Viagens de Um Dia a Partir de Guimarães: O Mapa Honesto
Guimarães é uma boa base, talvez a melhor do Minho. Mas a graça está em sair dela de manhã: Braga em 35 minutos de comboio, a Casa de Sezim a oito quilómetros, Amarante para o cabrito, Barcelos para a feira de quinta. Um mapa honesto, sem floreados.
Há uma ideia preguiçosa que se repete nos guias de Guimarães: que a cidade berço basta por si. Bastam três dias no centro histórico, três jantares no Largo da Oliveira, uma subida ao Castelo, e pronto, está feito. Não está. Guimarães é uma boa base, talvez a melhor do Minho para quem não quer dormir no caos do Porto, mas a graça está em sair dela de manhã e voltar ao fim da tarde com pó nos sapatos.
A geografia ajuda. A partir da estação da CP, na Avenida D. Afonso Henriques, há comboios urbanos para Braga, Porto e Trofa de hora a hora. A A11 leva-nos a Barcelos em quarenta minutos. A A7 abre caminho para Cabeceiras de Basto e para o coração mais rural do Minho. E se houver carro, em meia tarde estamos no Gerês a comer cabrito com a serra atrás.
Este é o guia que eu daria a um amigo que me pedisse, ao pequeno-almoço no Hotel da Oliveira, com o mapa aberto e o café a arrefecer: vai aqui, evita aquilo, apanha este comboio. Sem floreados.
Braga: vinte minutos de comboio, outro século
Começo por Braga porque é a viagem que toda a gente faz mal. Apanham o comboio das onze, chegam à Sé, tiram a fotografia, almoçam mal numa esplanada turística da Avenida Central e voltam às quatro convencidos de que viram Braga. Não viram nada.
O comboio urbano de Guimarães a Braga demora cerca de 35 minutos com mudança em Lousado, mas há ligações diretas em hora de ponta. O bilhete fica abaixo de cinco euros ida e volta. Confirme os horários no dia, porque a CP gosta de mudar os fins-de-semana sem avisar.
O que eu faria: chegar antes das nove, subir a pé do Largo da Estação até à Arcada, sentar no Café Vianna e pedir um cimbalino com uma fatia de bola de Berlim. Depois sim, a Sé, mas pelas naves laterais, não pela porta da frente cheia de excursões. Almoço, sem hesitação, numa tasca da zona da Sé Velha com bacalhau à Braga ou rojões à minhota. Tarde reservada aos jardins de Santa Bárbara e à subida ao Bom Jesus, de funicular hidráulico, que é uma máquina de 1882 ainda a funcionar com contrapesos de água.
Para o contexto histórico e cultural, vale a pena ler o guia de Braga que escrevemos para quem quer mais do que a Sé. E se calhar de viagem na Quaresma, há toda uma cidade que se transforma para a Semana Santa, com procissões noturnas que valem a viagem.
O que evitar
A Avenida da Liberdade ao fim do dia, lotada de turistas a procurar restaurante. As pizarias com fotografias na porta. E qualquer sítio que sirva francesinha em Braga: é Porto, não é Minho, e em Braga fazem-na sempre mal.
Porto: a viagem que toda a gente faz, e bem
Do Largo do Toural à Estação de São Bento, cerca de uma hora e quinze de comboio urbano. Bilhete a rondar os 3,55 euros. É a viagem mais óbvia e a mais subestimada, porque a maioria dos visitantes de Guimarães vai ao Porto pelos clichés: Ribeira, Livraria Lello, francesinha no Café Santiago. Pode-se fazer melhor.
O meu Porto de um dia parte do princípio que o centro histórico funciona melhor a pé e antes das onze. Saio de Guimarães às sete e meia, chego a São Bento às nove menos qualquer coisa, e a primeira paragem é o Bolhão, que reabriu em 2022 depois de anos de obras. Café com pastel de nata no Confeitaria do Bolhão, conversa com o peixeiro, e depois desço pela Rua de Santa Catarina até à Sé.
