Valença ao Anoitecer: Vinho e Petiscos com Vista para o Minho
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Valença ao Anoitecer: Vinho e Petiscos com Vista para o Minho

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Um serão dentro das muralhas da fortaleza, com vinho verde de produtor, fado em casa séria, e a aguardente bagaceira que ninguém lhe disse para pedir. Guia honesto de petiscos e jantar em Valença, sem listas turísticas.

Valença não é uma cidade que se atravessa a correr. Quem entra pela porta da Coroada às seis da tarde, com a luz a baixar sobre as muralhas e o cheiro a alheira a sair de algum sítio que ainda não localizou, percebe rapidamente que a fortaleza não é cenário: é o restaurante. As ruas de pedra aquecem com o sol que se vai, os candeeiros acendem-se um a um, e o serão começa a desenhar-se entre o copo de vinho verde e o prato pequeno que chega à mesa sem se ter pedido.

Este guia é para quem quer fazer de Valença uma noite, não uma paragem. Para quem entende que petiscar é um verbo lento, que o Alvarinho do outro lado do rio é prima do Albariño galego, e que jantar dentro de uma fortaleza do século XVII tem qualquer coisa de absurdo no melhor dos sentidos. Vamos do aperitivo ao digestivo, com pausas para olhar para Tui, do outro lado do Minho, e para perceber porque é que esta vila raiana é um dos sítios mais subestimados do norte.

Antes do jantar: aquecimento dentro das muralhas

Comece cedo, por volta das seis. A entrada nas muralhas e baluartes da fortaleza é livre, e à hora a que o sol começa a tocar a pedra é quando o sítio se torna fotogénico sem esforço. Suba até ao Baluarte do Socorro, onde se vê o rio Minho a desenhar a fronteira com Espanha, e fique lá uns vinte minutos. Não é tempo perdido: é o aperitivo visual que faz com que o primeiro copo da noite saiba melhor.

Se for a primeira vez em Valença, e quiser perceber o que está a olhar antes de se pôr a comer, vale a pena considerar uma visita guiada às fortificações de Valença do Minho. Os guias locais conhecem detalhes que não estão em placa nenhuma: a história das casamatas, porque é que algumas pedras têm marcas dos canteiros, e o que aconteceu nas Guerras da Restauração. Confirme horários localmente, porque variam com a época.

Outra opção, mais lenta e mais barata, é descer pela Rua Mouzinho de Albuquerque até ao Jardim Municipal de Valença. É um espaço pequeno, ordeiro, com bancos de ferro e um coreto. Não vai mudar a sua vida, mas é onde os locais sentam para ler o jornal ao fim do dia, e dá-lhe uma ideia do ritmo da terra antes de se sentar à mesa.

O copo de abertura: vinho verde, mas o bom

Não vamos fingir: a maior parte do vinho verde que chega às mesas portuguesas não é grande coisa. É leve, é fresco, dá para a sede, e fica por aí. Em Valença, com o rio Minho à porta e a sub-região de Monção e Melgaço a quinze minutos de carro, não há desculpa para beber mal. Aqui, o vinho verde é Alvarinho ou Loureiro, e quando bem servido, gelado mas não congelado, é dos brancos mais sérios que se fazem em Portugal.

Peça pelo nome do produtor, não só pela região. Quintas como Soalheiro, Anselmo Mendes, Quinta de Soalheiro ou os Alvarinhos jovens da margem direita têm presença em quase toda a restauração séria de Valença. Um copo decente fica entre 3 e 5 euros. Uma garrafa entre 12 e 25, dependendo da casa. Se vir um Alvarinho colheita do ano com lees por menos de 18 euros, peça-o sem hesitar.

Para os primeiros petiscos, esqueça o cardápio impresso e olhe para a montra fria. Em Valença, como em quase todo o Minho, o ritual começa com presunto de bolota, queijo de Castelo Branco ou de cabra, salpicão fatiado fino, e pão alentejano com azeite. Não é refeição: é gesto. Custa pouco, demora muito, e prepara o estômago e a conversa para o que vem a seguir.

O jantar: Fatum, e o argumento a favor do fado nortenho

Há uma ideia teimosa de que o fado é coisa de Lisboa e Coimbra. Em Valença, o Fatum, Restaurante e Fados trata desse equívoco com elegância. A casa funciona como restaurante de cozinha portuguesa com noites de fado, e é precisamente o tipo de sítio que justifica vir a Valença em vez de ficar do outro lado do rio.

O argumento prático: dentro das muralhas, ementa que respeita a cozinha minhota sem cair no caricato, e uma sala onde o fado, quando há, não é fundo musical, é parte da refeição. Reserve. Não confie na sorte de balcão, sobretudo a partir de quinta-feira. Confirme localmente se há fado na noite que escolher, porque os horários mudam por época.

O que pedir: comece por entradas leves se for jantar com fado, porque a noite vai ser longa. Um bacalhau à minhota, um arroz de pato bem solto, ou, se a ementa o oferecer, um cabrito assado partilhado entre dois. Evite a tentação de pedir bitoque ou prego: vai-se sair com a refeição mais cara que podia ter feito em qualquer cidade do país. Aqui, vá ao que é regional.

Reserve espaço para a sobremesa. As leite-creme e os doces conventuais do norte são levados a sério em Valença, e um arroz doce com canela acompanhado de um cálice de aguardente velha é a maneira certa de fechar o serão antes do fado começar. Conte com 30 a 45 euros por pessoa, com vinho. Mais com fado em noite cheia.

