço queimado e a sensação de que falhou qualquer coisa.

O segredo está em virar o carro para sul. Ou para norte. Em qualquer direção menos a Avenida da República em agosto. A Costa Vicentina propriamente dita começa muito mais abaixo, em Sines, e estende-se até ao Cabo de São Vicente. Mas o conceito, a ideia de praia selvagem, falésia escarpada e areal sem chiringuito, esse começa logo aqui, à porta de Nazaré, se souber para onde olhar.

Este guia não é sobre as ondas gigantes. É sobre as outras praias. As que estão a vinte minutos de carro de Nazaré e onde, mesmo em agosto, consegue estender uma toalha sem pedir licença a ninguém.

Porquê fugir da Praia da Nazaré (e quando voltar)

Sejamos honestos. A Praia da Nazaré, a do Sítio, é boa. Areal largo, ondas decentes, barracas listadas que continuam a ser pintadas à mão. O problema é a densidade humana entre 1 de julho e 31 de agosto, e os fins de semana de setembro com sol. Se vai estar em Nazaré nessas alturas, faça da praia central uma coisa para o início da manhã, antes das dez, ou para o fim da tarde, depois das seis. Nessas duas janelas, a luz é melhor, a temperatura é humana, e os miúdos já não estão a gritar todos ao mesmo tempo.

Para o resto do dia, vá-se embora. Há combustível barato, estrada vazia, e quilómetros de costa à espera.

Praia do Norte: ao lado, mas outro mundo

Comecemos pelo óbvio. A Praia do Norte é a praia das ondas grandes, do Forte de São Miguel Arcanjo, da foto que toda a gente tira ao farol. Em dias de surf grande, no inverno, é impraticável e perigosa. Mas no verão, com mar pequeno e vento de norte, transforma-se. O areal é enorme, a 80% do tempo está vazio depois das dunas, e tem aquela coisa rara: vista para o farol sem ter o farol em cima da cabeça.

Aviso a quem leva crianças: as correntes aqui são sérias mesmo com mar calmo. Não é praia de mergulho relaxado. É praia de andar descalço, ler um livro a 15 metros da água, e tirar uma fotografia decente. Se quer banho, há melhor.

Depois do banho, suba ao Sítio a pé pela escadaria, são quinze minutos a bom passo, e almoce no Sitiado, um sítio pequeno onde o peixe grelhado não tem chichi nenhum. Peça o que o homem disser que entrou no dia. Não tente ser esperto com a ementa.

Praia do Salgado: o melhor compromisso

A cinco quilómetros para sul, entre Nazaré e a Foz do Arelho, fica a Praia do Salgado. É a minha escolha número um se quiser uma praia selvagem com acesso fácil de carro. Há um parque de estacionamento grande, há um restaurante decente em cima da arriba, e há cerca de 1,5 km de areal que, em agosto, raramente está cheio porque a maioria das pessoas que vai de Nazaré não sabe que existe.

O que fazer aqui: estender a toalha, andar 500 metros para sul, e perceber que está sozinho. As ondas são geralmente mais limpas do que na Praia da Nazaré porque a costa muda de orientação. É boa para body-board iniciante e para surfistas intermédios. Não tem nadador-salvador em toda a extensão, portanto preste atenção às bandeiras na zona vigiada.

Detalhe prático: o caminho de acesso pela estrada da Pataias tem uma curva mal sinalizada perto do topo. Não confie cegamente no GPS, siga as setas castanhas de praia.

São Martinho do Porto: para os dias de família

Não é selvagem, mas merece um parágrafo de honestidade. São Martinho do Porto, vinte minutos a sul, tem uma baía em forma de concha, água praticamente sem ondas, e fundo que sobe muito devagar. Para quem viaja com crianças até aos seis anos, é a melhor praia da região, ponto final.

Em compensação, em agosto, o areal do lado da vila parece o metro de Tóquio. A solução: estacionar do lado de Salir do Porto, atravessar o areal a pé seguindo a maré baixa, e instalar-se nesse lado, mais virado para o mar aberto. A diferença de aglomeração é absurda. E a vista para a frente da vila, do outro lado, com os barcos coloridos, é exatamente a mesma postal.

Praia de Paredes da Vitória: a aposta dos que sabem

Quinze minutos a norte de Nazaré, depois de passar Alcobaça por dentro ou seguir pela estrada da costa, está Paredes da Vitória. É uma vila pequena, com cara de aldeia de pescadores que ainda não decidiu se quer ser turística, e tem uma praia generosa de areia grossa e falésias amarelas a sul. Em agosto, está cheia. Mas, e este mas é importante, basta andar 800 metros para sul, na direção das falésias, e o número de pessoas cai para um décimo.

Não há sombra natural depois das dunas. Leve chapéu, ou uma daquelas tendas de praia que custam vinte euros no Decathlon e duram dois verões.