Almoço sem turistas: Cervejaria Gazela para um cachorrinho especial e uma imperial, ou um tasco no Bonfim que sirva tripas à moda do Porto se for terça ou quarta. Tarde nos Jardins do Palácio de Cristal, que ninguém visita, com vista para o Douro e cadeiras de ferro para os pés cansados.
Para o roteiro completo, com paragens fora do óbvio, escrevemos um guia separado sobre as melhores viagens de um dia a partir do Porto, que serve igualmente para quem faz o percurso inverso.
Casa de Sezim: o vinho verde sem sair do concelho
Esta nem é uma viagem, é uma fuga curta. A Casa de Sezim fica a oito quilómetros do centro de Guimarães, em Nespereira, e é uma das casas de Vinho Verde com história mais longa do país: a família Mello Sampaio produz aqui desde o século XIV. O solar barroco, com a fachada coberta de papel pintado francês, é por si só razão para a visita.
O melhor formato é a prova guiada de meia manhã: chega-se às dez, prova-se três ou quatro vinhos da casa, almoça-se à mesa do solar se houver grupo combinado. Reserve com antecedência, porque é uma propriedade familiar, não um centro de visitas com horário corrido.
Reuni os detalhes práticos, a sazonalidade e o que esperar da prova num artigo dedicado ao enoturismo na Casa de Sezim, que recomendo ler antes de marcar.
Amarante: ponte, tâmega, doces conventuais
Quarenta minutos de carro pela A7, ou autocarro Rede Expressos com cerca de uma hora de viagem. Amarante é a cidade que toda a gente atravessa para chegar ao Douro e quase ninguém pára. Faz mal.
O centro histórico organiza-se em redor da Ponte de São Gonçalo e da Igreja com o mesmo nome, do século XVI, onde está o túmulo do santo casamenteiro. As mulheres ainda lhe tocam para arranjar marido, e os homens fingem que não. Atravessa-se a ponte e há cafés com esplanada sobre o Tâmega que são dos sítios mais bonitos do norte para almoçar com o ruído da água em fundo.
O que se come: cabrito assado no domingo, lampreia entre Janeiro e Abril (se for corajoso), e os doces conventuais, papos de anjo e brisas do Tâmega, que se compram no Confeitaria da Ponte ou Confeitaria Kopke, ambas a um minuto do centro. Não compre a quem vende na rua. Quase sempre é industrial.
Combinar com o Douro
Se tiver carro e energia, vale a pena estender a viagem até Mesão Frio ou Régua. São mais 45 minutos para leste e está-se no coração do Douro vinhateiro. Mas não tente Pinhão num só dia a partir de Guimarães. Cansa, e o Douro pede que se durma lá.
Barcelos: feira das quintas, galo e mais do que isso
Confesso que Barcelos demorou a ganhar-me. A Feira das Quintas-feiras, aquela do largo de Santa Maria, é das mais antigas de Portugal e a única razão pela qual a maioria dos turistas vai à cidade. Cerâmica, cestaria, vestuário, peixe fresco, queijo, tudo no mesmo espaço desde o século XV. Mas Barcelos é mais do que a feira.
Carro: 35 minutos pela A11. Comboio urbano: cerca de 50 minutos com mudança em Nine. Bilhete em torno dos quatro euros ida.
Vá numa quinta-feira de manhã, evidentemente, mas não saia logo a seguir ao almoço. A Igreja Matriz tem azulejaria barroca que merece tempo, e o Museu de Olaria, na zona do Paço dos Condes, é um dos museus regionais mais bem montados do país. Almoço: arroz de pica no chão, que é frango de capoeira cozinhado com sangue. Não é para estômagos delicados. Se preferir o convencional, vitela barrosã grelhada em qualquer das tascas perto da Torre da Porta Nova.
