Mercado de Guimarães: O Que Comprar, Provar e Evitar
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Mercado de Guimarães: O Que Comprar, Provar e Evitar

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Sete da manhã, o vinho verde sai a granel a três euros o litro e as senhoras dos queijos sabem quem tem o melhor bacalhau. Um guia honesto ao Mercado Municipal de Guimarães: o que comprar sem hesitar, o que provar primeiro, e o cesto de vime que não deve levar para casa.

Às sete e meia da manhã, na Praça do Mercado Municipal de Guimarães, a luz ainda é fria e as bancas estão a ser montadas com aquela coreografia silenciosa que só os vendedores que ali estão há trinta anos conseguem executar. Uma senhora de avental azul descarrega caixas de couves de Trás-os-Montes que ainda têm terra agarrada à raiz. Um homem com boné a tapar os olhos arruma cabazes de cerejas do Fundão a três euros o quilo. O cheiro a alecrim e a peixe fresco chegam ao mesmo tempo, e por um segundo é difícil decidir para onde olhar primeiro.

Isto não é um mercado para Instagram. É um mercado para cozinhar. E é precisamente por isso que vale a pena passar aqui uma manhã inteira, com um saco de pano vazio, uma carteira com dinheiro vivo (muitos vendedores ainda preferem assim) e a paciência para entender que quem chega depois das dez já perdeu o melhor.

A regra de ouro: chegue cedo, saia tarde

O Mercado Municipal de Guimarães abre às sete da manhã e o ritmo muda completamente conforme as horas. Entre as sete e as nove é o reino dos cozinheiros profissionais, dos restaurantes que ali se abastecem e das senhoras que sabem exactamente quem tem o melhor bacalhau curado. Depois das dez aparecem os turistas, e os preços, embora não subam oficialmente, deixam de ser negociáveis com a mesma facilidade.

O sábado é o dia maior. As bancas duplicam, chegam produtores das aldeias do Penedo Gordo, Briteiros, Donim. Há queijos curados num garagem em Sande, mel de eucalipto de Fafe, ovos de galinhas que ainda têm nome próprio. Se só pode escolher um dia, escolha sábado de manhã. Mas se quiser falar com calma com os vendedores, vá a uma terça ou quinta, quando há tempo para uma conversa entre a pesagem das batatas.

O que comprar, sem hesitar

Vinho verde a granel

Não se compra vinho verde engarrafado num mercado. Compra-se a granel, em garrafões de cinco litros, daqueles produtores que enchem ali mesmo de um bidão de inox. Custa entre dois e três euros por litro, e é honesto: ligeiramente turvo, com gás natural, ácido o suficiente para acordar a língua. Leve uma garrafa vazia limpa de casa, ou compre uma na drogaria ao lado. Se quiser perceber melhor de onde isto vem, vale a pena complementar a visita com uma tarde de enoturismo na Casa de Sezim, onde a mesma região se apresenta com pratas e taças. As duas experiências contam histórias diferentes do mesmo produto.

Broa de milho

A boa broa de milho do Minho pesa. Se levantar um pão e este parecer leve, devolva-o. Procure as broas com a base escura, quase queimada, e o topo rachado. Um pão grande não passa dos quatro euros e dá para dois jantares. Coma morna, cortada grossa, com manteiga salgada e sardinha em conserva. Esta é a refeição que a maioria dos restaurantes turísticos não serve, e é uma das melhores que se pode fazer em Portugal.

Queijo curado da serra

Há um banco específico, sempre o mesmo, onde uma família vende queijos curados de ovelha que envelhecem em caves húmidas perto de Cabeceiras de Basto. Peça para provar antes de comprar (é normal, ninguém se vai chatear). O queijo mais velho, com seis meses ou mais, tem uma cristalização salina que estala entre os dentes. Custa cerca de vinte e cinco euros o quilo, e meio queijo é mais do que suficiente para uma viagem.

Enchidos: alheira e salpicão

A alheira de Vinhais com selo de qualidade está aqui. Não confunda com as alheiras industriais dos supermercados, é outra coisa completamente. Leve uma para grelhar (à frigideira, com ovo a cavalo) e uma de salpicão para cortar fino e comer com pão. Cerca de seis a oito euros cada uma, dependendo do tamanho.

O que provar antes de decidir

Há uma banca pequena, sem nome visível, onde uma senhora corta finíssimas fatias de presunto curado em casa e dá a provar com um palito. Não compre logo. Faça a volta toda ao mercado, prove em três sítios diferentes, e só depois decida. O melhor presunto não é necessariamente o mais caro, mas é quase sempre o que vem com a desculpa: "este está com pouca gordura este ano, foi o frio".

Prove também os doces conventuais que aparecem em embalagens caseiras: tortas de Guimarães autênticas, com creme de gemas e amêndoa, vendidas por senhoras que as fizeram nas suas próprias cozinhas. Custam menos do que numa pastelaria do centro histórico e são, sem rodeios, melhores. Duas tortas por cerca de cinco euros chegam para o pequeno-almoço seguinte.

