Trilhos de Valença: Caminhadas por Dificuldade e Vistas
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Trilhos de Valença: Caminhadas por Dificuldade e Vistas

· · Valença

Da volta de duas horas pela coroa da fortaleza ao trilho sério de 14 km até Vila Nova de Cerveira: seis caminhadas em Valença ranqueadas por dificuldade e por aquilo que vais ver. Com horários honestos, custos reais, e onde almoçar a sério no fim.

Há uma coisa que ninguém te diz sobre caminhar em Valença: o melhor trilho começa quando atravessas a Porta do Sol da fortaleza às 7h30 da manhã, antes dos autocarros de Vigo despejarem os primeiros compradores de toalhas de linho. A essa hora, ouves o teu próprio passo nas pedras de granito (sim, granito a sério, não metáfora), os andorinhões a guinchar nas muralhas e, lá em baixo, o Minho a correr lento como se ainda estivesse a decidir se vale a pena chegar ao mar.

Valença não é Gerês. Não há cumes de 1.400 metros nem lobos. O que há é uma rede curiosa de trilhos curtos, ecovias planas, caminhos de ronda da fortaleza e percursos de aldeia que, juntos, dão para uma semana inteira de caminhadas sem repetir paisagem. Este guia é uma classificação honesta: do mais fácil (sapatilhas e gelado na mão) ao mais sério (botas, água, e respeito pelo calor de julho).

Antes de começar: o que precisas mesmo de saber

Valença está no extremo norte do Minho, a poucos metros da Galiza, numa colina de granito espremida entre o rio e a fronteira. O clima é simpático para caminhar quase todo o ano, mas com avisos: de novembro a março chove a sério (chuva miúda, persistente, daquela que parece nada e em vinte minutos estás encharcado); de junho a agosto, o sol bate sem misericórdia nas pedras claras da fortaleza, especialmente entre as 13h e as 16h.

O melhor calçado depende do trilho, mas para qualquer percurso fora do casco urbano leva sapatilhas com piso decente. Os caminhos de terra ficam escorregadios depois da chuva e os trilhos junto ao rio têm raízes traiçoeiras. Água: traz sempre, há fontes públicas dentro da fortaleza mas pouca coisa fora dela.

Como chegar: comboio urbano desde Porto Campanhã (cerca de 1h45, com transbordo em Nine ou Viana), bilhete entre 8 e 10 euros conforme o horário. De carro, A3 directo, portagem à volta de 6 euros desde o Porto. Estacionamento gratuito junto ao polidesportivo, a 5 minutos a pé da fortaleza.

Nível 1: Fácil — para quem quer andar sem suar

1. Volta às muralhas pela coroa da fortaleza

Distância: cerca de 2,5 km. Desnível: praticamente nulo. Tempo: 1h se não parares, 2h30 se parares (e vais parar).

Este é o trilho mais óbvio e, ainda assim, o mais subestimado. Muita gente entra na fortaleza, fotografa o arco principal e vai directa às lojas de toalhas. Erro. O percurso pelo caminho de ronda é uma aula de engenharia militar abaulada Vauban do século XVII, com vistas alternadas para o Minho, para Tui do outro lado do rio, e para o casario de Valença a teus pés. Faz no sentido contrário ao dos ponteiros do relógio para apanhar a melhor luz no Baluarte do Socorro ao fim da tarde.

Pelo meio, faz uma paragem nos Jardins da Fortaleza de Valença, um espaço pequeno mas bem cuidado entre baluartes onde dá para sentar à sombra e desligar do barulho do mercado. Se preferires um cantinho urbano mais clássico, com bancos de ferro forjado e coreto, o Jardim Municipal de Valença fica logo abaixo, junto à zona dos cafés.

Para perceberes o que estás a ver, faz uma vez na vida a visita guiada às fortificações. Pago, sim, mas a diferença entre andar nas muralhas a olhar para pedras e andar nas muralhas a entender porque é que um revelim aponta naquela direcção e não noutra é literal e absurdamente grande.

2. Ecopista do Minho (troço Valença, sentido Monção)

Distância: faz o que te apetecer, são 13 km até Monção mas podes parar em qualquer ponto e voltar atrás. Desnível: zero, antiga linha de comboio. Tempo: 1h30 ida (a pé, em ritmo descontraído) até ao primeiro miradouro decente.

Não tem grande mistério: caminhas pelo leito desactivado da linha do Minho, com o rio à direita e quintas com kiwis e vinha à esquerda. É plana, é sombreada por árvores em vários trechos, e podes fazer com bicicleta alugada (há aluguer junto à entrada principal da fortaleza, à volta de 12 euros por meio dia). Recomendo a pé até ao primeiro café de aldeia que encontrares, beber uma imperial gelada, e voltar.

Nível 2: Moderado — para quem quer mexer as pernas

3. Subida ao Monte do Faro (lado galego, atravessando a fronteira)

Distância: 8 km ida e volta. Desnível: cerca de 350 metros. Tempo: 3h a 3h30 com paragem no topo.

Sim, este trilho começa em Valença e acaba na Galiza. Atravessas a Ponte Internacional a pé (passagem livre, é Schengen, basta levar o cartão de cidadão por hábito), entras em Tui, e segues a sinalização para o Monte Aloia/Monte do Faro. As vistas do topo são, sem exagero, das melhores do baixo Minho: vês o rio a serpentear, a planície de Valença, e em dias claros até o oceano ao fundo.

O troço português é curto e plano. A parte séria começa em Tui, com uma subida constante por caminho de terra batida e algumas secções de calçada antiga. Não é difícil mas é contínua, e em pleno verão é desaconselhada depois das 11h. Vai cedo, leva 1,5 litros de água por pessoa.

