Guimarães com Crianças: O Guia Honesto para Famílias
Guimarães não é um parque temático: é uma cidade Património da Humanidade, um castelo com sete torres, e um teleférico que pode salvar-lhe a tarde. O guia honesto para visitar a cidade com crianças, sem promessas vazias nem birras às 14h30.
Vamos ser claros antes de começar: Guimarães não é um parque temático. Não tem aquário gigante, nem montanha-russa, nem mascote a abraçar crianças à porta. O que tem é uma cidade pequena, andável, com um castelo de verdade onde nasceu um país, e ruas medievais onde os miúdos podem correr sem que ninguém se rale. Para muitos pais, isto vale mais do que qualquer parque de diversões. Para outros, ao terceiro "quero ir embora" antes do almoço, vai parecer um castigo. Este guia é para os primeiros, e para tentar converter os segundos.
Eu trago aqui crianças desde que eram bebés em mochila. Hoje têm seis e nove anos e já sabem quem foi D. Afonso Henriques, embora a versão deles inclua dragões. Aprendi, ao longo de uma dúzia de visitas, que Guimarães com crianças funciona se respeitarmos três regras simples: começar cedo, andar pouco de cada vez, e nunca, nunca, prometer um gelado que não se possa cumprir.
A regra das 9h: chegar antes dos autocarros
O centro histórico de Guimarães é Património da Humanidade desde 2001, o que significa duas coisas: é lindo, e está cheio de autocarros de turistas a partir das 10h30. Se chegar com filhos ao Largo da Oliveira às 9h da manhã, vai ter a cidade quase só para si. As pedras estão limpas, as esplanadas a abrir, e há espaço para uma criança de cinco anos andar de mota imaginária pelo meio da Praça de São Tiago sem chocar com ninguém.
Comece pelo pequeno-almoço numa pastelaria do centro, sentados, sem pressa. Peça tostas mistas, sumo natural, e, se a hora permitir, uma fatia de toucinho do céu para partilhar. Os miúdos vão olhar de lado. Insista. Vão pedir mais.
A partir daqui, o plano é simples: subir ao castelo enquanto as pernas estão frescas, descer para o centro a tempo de almoço, sesta ou piscina à tarde, e jantar cedo. Não tente fazer mais. Guimarães premeia quem desacelera.
O castelo: como vender história a quem só quer dragões
O Castelo de Guimarães é, para os adultos, o sítio onde nasceu Portugal em 1128. Para uma criança de seis anos, é uma fortaleza com sete torres e muralhas onde se pode subir, espreitar pelas seteiras, e fingir que se atira óleo a fervilhar nos inimigos. Trabalhe com o material disponível.
O bilhete custa poucos euros e crianças até aos doze anos costumam entrar gratuitamente, mas confirme localmente porque os preços mudam. Reserve uma hora completa. Há muralhas para percorrer, escadas estreitas que os miúdos adoram, e vistas sobre a cidade que os fazem calar por uns segundos, o que já é vitória.
A poucos metros está o Paço dos Duques de Bragança, palácio do século XV restaurado nos anos quarenta com aquele entusiasmo salazarista que hoje se discute, mas que, vamos lá, tem armaduras. Tem tapeçarias com batalhas. Tem uma cozinha gigantesca com chaminés altas. Para um miúdo, é Hogwarts sem feitiços. Combine o bilhete com o castelo e a Capela de São Miguel, fica mais barato.
Conselho prático: leve água, leve um snack na mochila, e use casa de banho antes de entrar. As infraestruturas dentro dos monumentos são o que se espera de monumentos do século XII.
O teleférico da Penha: o melhor investimento do dia
Se há uma única coisa que faz Guimarães funcionar com crianças, é o teleférico da Penha. Sobe quatrocentos metros em sete minutos até ao Santuário da Penha, com vistas que se descrevem mal e se filmam pior. Para os miúdos, é uma atração em si. Para os pais, é a maneira mais civilizada de chegar a um pinhal enorme onde se pode finalmente largar a criança.
