Surf e Mar em Faro: Onde Apanhar Ondas, Aprender ou Apenas Ver
Faro não é uma cidade de surf, e dizemo-lo já. Mas tem ondas pequenas para aprender, a Ria Formosa para o stand-up paddle, e a uma hora de carro estão algumas das melhores ondas de Portugal. Eis o guia honesto, com preços, horários e opiniões.
Comecemos com uma verdade impopular: Faro não é uma cidade de surf. Quem chega ao Algarve com a prancha debaixo do braço, à espera de paredes verdes a partir do passeio marítimo, vai sair desiludido. A geografia de Faro foi desenhada para outra coisa, uma laguna abrigada, um cordão de ilhas-barreira que mata o swell antes de ele chegar à areia, águas onde o vento conta mais do que a ondulação. O mar aqui é um lago disfarçado de oceano. E é por isso, exactamente por isso, que Faro merece um capítulo no diário de qualquer surfista. Porque ensina a olhar para o mar de outra maneira.
Este é o guia honesto: onde apanhar ondas (e a quantos quilómetros), onde aprender sem partir a clavícula, e onde, em alternativa, simplesmente sentar-se com um galão e ver o Atlântico fazer o que faz melhor. Porque ver o mar também é uma forma de o saber.
O problema da Praia de Faro (e porque é que isso não é um problema)
A Praia de Faro fica numa das duas extremidades da Península do Ancão, ligada à cidade por uma ponte estreita que dá para um único carro de cada vez e por um parque de estacionamento que enche às 9h30 em Agosto. É uma praia comprida, plana, com águas mornas em verão e fria como o coração de um banqueiro em Janeiro. Há ondas, sim, na maré certa, com vento de norte e swell residual a sul. Mas a palavra-chave é residual. Numa boa manhã, encontra-se algo entre os 30 e os 60 centímetros, suficiente para uma longboard preguiçosa, insuficiente para qualquer pessoa que use a palavra "shortboard" sem aspas.
O lado bom: é uma praia de aprendizagem honesta. Para um turista que nunca pôs os pés numa prancha, este é o sítio. Várias escolas operam a partir do areal entre Junho e Setembro, com aulas de grupo na ordem dos 35 a 45 euros por sessão de duas horas, prancha e fato incluídos. Confirme localmente, os preços oscilam consoante a procura e a teimosia do instrutor. O fundo é de areia, sem rochas a roer-lhe os tornozelos, e quando a ondulação está pequena (ou seja, quase sempre) é didáctico, paciente, perdoador.
Antes ou depois da aula, recomendo um desvio à Pastelaria Padaria Centeio para um pão com chouriço quente e um galão duplo. Comer doces antes de apanhar ondas é receita para enjoo, mas pão e café fazem sempre o trabalho. Se preferir o ritual mais clássico do pastel de nata após o banho, a Pastelaria Gardy está aberta desde os anos 60 no centro e serve um daqueles natas em que a massa estala como deve estalar.
Onde estão as ondas a sério: a hora de carro a oeste
Aqui é onde se separa o turista do surfista: as ondas decentes do Algarve estão a oeste, e Faro é a base perfeita para chegar lá. De carro, em uma hora a hora e meia (consoante o tráfego do IP1 em Agosto, que pode ser bíblico), tem-se acesso a algumas das melhores ondas de Portugal continental.
- Praia do Amado e Carrapateira: Costa Vicentina, vento de norte termal a soprar com a regularidade de um relógio suíço, ondas a quebrar em ambos os lados do areal. Para todos os níveis. Estacionamento gratuito, food trucks no parque, multidões de surf-camp no pico do verão.
- Arrifana: Uma baía em forma de meia-lua, com falésias vermelhas e uma direita longa que pode dar até 200 metros num bom dia. Um clássico. A descida de carro até à praia é estreita, vá com calma.
- Beliche e Tonel (Sagres): Beliche para dias maiores, Tonel para o resto do ano. A ponta sudoeste da Europa, com o farol de Sagres a vigiar do alto.
- Zavial: Pequena, charmosa, com uma direita rápida quando o swell entra de sudoeste. Almoço no restaurante em cima da praia, peixe grelhado, sem grandes pretensões.
Para quem está em Faro sem carro, há shuttles de surf que partem da cidade a partir dos 25 a 30 euros por dia (só transporte) ou pacotes com aula incluída entre 55 e 75 euros. As escolas mais sérias usam furgonetas de 9 lugares, partem entre as 8h e as 9h, e regressam ao final da tarde. Confirme reservas com 24 horas de antecedência em alta época.
O outro mar: a Ria Formosa e o stand-up paddle
Recuso-me a escrever um artigo sobre o mar em Faro sem falar da Ria Formosa, porque seria desonesto. A Ria não é o oceano, mas é o que define a relação desta cidade com a água. É um sistema lagunar com 18 mil hectares, cinco ilhas-barreira, canais de maré que mudam de feição duas vezes por dia, e uma fauna que inclui flamingos, camaleões (sim, camaleões), cavalos-marinhos e um número absurdo de espécies de aves migratórias.