O que evitar, sem culpa

Há sempre um ou dois vendedores que aparecem com produtos "artesanais" que claramente vêm de algures longe: azeitonas em frascos com rótulos suspeitamente profissionais, compotas com etiquetas a fingir manuscrito, sabonetes "de azeite" que cheiram a perfume sintético. Estes vendedores existem em todos os mercados do país, e a regra é simples: se o vendedor não souber explicar quem fez o produto, passe à frente.

Evite também as frutas exóticas. Manga, abacate, ananás. Não é para isto que se vem a um mercado em Guimarães. Concentre-se no que é da região e da estação: em Maio e Junho, morangos da Lousã e cerejas; em Setembro, figos e uvas; no Inverno, citrinos do Algarve e couve portuguesa.

E, por mais bonito que pareça, evite comprar o cesto de vime decorativo a vinte euros que está exposto à entrada. Não é artesanato tradicional. É decoração feita em série para turistas. Se quiser cestaria a sério, pergunte a um vendedor onde a senhora dos cestos vai ao sábado, e procure-a no sábado seguinte.

O ritual do meio-dia: parar para almoçar

Ao meio-dia, com os sacos cheios, é hora de parar. As tascas que rodeiam o mercado servem o tipo de almoço que justifica a manhã: bacalhau à minhota, rojões com castanhas, papas de sarrabulho num prato fundo demasiado cheio. Conte com nove a doze euros para um prato do dia com sopa, vinho da casa e café. Não peça menu turístico em sítio nenhum, mesmo que insistam, peça o prato do dia, escrito a giz no quadro.

Se preferir comer em pé, há uma banca dentro do mercado que faz sandes de leitão da Bairrada que merecem a viagem. Quatro euros, com um copo de vinho tinto a um e cinquenta. Coma de pé, ao balcão, com o saco de compras encostado à perna.

Onde ficar para fazer isto bem

Para tirar partido do mercado é preciso dormir perto. Idealmente, num sítio onde se possa chegar a pé com os sacos sem necessidade de carro. O Hotel da Oliveira, mesmo no centro histórico, é a opção mais óbvia: cinco minutos a pé até ao mercado, quartos sem pretensões e um pequeno-almoço sólido que prepara para a manhã.

Se quiser algo mais ambicioso, a Pousada Mosteiro de Guimarães, instalada no antigo mosteiro de Santa Marinha da Costa, fica numa colina com vista para a cidade. Não é tão prática para o mercado (é preciso descer e subir a pé, ou táxi), mas faz mais sentido se a viagem incluir várias noites e quiser variar a experiência. O Hotel de Guimarães é a opção intermédia: moderno, próximo do centro, sem grandes encantos arquitectónicos, mas funcional.

Ao final do dia, com os pés cansados e as compras já arrumadas, o rooftop do Eurostars Santa Luzia oferece a vista que justifica um gin tónico antes do jantar. Não é barato, mas a perspectiva sobre os telhados vermelhos da cidade compensa.

Como chegar

De Lisboa, o comboio Alfa Pendular ao Porto, seguido do urbano até Guimarães, demora cerca de três horas e meia. Do Porto, há comboios urbanos directos a partir de São Bento, uma hora e dez minutos, cerca de três euros e quarenta. É a opção mais barata e civilizada. Se vier de carro, há estacionamento subterrâneo perto do mercado por três a cinco euros por dia, mas reserve a manhã do sábado: enche.

Esta visita encaixa-se bem em itinerários mais longos pelo Minho. Se está a planear uma viagem mais ambiciosa, consulte as melhores viagens de um dia a partir do Porto, onde Guimarães aparece com diferentes ângulos. Para quem já conhece esta cidade e quer continuar a explorar o norte, vale a pena ler o nosso guia de Braga, que fica a vinte e cinco minutos de comboio e tem um mercado muito diferente, mais barroco, mais teatral.

Quando ir, e quando não

O melhor mês para o mercado é Setembro. O Verão acabou, os turistas rarearam, e chegam os primeiros figos, as uvas, as cerejas tardias da serra. Maio também é excelente: morangos, fava verde, ervilhas tenras. Janeiro e Fevereiro são mais duros: pouca variedade, mas óptimos preços para enchidos e azeite novo.

Evite Agosto, se puder. O calor é pesado, os melhores vendedores estão de férias, e a cidade enche-se de excursões. Evite também as semanas em torno das Festas Gualterianas em Agosto, a não ser que goste de multidão. Se for em Abril, considere combinar com a Semana Santa em Braga, que está mesmo ao lado e merece um dia inteiro.

Uma última coisa

Os mercados portugueses estão a mudar. Os vendedores mais antigos estão a desaparecer, e os filhos nem sempre continuam o negócio. O Mercado Municipal de Guimarães ainda é um mercado a sério, mas dentro de dez anos pode já não ser. Vá agora, com tempo. Compre demais. Leve para casa coisas que não sabe muito bem como cozinhar. Pergunte às senhoras como se faz, elas explicam.

E quando voltar, traga garrafões maiores.

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