Festa das Cruzes em Barcelos: Guia Honesto de Maio
Guia

Festa das Cruzes em Barcelos: Guia Honesto de Maio

· · Barcelos

Fogo de artifício sobre o Cávado, tapetes de pétalas na Avenida da Liberdade e tasquinhas a três euros a bifana: o guia honesto à Festa das Cruzes em Barcelos, primeira semana de Maio. Quando ir, onde comer e o que vale mesmo a pena ver.

Há quem diga que Barcelos só existe duas vezes por ano: à quinta-feira de manhã, quando o Campo da República se transforma na maior feira semanal do país, e na primeira semana de Maio, quando a cidade pega na sua relação complicada com a fé, a pólvora e o folclore e a põe a desfilar pela Avenida da Liberdade. A Festa das Cruzes é a segunda. E se andou a ler na Internet que é uma celebração intemporal cheia de tradição ancestral, esqueça. É uma festa de cidade, ruidosa, com tasquinhas a deitar fumo de sardinha, raparigas de calçado novo a queixarem-se aos namorados, e um arraial onde se dança, sem ironia nenhuma, ao som de um teclista de Famalicão chamado Tony qualquer coisa.

É exatamente por isso que vale a pena ir.

Porque é que existe esta festa, afinal

A história oficial é a que está escrita no friso azulejar do Templo do Senhor da Cruz: a 3 de Maio de 1504, um sapateiro chamado João Pires viu uma cruz de terra desenhada no chão do antigo Campo da Feira. Decidiu marcá-la com pedras, voltou no dia seguinte, encontrou-a apagada. Voltou a marcar. Voltou a apagar-se. À terceira tentativa, percebeu-se que havia milagre no assunto e mandou-se construir uma capela. Em 1701 começou a ser erguido o templo barroco que ainda hoje domina o lado nascente do Campo, projetado por João Antunes, o mesmo arquitecto que desenhou Santa Engrácia em Lisboa. Vale a pena entrar lá só pelo tecto pintado e pelos azulejos azuis e brancos do nártex. Entrada gratuita, fechado durante a missa, confirme localmente os horários porque variam consoante a semana.

Tudo isto soa muito devoto. Na prática, o que interessa hoje é que a cidade decidiu não largar o pretexto. A Festa das Cruzes acontece sempre à volta do dia 3 de Maio e estica-se por cerca de cinco dias, com um programa que mistura procissão, fogo de artifício, tapetes de flores, concertos populares, feira de artesanato e umas quantas centenas de tasquinhas. Se vai pela primeira vez, foque-se na sexta-feira à noite e no sábado: é quando a cidade está em modo festa a sério.

O que vai realmente acontecer (e o que pode saltar)

O fogo de artifício do rio

Aqui não há discussão. O ponto alto é o fogo de artifício lançado sobre o rio Cávado, normalmente na noite de sábado, com a Ponte Medieval ao centro e o Paço dos Condes recortado em silhueta. Os locais sabem que o melhor sítio para ver não é a margem de Barcelos, que fica entupida de gente, mas o lado de Barcelinhos, mesmo do outro lado da ponte. Atravesse a ponte velha a pé umas duas horas antes, leve uma manta, e instale-se na zona ribeirinha à beira da igreja de São Lourenço. Vai ouvir os foguetes refletidos na água. Vale cada minuto de espera.

Os tapetes de flores

Acontecem na manhã do dia 3 de Maio, antes da procissão. Os moradores das ruas centrais, principalmente da zona da Avenida da Liberdade e ruas adjacentes, passam a noite a desenhar tapetes com pétalas, serradura colorida e sal grosso pintado. É a parte da festa que mais se aproxima do tal cliché de tradição, mas é genuíno, feito por gente que aprendeu com os pais. Vá entre as 8h e as 10h da manhã se quiser fotografar antes da procissão pisar tudo. Calce sapatos confortáveis: vai andar muito.

A procissão

Honesta opinião? Se não é particularmente devoto, a procissão das Cruzes não é o programa mais empolgante. Demora, é solene, e está cheia de figuras com indumentária pesada num dia normalmente já quente. Mas vale a pena assistir cinco minutos só pelo coro, pela banda filarmónica e pelos andores. Posicione-se à porta do Templo do Senhor da Cruz quando ela sai ou quando regressa: é o momento mais fotogénico, com o palácio episcopal em fundo.

A zambujeira de tasquinhas

O recinto das tasquinhas montado nas Cinco Esquinas e zona envolvente é onde se passa a maior parte da noite. Não espere alta gastronomia. Espere bifanas a três euros, sardinhas assadas em maio quando ainda nem são as melhores do ano (sejamos sinceros, sardinha boa é em junho), caldo verde, rojões, cabrito assado e francesinhas. Beba vinho verde tinto da casa, em copo de plástico, e não se queixe.

Onde comer a sério, longe da multidão

Há dois erros que turistas distraídos cometem em Barcelos durante a festa: pensar que tasquinha é jantar e pensar que os restaurantes do centro estão todos cheios e fechados. Não estão. Estão é mais difíceis de reservar.

Para um almoço sólido entre dias de festa, o Munchies Café é a minha sugestão para quem quer fugir do bacalhau-com-natas-em-toda-a-parte e comer algo mais leve, uma sandes decente, uma salada que não seja só alface e tomate aguado. É o sítio onde os trabalhadores remotos da cidade se encontram durante a semana, e em Maio funciona como base de operações para quem precisa de reagrupar antes de voltar à festa.