O bilhete de ida e volta custa à volta de seis a oito euros para adultos, menos para crianças, e funciona dependendo da época, geralmente das 10h às 18h ou 19h. Confirme antes de subir até à estação inferior, sobretudo no inverno e em dias de vento, quando pode estar fechado.
Lá em cima há trilhos curtos, rochedos espetaculares para escalar com supervisão, o santuário, um parque de merendas, e cafés simples. Leve uma manta, sandes, e fruta. Fique duas horas. Os miúdos vão dormir no carro até casa, prometo.
Onde almoçar sem fazer birra (a criança, ou você)
Almoçar com crianças em Guimarães é fácil se aceitar duas verdades: ninguém vai querer rojões, e a paciência dos restaurantes do centro não é infinita. As soluções dividem-se em três:
- Tascas tradicionais, onde os empregados gostam genuinamente de crianças e onde pode pedir uma dose de batatas fritas com ovo e meia dose de bacalhau à Braga para a mesa toda. Procure no Largo do Toural ou na Rua de Santa Maria. Almoço para uma família de quatro raramente passa dos sessenta euros.
- Esplanadas no Largo da Oliveira, mais caras, mais turísticas, mas com vista para a igreja e espaço para a criança levantar-se três vezes. Pague o premium da paisagem sem complexos.
- Fora do centro, em sítios como a zona de Mesão Frio ou a estrada para a Penha, onde há churrasqueiras com esplanada grande, frango assado em brasa, e parque infantil ao lado. É o que toda a família precisa ao domingo.
Uma sugestão: peça sempre o couvert com moderação. Os miúdos enchem-se de pão e azeitonas e depois não comem o prato.
A tarde difícil: o que fazer quando o castelo já foi
Esta é a hora em que muitos pais falham. As 14h30 em Guimarães com uma criança cansada é território perigoso. Tem três opções honestas.
Primeira: voltar ao hotel para a sesta. Sem vergonha. Guimarães não vai a lado nenhum. Se ficou no Hotel de Guimarães, está a cinco minutos a pé do centro e tem o conforto certo para uma família. Se decidiu fazer figura e ficou na Pousada Mosteiro de Guimarães, no antigo mosteiro de Santa Marinha da Costa, está no sítio mais bonito da cidade para fazer uma sesta com vista, embora obrigue a um táxi para subir. O Hotel da Oliveira, no coração do centro histórico, é prático mas o quarto pode ser apertado para quatro pessoas, confirme a tipologia antes de reservar.
Segunda: ir ao Museu Alberto Sampaio. Está instalado no antigo claustro da Colegiada e tem ourivesaria medieval, pintura, e a túnica que o rei D. João I terá usado em Aljubarrota. Para um adulto, é magnífico. Para uma criança de oito anos curiosa, dá para meia hora bem aproveitada se contar a história à medida que se anda. Para uma criança de quatro anos, esqueça.
Terceira, e a minha favorita: o Parque da Cidade. Tem lago com patos, parque infantil decente, espaço para correr, e uma vantagem que poucos sítios oferecem: não pede nada de cultural à criança. É só parque. Os pais sentam-se num banco, leem o telemóvel sem culpa, e ninguém entra em colapso.
Jantar e o segredo do rooftop
Para o jantar, o conselho é o mesmo do almoço: cedo. Em Guimarães, 19h30 é cedo. 20h é normal. 21h com crianças cansadas é a receita do desastre. Reserve, mesmo em sítios pequenos. A cidade está mais cheia do que parece.
Para uma noite sem crianças, ou com crianças mais velhas que aguentem um copo, vale a pena subir ao Rooftop Bar do Eurostars Santa Luzia ao pôr do sol. A vista sobre a cidade, com o castelo iluminado a um lado e a serra ao fundo, é o melhor que Guimarães oferece em termos de panorama. Os cocktails não são baratos, mas paga pelo cenário. Para uma família com crianças pequenas, faça antes do jantar, fique trinta minutos, e desça para comer.
E se ficar mais do que um dia?
