Aldeamento Turístico Casas de Campo do Pomar
Santana
Hotel rural numa quinta a duzentos metros sobre o Atlântico, em Santana, com vinhas de Verdelho, vindima à mão em Setembro e um restaurante onde a espetada chega no pau de loureiro. Caro, isolado, e dos sítios mais honestos da costa norte.
Há hotéis na Madeira que vendem o mar. A Quinta do Furão vende outra coisa: o que acontece antes do mar. As vinhas que descem em socalcos até ao precipício, o ruído seco da poda em janeiro, o cheiro a terra molhada nas manhãs de neblina. Está na Estrada da Quinta do Furão nº 6, 9230-082 Santana, e é provavelmente a coisa mais honesta que se pode fazer no norte da ilha sem ter de pôr botas.
Não vou fingir que é barato. A faixa de preços é €€€, o que aqui significa que se vai pagar uma diária de hotel rural levado a sério, com pequeno-almoço de produção própria e a sensação de que alguém pensou no sítio. Em troca, fica-se a duzentos metros de altitude sobre o Atlântico, com a Ponta de São Lourenço de um lado e o Pico Ruivo nas costas. É das melhores paisagens da ilha e não exige levantar da espreguiçadeira.
Santana fica na costa norte, a cerca de 50 minutos de carro do Funchal pela VR1 e VE1. O caminho passa por Machico e Faial e a última parte, depois de sair da via rápida, faz-se por estrada local até ao alto da Achada do Gramacho, já dentro da freguesia. A quinta está afastada do centro de Santana, isolada num planalto agrícola, e não há transportes públicos úteis até à porta. Carro é praticamente obrigatório, ou táxi pré-marcado para a chegada e partida. O parque de estacionamento é gratuito e não falta lugar.
Quem chega de avião ao Aeroporto da Madeira tem cerca de 35 minutos pela VR1. Aviso: a última subida é estreita e curva. Se vier ao final do dia com nevoeiro (e vai apanhar nevoeiro pelo menos uma vez), conduza devagar. A neblina aqui não é cenário de postal, é nuvem real a passar pelo carro.
Isto é o ponto que muitos guias falham: a Quinta do Furão é mesmo uma quinta em funcionamento. Há vinhas plantadas com castas de Verdelho e Sercial, há hortas, fruteiras, um pequeno pomar e uma adega que produz vinho próprio em colaboração com a Henriques & Henriques. Em Setembro pode pedir-se para acompanhar a vindima, que se faz à mão, em cestos, ladeira abaixo. Não é uma encenação para hóspedes, é o trabalho do ano.
O hotel ocupa um edifício baixo, em pedra e madeira, com terraços virados a norte. Os quartos não são luxo de cinco estrelas internacional, são confortáveis no estilo de casa de campo madeirense bem mantida: roupa de cama decente, varandas a sério, lareira nos espaços comuns para os meses de chuva. Peça quarto com vista mar quando reservar, é a diferença entre dormir num hotel e dormir num miradouro.
O restaurante da quinta está aberto a quem não está hospedado e é uma das melhores razões para subir até cá. A cozinha é regional levada a sério: espetada em pau de loureiro feita no carvão da própria casa, bife de atum com milho frito, sopa de trigo, bolo do caco quente saído do forno de pedra. Os legumes vêm da horta literalmente ao lado e nota-se. Peça vinho da casa, branco, de Verdelho. Ignore a tentação de ir buscar coisas internacionais à carta.
Conselho prático: reserve. Especialmente ao almoço de fim-de-semana, quando enche de famílias do Funchal a fugir do calor. Para confirmar horários e disponibilidade, ligue para +351 291 570 100 ou consulte quintadofurao.com, porque os horários do restaurante variam consoante a época. O dress code é informal, ninguém vai exigir camisa, mas chinelos de praia e calção molhado são obviamente de evitar. Pagam-se cartões sem problema.
Santana é uma das zonas mais subestimadas da Madeira e a quinta é uma boa base para explorá-la sem stress. Comece pelo centro da vila, com as casas típicas de colmo (que toda a gente fotografa e quase ninguém percebe), siga para as levadas do Caldeirão Verde ou da Ribeira do Faial, e desça à costa para descobrir as praias selvagens longe das multidões que pouca gente conhece, como o Faial ou o Porto da Cruz. Para um plano fechado de 24 horas, o nosso roteiro de Santana ao ritmo da ilha resolve a logística.
Quem quiser levar memória física para casa, vale a pena espreitar o artesanato local digno de mala: bordado, cestaria de vime e licores artesanais que aguentam a viagem. E se a quinta estiver cheia ou quiser uma alternativa mais económica, o Aldeamento Turístico Casas de Campo do Pomar fica a poucos minutos e oferece casas independentes em vez de hotel.
A melhor janela é entre Maio e meados de Outubro, com pico em Setembro durante a vindima. Em Janeiro e Fevereiro chove, faz frio e a paisagem fica encharcada, mas é quando a quinta está mais cheia de gente local a fugir do turismo do Funchal. A piscina exterior aquece pelo sol, não há aquecimento, portanto fora de Junho a Setembro nem se incomode. Para spa e tratamentos, confirme directamente, a oferta varia.
Vá se gosta de paisagem agrícola, jantares longos, manhãs com vista e silêncio à noite. Não vá se procura vida nocturna, praia à porta ou serviço de hotel internacional impecável. Aqui há detalhes que falham, telefones que não tocam, recepcionistas que conversam mais do que despacham. É parte do pacote. A vista compensa, o vinho compensa, o cabrito compensa. O resto, leva-se com paciência.