Se procura um sítio mais elegante para um almoço com vista, o Historial Caffé é literalmente o mirante para o Cávado: terraço sobre o rio, ementa que se leva a sério mas não cansa, e o tipo de luz da tarde que faz parecer que está numa fotografia de viagem. Reserve com antecedência durante a semana das Cruzes, principalmente para sábado.

Para o pequeno almoço, ou para essa pausa do meio da tarde quando já não aguenta mais ruído, o Grava Bike Café é o refúgio. É um café-oficina-de-bicicletas que serve café como deve ser, sem aquela coisa de torra escura queimada que ainda se encontra em metade do país. Se quer perceber porque é que vale a pena dar atenção à cena de café local, leia o guia de cafés de Barcelos que escrevemos.

Onde dormir e quando reservar

Vou ser direto: as unidades hoteleiras dentro do centro histórico de Barcelos são limitadas, e em Maio enchem com semanas de antecedência. Se está a ler isto em Janeiro ou Fevereiro, ainda apanha o Bagoeira Hotel ou o Art\'Otel. Se está a ler isto em Abril, a sua melhor hipótese é olhar para Barcelinhos, do outro lado da ponte, ou para alojamento local nas freguesias rurais a cinco quilómetros do centro. Há quintas decentes em Vila Boa e em Vila Cova com preços que rondam os 70-90 euros a noite em quarto duplo. Confirme sempre a possibilidade de estacionamento: na cidade, durante a festa, esqueça-se de carro perto do centro.

Estacionamento, aliás. O parque do Estádio Cidade de Barcelos, no extremo sul da cidade, é o mais sensato. Caminha-se uns vinte minutos até ao centro. Em alternativa, os autocarros urbanos reforçam a frequência durante a festa, mas são imprevisíveis quando há cortes de trânsito.

Como chegar a Barcelos

De comboio: linha do Minho, há comboios diretos do Porto Campanhã com cerca de 50 minutos de viagem, bilhete entre 4 e 6 euros consoante o comboio. A estação fica a dez minutos a pé do Campo da República. É a opção mais inteligente para quem vem do Porto só por um dia.

De carro: A3 e A11, sai-se em Barcelos, depois é seguir as indicações para o centro. Vinda de Lisboa, conte com 3h30 a 4h.

Avião: aeroporto Francisco Sá Carneiro, no Porto. Daí, comboio direto para Barcelos via Campanhã.

O que fazer se não está na festa: o resto de Barcelos

Boa parte dos visitantes vem só para a Festa das Cruzes e nem chega a ver o resto da cidade. Erro. Barcelos é uma cidade pequena, sim, mas com mais conteúdo do que aparenta. Se levar o dia 4 de Maio para descansar dos excessos da véspera, dedique a manhã a passear pelo centro histórico vazio (depois da festa, parece outra cidade), comece pelo Paço dos Condes ao ar livre, com as cruzes de pedra em granito a céu aberto e onde supostamente o Galo de Barcelos teria cantado, e suba até ao Templo.

Quanto a museus, sou de opinião forte: nem todos valem o bilhete. Se tem um par de horas, escolha bem em vez de tentar ver tudo. Para uma análise honesta, leia o nosso guia de museus de Barcelos.

Se anda com crianças, a Festa das Cruzes é amigável até por volta das 22h, quando o ruído começa a ser demais para os pequenos. Para o resto do dia, o guia de Barcelos com miúdos tem ideias concretas de parques, esplanadas e atividades.

Comprar artesanato sem cair em armadilhas

Durante a festa, a feira de artesanato é maior do que a feira semanal habitual da quinta-feira. Centenas de bancas. Aqui vai o filtro: a verdadeira figurada de Barcelos vem do barro, é pintada à mão, tem assinatura de oleiro do concelho na base. Se não tem assinatura, é provavelmente fabrico em série de outro distrito a passar por barcelense. As filhas e netos de Rosa Ramalho, do Júlio Cota, e dos outros nomes históricos da figurada continuam a expor. Pergunte sempre quem fez. Galos pequenos pintados à mão começam nos 12-15 euros; tudo abaixo disso é sinal de origem duvidosa.

Um conselho final, prático e desprendido

A Festa das Cruzes não é o festival mais bonito do calendário português. Não é a Festa de São João do Porto, não é o Carnaval de Torres Vedras, não é a Feira Medieval de Óbidos. É uma festa de cidade pequena, com tudo o que isso tem de bom (gente real, comida sem encenação, ritmo humano) e de menos bom (organização irregular, ruído, momentos de aborrecimento entre os bons momentos).

O segredo é tratá-la como ela é: uma desculpa para passar três dias em Barcelos a Maio, quando o tempo já está bom mas a cidade ainda não está nos picos turísticos do verão. Combine a festa com um passeio matinal pelo centro vazio, um almoço decente, uma tarde fora da cidade. Se gosta de natureza e está disposto a esticar a viagem, é a altura ideal para apanhar um troço da costa, ou se quiser experimentar algo completamente diferente em Portugal nessa primavera, vale a pena considerar uma caminhada na Rota Vicentina num fim de semana próximo.

Em Barcelos, no dia 3 de Maio, esteja onde estiver, há de ouvir as bandas filarmónicas a treinar à tarde, antes da procissão. Pare durante cinco minutos. Não procure fotografia. Ouça. É a única instrução que dou.

Minho Tradições Barcelos Festa das Cruzes Festivais de Maio