Citânia de Briteiros: a Idade do Ferro a quinze minutos
Esta é a viagem que ninguém faz e devia. A Citânia de Briteiros, no concelho vizinho de Guimarães, fica a 15 quilómetros do centro, em São Salvador. É um castro luso-romano dos séculos II a.C. a I d.C., escavado pelo arqueólogo Martins Sarmento no século XIX. Restam casas circulares de pedra, ruas pavimentadas, balneários, uma reconstituição parcial de habitação. Anda-se ao ar livre, com a serra à volta, e na maioria dos dias está-se completamente sozinho.
De carro são 25 minutos pela N101. De transportes públicos é mais complicado: há autocarros TUG que servem Briteiros mas com horários reduzidos ao fim-de-semana. Confirme localmente. Bilhete de entrada à volta dos três euros. Leve água, calçado fechado, e idealmente uma manhã inteira.
Combinar com o Museu Martins Sarmento
A coleção de achados arqueológicos da Citânia está exposta no Museu Martins Sarmento, em pleno centro de Guimarães, perto do Largo do Toural. Faz sentido ver primeiro o museu e depois o sítio, para perceber o que se está a ver. A pedra Formosa, com inscrições rituais, está no museu.
Viana do Castelo: o mar a uma hora
Se a viagem a Braga é a obrigatória, a Viana é a recompensa. Cerca de uma hora e dez minutos de carro, ou comboio com transbordo no Porto que torna a viagem longa demais para um único dia. Por isso, este é um dia trip que pede carro.
O que recomendo: chegar pela manhã, estacionar perto da Praça da República, subir ao Santuário de Santa Luzia (funicular ou carro, a vista é uma das mais bonitas da costa atlântica), descer e almoçar peixe na zona do Centro Histórico, idealmente sardinha grelhada se for verão ou caldeirada de peixe se for inverno. Tarde na praia do Cabedelo, do outro lado do rio Lima, com o vento de Norte e duna a perder de vista.
Onde dormir bem em Guimarães para fazer estas viagens
Uma palavra honesta sobre a base. Guimarães tem três opções que recomendo de olhos fechados, cada uma para um perfil.
- Para o viajante que quer luxo histórico e silêncio, a Pousada Mosteiro de Guimarães, instalada no antigo Mosteiro de Santa Marinha, é a escolha óbvia. Fica fora do centro mas com transfer fácil.
- Para quem prefere acordar no Largo da Oliveira e descer para o pequeno-almoço, o Hotel da Oliveira tem a melhor localização do centro histórico.
- Para quem quer conforto contemporâneo e quartos espaçosos, o Hotel de Guimarães é a escolha de bom senso, perto do Toural.
Ao fim do dia, depois de qualquer destas viagens, o melhor sítio para um copo é o Rooftop Bar do Eurostars Santa Luzia, com vista para o Castelo e para os telhados do centro histórico. Vá ao pôr-do-sol, peça um gin tónico decente, e tente não falar com ninguém durante meia hora. É a forma mais civilizada de fechar um dia em movimento.
O dia que ninguém pensa: Açores
Não, não é viagem de um dia. Mas há uma ligação direta TAP de Porto para Ponta Delgada, e em pouco mais de duas horas está-se noutro arquipélago. Para quem fica mais de uma semana em Guimarães e quer um interlúdio inesperado, vale a pena considerar dois ou três dias em São Miguel. O whale watching em Ponta Delgada, na altura do pico das baleias azuis, é uma experiência que reconfigura o que se entende por viagem ao norte de Portugal.
Calendário rápido
Não vá a todo o lado na mesma semana. Escolha três, com calma.
- Quinta-feira: Barcelos pela feira, regresso ao fim da tarde.
- Sexta ou sábado: Braga pela manhã cedo, Bom Jesus à tarde.
- Domingo: Amarante pelo cabrito, e o Tâmega.
- Dia útil qualquer: Citânia de Briteiros logo cedo, Casa de Sezim ao fim da manhã, almoço no centro de Guimarães.
- Dia com mais tempo: Porto, sem pressa.
O resto, deixe para a próxima vez. Guimarães merece que se volte.