O almoço aqui: há tasquinhas razoáveis na vila, mas se está disposto a fazer mais quinze minutos de carro, vale a pena voltar para Nazaré e ir ao Pangeia Restaurante, onde a abordagem ao peixe local é mais cuidada e o serviço continua simpático mesmo em pico de verão. Faça reserva. Em agosto, sem reserva, é roleta.

Praia da Polvoeira e Praia do Norte (sim, outra)

Atenção que há duas praias chamadas Praia do Norte. A nossa, a da onda grande, fica em Nazaré. A outra, mais pequena, fica em Alcobaça e é praticamente desconhecida fora da zona. A norte de Paredes da Vitória, descendo uma escadaria de madeira que faz qualquer pessoa com mais de cinquenta anos pensar duas vezes, está a Praia da Polvoeira. Areal pequeno entre duas falésias, água gelada, e raramente mais de trinta pessoas mesmo em agosto.

Não é praia para passar o dia inteiro com a família. É praia para uma manhã, dois mergulhos honestos, e subir para uma sandes algures. Mas se quer uma fotografia que ninguém da sua zona vai ter, é aqui.

Pontos práticos: condução, marés, estacionamento

A Costa Vicentina perto de Nazaré não tem grande rede de transportes públicos. Para fazer estas praias, vai precisar de carro. Há serviço de carrinhas privadas se for caso, mas para um dia normal o aluguer em Leiria ou Caldas da Rainha sai mais barato do que a maioria das pessoas pensa, na ordem dos trinta euros por dia em ombro do verão.

  • Combustível: encha o depósito em Nazaré ou Alcobaça. As bombas perto das praias são raras.
  • Marés: nestas praias mais pequenas, na maré cheia o areal desaparece quase todo. Consulte uma tabela de marés antes de sair. "Hidrografico.pt" tem a oficial.
  • Estacionamento: chegue antes das 10h30 no auge do verão. Depois das 11h, está a procurar lugar a quinhentos metros do areal.
  • Roupa: o vento da Nazaré é uma personagem do guia. Mesmo em julho, leve um polar para o fim da tarde. Não é exagero.

Quando vir, quando não

A minha sugestão honesta, para quem pode escolher: maio, segunda metade de junho, e setembro. A água ainda está fria em maio, sim, mas o areal está vazio, a luz é melhor, os restaurantes têm tempo para si, e os preços de alojamento descem em alguns casos para metade. Em setembro, o mar aqueceu o suficiente para banhos longos, e os fins de semana ainda têm vida sem ter loucura.

Agosto é o que é. Se só tem agosto, vá na mesma. Mas com este guia, e com a disposição de acordar cedo, escapa à pior parte.

O que fazer fora de praia

Dois dias inteiros de praia é o limite saudável da maioria das pessoas. Para o terceiro dia, mude de registo. Os mosteiros de Alcobaça e Batalha, a partir de Nazaré, são duas das obras-primas do gótico ibérico, e fazem-se confortavelmente em meio dia. Alcobaça, em particular, tem a história de Pedro e Inês para quem nunca leu Os Lusíadas e para quem leu também.

Quem quiser perceber a Nazaré real, a que continua a viver do mar e a pendurar peixe ao sol no Sítio, deve fazer a experiência das sete saias com a Alma Nazaré Tours. É curto, é honesto, e é a melhor forma de não passar uma semana inteira a confundir o folclore das postais com a vida das pessoas.

Para a noite, e cito sem rodeios, o Zulla Terrace Bar tem o melhor pôr do sol da vila e uma carta de cocktails que, sem ser de Lisboa, não envergonha ninguém. Vá com fome para os snacks ou jante antes. Outra opção para jantar com vista é a casa irmã do Sitiado, na zona alta, onde a ementa muda ligeiramente em relação à casa de baixo e o ambiente é mais calmo.

Continuar a explorar

Se estiver na zona em abril, vale a pena alargar o raio uns cinquenta quilómetros e percorrer os trilhos de Caldas da Rainha, que combinam bem com um almoço na praça da fruta e uma tarde de cerâmica. E para quem tenha pensado a viagem com calendário litúrgico ou apenas curiosidade antropológica, o nosso guia honesto sobre a peregrinação de 13 de maio a Fátima explica o que esperar e, mais importante, o que evitar.

A meio caminho entre o académico e o etílico, se calhar de passar em Coimbra entre o fim de abril e início de maio, leia o guia da Queima das Fitas. Não tem nada a ver com praias selvagens, mas tem muito a ver com perceber Portugal além do triângulo Lisboa, Porto, Algarve.

No fim de contas, a melhor coisa que pode fazer numa semana em Nazaré em pleno verão é tratar a vila como base, não como destino. Durma cá, jante cá, mas passe as horas centrais do dia em qualquer outro areal a vinte minutos de distância. Volta cá ao pôr do sol, sobe ao Sítio, e percebe porque é que isto ainda é um dos cantos mais inteligentes da costa portuguesa para quem foge das multidões sem querer abdicar de comer bem.

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