Valença a Pé: Rota de Arquitetura pela Vila Velha
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Valença a Pé: Rota de Arquitetura pela Vila Velha

· · Valença

Uma rota a pé pela Coroada e pela Magistral, com paragens nos baluartes Vauban, na Rua Apolinário da Fonseca, no Largo de São Estêvão, e almoço marcado no Fatum. Duas a três horas, melhor antes das dez da manhã, antes de chegarem os autocarros galegos.

Há um momento, depois de atravessar a Porta do Sol e antes de chegar ao Largo do Trem, em que se percebe finalmente o que Valença é: não uma fortaleza com uma vila lá dentro, mas uma vila inteira que decidiu, há trezentos anos, viver dentro de uma fortaleza. A diferença não é semântica. É arquitetónica, social, e ainda hoje condiciona o modo como se anda por aqui.

Esta rota, que faço sempre que recebo amigos pela primeira vez, demora entre duas e três horas se for feita com calma. Pode ser feita em quarenta e cinco minutos se a pessoa for daquelas que passa por Vauban e diz "giro". Sugiro a versão lenta. E sugiro também que se comece cedo, antes das dez da manhã, porque depois disso os autocarros galegos despejam centenas de pessoas na praça das toalhas e o encanto evapora-se.

O ponto de partida: Coroada, não Magistral

Valença tem duas fortalezas, encaixadas uma na outra como bonecas russas militares. A maior, a sul, é a Coroada, construída a partir do século XVII para proteger a Magistral, a fortificação medieval mais antiga, mais a norte, debruçada sobre o Minho. A maioria dos visitantes entra pela Porta do Sol, na Coroada, atravessa-a a correr, e dirige-se logo à Magistral à procura das toalhas e dos linhos. É um erro.

Comece pela Coroada. Estacione no parque junto à Avenida Espanha (gratuito, raramente cheio antes das dez) e entre pela Porta do Sol. As primeiras pedras que vê, à esquerda, são o que resta dos quartéis dos fuzileiros. À direita, um pequeno largo arrelvado onde, em qualquer manhã de maio, há sempre um senhor de boina a passear o cão. Não é figurante. É geografia humana.

Os Jardins da Fortaleza de Valença começam aqui, distribuídos em manchas pelos baluartes. São jardins funcionais, no sentido militar: foram pensados para que a guarnição tivesse onde plantar legumes durante um cerco prolongado. Hoje têm hortênsias, buxos, e bancos de pedra excelentes para se sentar a olhar para a Galiza, que está literalmente do outro lado da rua, a quatrocentos metros.

O detalhe Vauban que ninguém aponta

Repare nas pontas dos baluartes. Não são quadradas, são em forma de losango, com orelhões arredondados a proteger as gargantas. Isto é arquitetura abaluartada à la Vauban, o engenheiro militar de Luís XIV, e em Valença está aplicada com um rigor que poucos sítios em Portugal igualam. Elvas tem mais escala. Almeida tem mais simetria. Valença tem o melhor diálogo entre fortificação e topografia: a vila aproveita o esporão rochoso sobre o rio, e os baluartes apertam-se ou abrem-se conforme a colina permite.

Quem quiser perceber isto a sério, e não apenas em modo turista, deve fazer a visita guiada às fortificações de Valença do Minho. Custa pouco, dura cerca de uma hora e meia, e o guia leva-vos a sítios das muralhas que de outra forma não se encontram. Não é o género de visita guiada onde se aprendem datas. É o género onde se aprende a ler uma muralha como se lê uma frase.

Atravessar para a Magistral: a Porta da Gaviarra

A passagem da Coroada para a Magistral faz-se por um corredor estreito entre dois revelins, com uma ponte sobre o fosso, e desemboca na Porta da Gaviarra. É o sítio mais cinematográfico da rota. Em maio, com glicínias roxas a cair dos muros, é insultuoso para qualquer pintor de paisagens.

A Magistral, por dentro, é uma vila viva. Tem residentes (cada vez menos, infelizmente: a pressão turística está a esvaziar as casas), tem o quartel-general da malta das toalhas e dos linhos galegos, tem três ou quatro restaurantes que vivem da passagem rápida do almoço, e tem, escondida entre tudo isto, uma quantidade séria de arquitetura civil setecentista que merece atenção.

Rua Apolinário da Fonseca: o eixo certo

Há duas ruas principais dentro da Magistral. A Rua José Rodrigues é a comercial, com as bancas de toalhas, e tem o seu valor, mas não é onde se vai para ver edifícios. Vire à direita assim que entrar pela Porta da Gaviarra e siga pela Rua Apolinário da Fonseca. Casas de granito de dois pisos, com portões enormes que dão para pátios interiores, varandas de ferro forjado, brasões de família por cima de portas. Algumas estão restauradas, outras estão a desabar com elegância.

O Jardim Municipal de Valença fica fora da Magistral, descendo na direção da estação. Não está nesta rota se for purista, mas se tiver tempo vale o desvio: é onde os locais reais (os que não vivem do turismo) passam as tardes. Os bancos viraram conversa. Há sempre um par de crianças a andar de bicicleta. É a Valença que continua a existir depois de o último autocarro galego sair às seis.

A Sé e o Largo de São Estêvão

A meio da Magistral, descendo de leve, chega-se ao Largo de São Estêvão. A igreja matriz está aqui. Por fora é austera, granítica (no sentido literal: é construída em granito), e por dentro tem talha dourada com o estilo barroco minhoto, mais carregado do que se vê em Lisboa, mais terra a terra. Vale entrar. Está habitualmente aberta entre as nove e o meio-dia, e depois das três da tarde. Confirme localmente, porque os horários mudam consoante haja ou não missa.