Aviso útil: a fronteira fecha o trânsito automóvel em algumas datas pontuais (eventos, peregrinações), mas a passagem pedonal nunca fecha. O telemóvel pode mudar de operador no meio da ponte. Desliga os dados móveis se não tens roaming europeu activado, pode dar-te uma surpresa na factura.

4. Trilho do Parque de Merendas Senhora da Cabeça

Distância: 6 km em circular. Desnível: 180 metros. Tempo: 2h a 2h30.

Este é o meu favorito da categoria "moderado" e, ainda assim, é o que menos gente faz. Começa no Parque de Merendas Senhora da Cabeça, um espaço com mesas de pedra debaixo de pinheiros e carvalhos onde, ao domingo, as famílias do concelho montam grelhadores que cheiram a costeleta de porco bísaro a meio quilómetro de distância.

Sai-se do parque por um trilho marcado em amarelo (presta atenção às marcas, em alguns pontos a vegetação cresce e tapa as setas) que sobe suavemente por mata mista até um miradouro improvisado sobre o vale. Desce pelo lado oposto, passa por um pequeno aqueduto que ainda leva água a algumas quintas, e regressa pelo caminho rural antigo.

O melhor: faz este trilho ao final da manhã, regressa ao parque, e almoça merenda. Compras pão, queijo de Trás-os-Montes, um chouriço e uma garrafa de vinho verde tinto (sim, tinto, não te esqueças que o verde branco é para turistas em terraços com vista) num supermercado local antes de sair, e tens almoço para dois por menos de 15 euros.

Nível 3: Sério — para quem traz botas e sabe o que faz

5. Travessia Valença a Vila Nova de Cerveira pela margem do Minho

Distância: 14 km lineares. Desnível: variável, com várias subidas curtas mas íngremes. Tempo: 4h a 5h, dependendo das paragens.

Este é o trilho que separa quem caminha de vez em quando de quem caminha a sério. Não pela dificuldade técnica, é fácil em termos de orientação, mas pela duração e pela exposição em alguns trechos. Vais sempre paralelo ao Minho, alternando entre ecovia, caminhos rurais, e secções de trilho mais selvagem onde tens de saltar raízes e desviar-te de silvas.

Logística: vai de comboio até Vila Nova de Cerveira de manhã (15 minutos desde Valença, 2 euros), e faz o regresso a pé. É psicologicamente mais fácil saberes que estás a aproximar-te de casa do que ao contrário. Os comboios passam de hora a hora, mais ou menos, mas confirma o horário no dia.

Pelo caminho não vais encontrar muitos cafés, por isso leva almoço. A meio do percurso há uma zona de pedras planas junto ao rio onde dá perfeitamente para parar, comer uma sandes, e mergulhar os pés (no verão, a água está fria mas suportável).

6. Trilho da Senhora da Cabeça pela rota antiga dos peregrinos

Distância: 11 km circular. Desnível: 420 metros acumulados. Tempo: 4h.

A versão longa e séria do trilho da Senhora da Cabeça. Sobe pela rota antiga dos peregrinos, com algumas secções de calçada medieval ainda preservada, passa pela capela no topo, segue por uma cumeada com vistas para o vale e para a Galiza, e desce por um vale sombrio com um ribeiro que corre o ano inteiro.

É o trilho onde mais provavelmente te perdes, por isso descarrega o percurso em GPS antes de sair (Wikiloc tem várias variantes, escolhe uma com pelo menos 50 avaliações recentes). A subida pela calçada antiga é dura nos joelhos à descida, considera fazer no sentido inverso se tens problemas articulares.

Onde comer e dormir depois de caminhar

Depois de seis horas de trilho, não estás para experiências culinárias arriscadas. Queres comer bem, beber melhor, e não pagar uma fortuna. A minha recomendação para o jantar é o Fatum Restaurante e Fados, dentro da fortaleza. Pede o bacalhau, ignora a tentação de pedir entradas a mais (o pão e os enchidos da casa chegam para abrir o apetite de três pessoas), e fica para o fado se a noite for de quinta a sábado.

Para um almoço pós-trilho mais informal, qualquer tasca da Avenida de Espanha serve um menu do dia honesto entre 9 e 12 euros. Não esperes carta, esperas que te perguntem se queres sopa e te tragam o que houver de prato do dia.

Combinar Valença com o resto do Minho

Se vais ficar uns dias na região, vale a pena combinar Valença com Barcelos, a 50 minutos de carro. Se calhares estar por lá em Maio, dá uma vista de olhos ao guia da Festa das Cruzes, que é uma das festas mais autênticas do norte (e tem zonas pedonais perfeitas para descansar pernas cansadas). Se viajas com crianças, o nosso guia Barcelos com Miúdos tem ideias de paragens fáceis. E para quem precisa de uma manhã lenta com café decente antes de calçar as botas, vale a pena ler Barcelos à Chávena.

O que NÃO fazer

Não tentes fazer o trilho do Monte do Faro a meio do dia em julho ou agosto. Vais arrepender-te. Não dispenses água por seres só uma caminhada de duas horas, no Minho a humidade engana. Não saias dos trilhos marcados em zonas de mata fechada, a cobra-de-água é inofensiva mas as carraças são uma peste a partir de abril. E, por amor à reputação dos caminheiros honestos: não deixes lixo. Levas, trazes.

Valença é uma cidade pequena com uma fortaleza desproporcionalmente grande e uma rede de trilhos que ninguém espera. Caminha cedo, almoça devagar, e fica para a luz do fim da tarde nas muralhas. É de graça, é gloriosa, e é tua se aparecêres antes das nove da manhã.

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