Depois de jantar: caminhar, não rolar

O erro de quase todos os turistas em Valença é jantar e ir-se embora. A vila à noite, dentro das muralhas, é um sítio diferente: as lojas chinesas que durante o dia dominam a praça da fronteira fecham, os autocarros de espanhóis em compras vão-se, e ficam apenas os candeeiros, os gatos, e quem decidiu ficar.

Faça uma volta lenta pela parte alta. Pare na esplanada do largo principal e peça um café e uma aguardente bagaceira velha. Não há vergonha nenhuma em pedir bagaceira: é o digestivo do norte, é o que os locais bebem, e custa entre 2 e 4 euros. Se preferir, peça uma aguardente vínica de Melgaço. Ambas servem o mesmo propósito: fechar o estômago e abrir a conversa.

Se a noite estiver amena, e tiver companhia que goste de caminhar, desça até ao Parque de Merendas Senhora da Cabeça. De dia é zona de família e churrasco, mas à noite, fora das épocas altas, é um dos sítios mais sossegados para se ouvir o rio. Leve uma lanterna, vista um casaco, e não conte com bar aberto: é apenas a paisagem.

O outro Valença: o que mais ninguém vê

Há um Valença turístico, que é o das compras na praça e da fotografia rápida ao Cristo-Rei do outro lado da ponte. E há o Valença real, que se conhece em três dias de paciência. Se está a fazer noite na vila, dê-se ao luxo de ficar pelo menos para o pequeno-almoço seguinte e para o almoço. Os cafés abrem cedo, os mercados de produtores aparecem em dias certos, e é nessas horas que se percebe a economia local.

Os mercados e o café da manhã

O café da manhã em Valença é episódio sério. A torrada com manteiga, o galão pequeno, o pastel de nata da pastelaria do bairro: este é o ritual que prepara o resto do dia. Sente-se na esplanada de um café qualquer da Rua Mouzinho de Albuquerque por volta das nove da manhã e veja a vila a acordar. Os homens de boné cumprimentam-se, as senhoras vão à padaria, e o turismo ainda não chegou.

Se gosta de comparar terras vizinhas pelo que se serve à chávena, o exercício de andar de café em café é um esporte do norte. Já fizemos esse exercício para outra terra próxima: o nosso guia honesto de cafés em Barcelos dá uma ideia do método. Em Valença, aplique a mesma régua: peça sempre bica curta, prove com açúcar e sem, e desconfie de qualquer sítio que sirva o café tépido.

Combinar com outros pontos do Minho

Valença não está só. Está numa região que fervilha em festas religiosas, mercados, e cidades que vale a pena combinar num roteiro de três a cinco dias. Se o seu calendário coincide, considere passar uma noite em Barcelos para a Festa das Cruzes, uma das celebrações mais autênticas do Minho em Maio. Se viaja com crianças e quer perceber como é que Barcelos funciona em modo família, o nosso guia para famílias em Barcelos é um bom complemento.

Logística sem dor

Como chegar

Valença está a uma hora a norte do Porto pela A3. De comboio, há ligações urbanas via Linha do Minho que param em Valença, com bilhete em torno dos 10 euros desde o Porto. De Espanha, atravessa-se a ponte rodoviária e está-se em Tui em cinco minutos: muitos visitantes chegam por aí.

Onde estacionar

Não tente entrar de carro pela porta da Coroada se nunca o fez. As ruas dentro das muralhas são estreitas e há partes pedonais. Estacione no parque junto à entrada principal, à frente da fortaleza, e suba a pé. É grátis na maior parte do tempo, embora confirme localmente sinalização em dias de feira.

Onde dormir

A pousada de Valença, dentro das muralhas, é a opção romântica e cara. Há também alojamento local em casas tradicionais, com preços bem mais simpáticos a partir de 60 euros por noite em época baixa. Se for ao fim de semana entre Maio e Setembro, reserve com antecedência: a vila enche de espanhóis em escapada.

Quando vir

  • Maio a Junho: melhor combinação de tempo, esplanadas abertas, e ainda não está cheio.
  • Setembro a Outubro: vindima do Alvarinho, restaurantes a propor menus de estação, e luz fotogénica.
  • Inverno: menos turistas, comida mais pesada, lume aceso. Para quem aguenta o frio do Minho, é a melhor altura.
  • Agosto: evite. Ou venha a meio da semana, porque ao fim de semana a praça da fronteira é cenário de caos.

Três regras para não estragar a noite

Primeira regra: não jante antes das oito da noite. Vai estar sozinho na sala, o serviço ainda está em modo de almoço, e perde o melhor do ritual. Os portugueses do norte jantam tarde por uma razão: porque a noite é longa.

Segunda regra: não peça vinho da casa só por ser barato. Em Valença, o vinho verde de produtor custa pouco mais que o de balcão, e a diferença entre um e outro é abismal. Pague mais 2 euros e fique com a história à mesa.

Terceira regra: deixe o telemóvel no bolso durante o fado. Se for a uma casa que tem fado, e o fado começar, o restaurante apaga as luzes e silencia. Quem fala, quem mexe na fotografia, quem responde ao WhatsApp, está a estragar a noite a toda a gente. É etiqueta básica, mas é preciso lembrar.

Valença ao serão é uma daquelas experiências que parecem sem grande pretensão e que ficam na memória anos depois. É uma fortaleza, é um copo de Alvarinho, é uma sopa que demora, é um fado que ninguém esperava ali. Não é Lisboa, não quer ser, e essa é a graça toda. Trate-a com o tempo que ela merece, e ela paga em dobro.

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