O largo em si é talvez o melhor sítio de Valença para se perceber a vila como um todo. Sente-se num banco. Olhe para os edifícios. À esquerda, uma casa do século XVIII com janelas em rótula. Em frente, a fachada da igreja. À direita, a Casa do Eirado, com brasão. Por trás de si, um beco que desce para a muralha norte, com vista para Tui, do outro lado do Minho.

Tui ao fundo: o detalhe que muda tudo

Tui não é cenário. É funcional. Valença existe como fortaleza porque Tui existe como fortaleza, e a fronteira entre os dois reinos foi durante séculos uma das mais militarizadas da Península. As duas catedrais, a portuguesa e a espanhola, olham-se através do rio com uma desconfiança que já só sobrevive em pedra.

Quem quiser atravessar a pé até Tui (recomendo), siga até à Porta do Meio, desça pela Calçada da Gaviarra, e atravesse a Ponte Internacional. São cerca de vinte minutos de caminhada, com vista soberba sobre o rio e sobre a fortificação que acabou de visitar.

Onde almoçar (e onde não almoçar)

Vou ser direto. Dentro da Magistral, a maioria dos restaurantes vive do turismo de passagem. Não são maus, mas também não são interessantes. Servem bacalhau à Brás aceitável, francesinha do Norte previsível, e cobram preços de Lisboa.

A exceção, para mim, e a razão pela qual recomendo esta rota a horas que permitam almoçar dentro da fortaleza, é o Fatum, restaurante e casa de fados. Não é o género de sítio onde se entra de calções a pedir um prato do dia. É um restaurante a sério, com cozinha cuidada, vinhos do Minho que não são apenas o alvarinho do supermercado, e fado às sextas e sábados à noite. Para almoço, peça o cabrito se estiver na ementa, ou o bacalhau confitado. Reserve. Sério. Sobretudo ao fim de semana.

Se quiser algo mais informal, vá comer um sandes de leitão a uma das tasquinhas da Rua José Rodrigues, mas escolha a que tem mesas ocupadas por velhotes locais e não por grupos de turistas com mochilas iguais. É indicador infalível.

A muralha norte e o piquenique

Depois do almoço, suba à muralha norte da Magistral. Há um caminho de ronda que se percorre em cerca de quinze minutos, com vista contínua sobre o Minho. Não há balaustrada em alguns sítios, portanto leve as crianças pela mão.

Se quiser fazer pausa fora da fortaleza, e tiver carro ou disposição para uns quinze minutos a pé descida fora, o Parque de Merendas Senhora da Cabeça é o sítio onde os valencianos vão fazer churrasco aos domingos. Tem mesas de pedra, sombra de carvalhos, e uma capela pequena lá em cima a que se sobe por escadinhas. Em maio está cheio. Em novembro está vazio e é melhor.

O que comprar (se tiver mesmo de comprar)

As toalhas. Falemos das toalhas. Valença é célebre, do lado galego, pelas toalhas e linhos baratos. Noventa por cento do que está exposto na Rua José Rodrigues é importado. Confecionado em Bangladesh, embrulhado em embalagem com motivos minhotos. Não é toalha do Minho. É toalha de Valença, no sentido em que se compra em Valença.

Se quiser linho português a sério, há duas ou três lojas pequenas, longe da rua principal, onde ainda se vende produção local ou regional. Pergunte. Os preços são três vezes superiores. A qualidade é vinte vezes superior. Faça a matemática.

Articular com Barcelos: porquê e como

Valença, sozinha, é meio dia. Para encher um fim de semana, articule com Barcelos, que fica a cerca de uma hora de carro a sul, descendo pela A3. Barcelos tem feira (quintas-feiras), tem o galo (claro), e tem cafés. Para preparar essa parte da viagem, leia o nosso guia de cafés de Barcelos, que explica onde se bebe um expresso decente e onde se bebe água quente com sabor a queimado.

Se for em maio, e tiver crianças connosco, há duas leituras adicionais que recomendo: a Festa das Cruzes de Barcelos, a maior festa religiosa e popular da região nesta altura do ano, e o Barcelos com miúdos, com sugestões práticas para quem viaja com fralda às tiracolo.

Custos, horários, pormenores

Entrar na fortaleza é gratuito. Não há bilhete, não há controlo. A fortaleza é uma vila, e as ruas são públicas. Os jardins, a muralha, os baluartes, tudo livre.

Estacionar é gratuito no parque exterior junto à Avenida Espanha. Há lugares pagos dentro da Coroada, mas em maio enchem cedo.

O comboio Celta liga Vigo a Porto, e para em Valença. É a forma mais civilizada de chegar, sobretudo se vier do Porto: dá-vos cerca de uma hora de viagem, com vista sobre o vale do rio. Confirme horários em Comboios de Portugal antes de comprar.

Quando voltar

Voltei a Valença em todas as estações. Em janeiro, com nevoeiro a subir do Minho, é arrebatadora. Em julho, com calor e galegos, é cansativa. Em outubro, com vinhas em fogo do outro lado do rio, é uma das paisagens mais bonitas de Portugal.

Se vai pela primeira vez, vá em maio ou em outubro. Se vai pela segunda, vá em janeiro. Se vai pela terceira, já não preciso de explicar nada: já percebeu.

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