Um fim-de-semana em Guimarães com crianças funciona melhor do que um dia. O segundo dia permite respirar, dormir bem, e fazer coisas que não cabem no primeiro.
Se os miúdos tiverem mais de oito anos, vale a pena fazer uma manhã na Casa de Sezim, uma quinta de vinho verde a poucos quilómetros da cidade. Os pais provam vinhos, os miúdos andam pela quinta, veem vinhas, e há quase sempre cães e galinhas. As provas têm que ser marcadas com antecedência.
Para o segundo dia, considere uma escapada curta. Braga fica a vinte e cinco minutos de carro e tem uma energia completamente diferente: é uma cidade jovem, com uma das maiores universidades do país, e funciona muito bem com adolescentes. Para preparar a visita, leia o nosso guia de Braga. Se calhar em altura de Páscoa, a Semana Santa em Braga é uma das mais impressionantes da Península Ibérica, embora exija explicar bastante coisa às crianças sobre procissões e penitentes.
Se está a basear-se no Porto e Guimarães é uma escapada de um dia, ou se quer mais ideias para combinar com a região, o nosso guia das melhores viagens de um dia a partir do Porto tem alternativas testadas com famílias.
O que não fazer
Algumas coisas que vejo pais tentarem e que quase nunca resultam:
- Visitar tudo no mesmo dia. Castelo, Paços, Museu Alberto Sampaio, Penha, Citânia de Briteiros. É possível em teoria. Na prática, ao fim da tarde ninguém se aguenta e a viagem vira uma sequência de discussões.
- Restaurantes Michelin com crianças pequenas. Guimarães tem bons restaurantes finos. Não os leve a quem ainda atira batatas fritas. Pague o babysitter, vá com calma.
- Subir ao castelo no pico do calor de verão. Agosto às 14h é um forno. Faça às 9h ou às 17h.
- Prometer coisas que não pode cumprir. Não diga "depois vamos andar de teleférico" sem confirmar que está aberto. A traição é registada para sempre.
Custos honestos para um fim-de-semana
Uma família de quatro pessoas, num fim-de-semana de duas noites em Guimarães, fora época alta, conta com qualquer coisa como:
- Alojamento médio em hotel de três ou quatro estrelas no centro: cento e vinte a duzentos euros por noite.
- Refeições: oitenta a cento e cinquenta euros por dia, dependendo onde almoça e janta.
- Bilhetes para Castelo, Paço e Museu Alberto Sampaio combinados: quinze a vinte euros para os adultos, gratuitos ou simbólicos para crianças.
- Teleférico ida e volta: vinte a vinte e cinco euros para a família.
- Cafés, gelados, água, snacks variados: trinta euros por dia, no mínimo, sejamos realistas.
No total, conte com setecentos a mil euros para o fim-de-semana sem grandes excessos. Se quiser fazer a Casa de Sezim ou um restaurante mais especial, some à conta.
Para quem chega de longe
Se vem de fora do país e está a planear uma viagem mais longa pelo norte de Portugal, Guimarães é um excelente segundo destino depois do Porto. A meia hora de comboio, com uma estação central que serve a cidade. Não precisa de carro se ficar no centro. Para experiências mais ambiciosas, como uma expedição de observação de baleias nos Açores, terá de planear separadamente, mas vale a pena guardar a ideia para uma viagem futura: poucas coisas competem com o efeito de uma baleia-azul no horizonte para uma criança.
Conclusão sem grandes palavras
Guimarães com crianças não é uma viagem de adrenalina. É uma viagem de descoberta lenta, em que o castelo se transforma em fortaleza imaginária, o teleférico em montanha-russa moderada, e o gelado no Largo da Oliveira em recompensa final. Se aceitar o ritmo da cidade, e ajustar as expectativas ao que ela é e não ao que gostaria que fosse, vai sair com fotografias que importam e com miúdos que, daqui a dez anos, ainda se lembram do dia em que subiram às muralhas onde, segundo o pai, nasceu Portugal.
E isso, convenhamos, não é mau para um fim-de-semana.