Para um surfista habituado a empurrar a prancha contra a corrente, a Ria é uma revelação. As águas são planas, mornas, transparentes em alguns canais, com fundo de areia branca e ervas-marinhas. É o paraíso do stand-up paddle, do kayak e do remo. Em um kayak partindo de Faro em direcção às ilhas sem barco, atravessam-se canais onde se vê o fundo a três metros e onde, em manhãs de pouco vento, a sensação é de remar dentro de um aquário.
Se preferir a versão mais passiva do mesmo programa, o passeio de barco na Ria saindo de Faro faz o circuito clássico das ilhas, geralmente com paragem na Ilha Deserta ou na Culatra. Custa entre 30 e 45 euros por pessoa, consoante a duração e o operador. Vale por si, mas vale mais ainda se estiver a recuperar de uma sessão dura na costa oeste e quiser mar morno e parado.
Apenas ver: a arte underrated de não fazer nada
Há uma categoria de viajantes que vai ao mar não para o conquistar mas para o assistir. Sou um deles. E Faro tem alguns dos melhores miradouros de mar parado de Portugal, exactamente porque o mar aqui é parado.
Comece pelo passeio pelos tesouros escondidos do centro histórico, que termina, se for feito como deve ser, na muralha junto ao Arco da Vila com vista para a Doca. Daqui, ao fim da tarde, vê-se a Ria a ficar cor-de-rosa enquanto os barcos de pesca regressam. É um ritual que custa zero euros e que poucos turistas fazem porque preferem estar dentro de um restaurante a meio de uma sangria.
Outro miradouro discreto: o cais da Marina, ao fim do dia. As gaivotas, os pescadores reformados a fingir que pescam, o cheiro a maresia e gasóleo misturado com o cheiro do café da esplanada do lado. Sente-se com um galão e veja durante 40 minutos. Não saia do telemóvel. Não tire fotografias. Apenas veja. Funciona melhor com um pastel de nata da Pastelaria Cinderela, que tem das massas mais estaladiças da cidade e fica a poucos minutos a pé.
Para quem tiver carro e disposição, vale o Cabo de Santa Maria, na Ilha da Culatra. Não é fácil de lá chegar (barco até à ilha, depois caminhada), mas é o ponto mais a sul de Portugal continental, e dali vê-se o Atlântico a abrir-se sem nada pelo meio até Marrocos. É uma sensação curiosa, geográfica, quase metafísica, sem precisar de palavras como "alma".
Aprender a surfar: a questão da humildade
Conheço pessoas que aprenderam a surfar em duas semanas e nunca mais largaram. Conheço outras que andam há cinco anos a tentar e ainda fazem take-off de joelhos. A diferença não é talento, é humildade. Quem aprende em Faro tem uma vantagem injusta: as ondas são pequenas, perdoadoras, e o oceano não está a tentar matá-lo.
Algumas verdades práticas para quem está a começar:
- Vá em Maio, Junho ou Setembro. Julho e Agosto têm demasiada gente, demasiados turistas, demasiada confusão na água. Em Setembro a temperatura ainda é boa e o areal está vazio.
- Compre um fato 3/2mm se vier no Inverno. A água pode descer aos 14 graus em Janeiro. Não é tropical, apesar do que dizem.
- Use protector solar mineral, não químico. A Ria Formosa é uma reserva natural, e há micro-organismos que detestam químicos.
- Não aluge prancha sem aula na primeira vez. Parece óbvio. Não é. Vejo gente todos os verões a tentar e a falhar e a voltar para a praia mal-humorada.
Os preços de aulas em Faro variam, mas conte com 35 a 50 euros por aula individual de duas horas, ou pacotes de cinco aulas por 150 a 200 euros. Os melhores instrutores falam três línguas e têm paciência de santo. Procure os que perguntam pelo seu nível antes de tentar vender o pacote.
O ângulo que ninguém fala: pesca, mariscadores, e o mar como ofício
Esquece-se que o mar não é só lazer. Em Faro, e em particular nas ilhas-barreira, há comunidades inteiras que vivem dele há gerações. Os mariscadores da Culatra, com as suas botas de borracha e ancinhos, levantam-se às 4h da manhã para apanhar berbigão na maré baixa. Os pescadores da Fuzeta, ali à porta, ainda saem em barcos de seis metros para apanhar polvo em armadilhas tradicionais.
Ver isto, falar com estas pessoas (alguns falam inglês, outros não, todos respeitam quem mostra interesse genuíno), é uma camada do Algarve que a maioria dos turistas nunca toca. Para mais sobre este lado da cidade, o nosso guia da cultura local em Faro vai mais fundo nas tradições e vivências do Algarve autêntico, longe das esplanadas com menus em quatro línguas.
E se viajar com filhos e quiser uma alternativa de praia mais calma, com castelo medieval e ilha fluvial, recomendo combinar dois dias em Silves, com o nosso guia honesto para famílias. Para quem quiser mais surf e cidade vibrante depois de Faro, o guia de bairros de Lagos é o complemento natural deste artigo, porque é em Lagos que muitos surfistas fazem base.
Resumo prático, se chegou até aqui
- Surf em Faro: pequeno, perdoador, ideal para aprender. Praia de Faro é a base.
- Surf a sério: uma hora de carro a oeste. Amado, Arrifana, Sagres, Zavial.
- Stand-up paddle e kayak: a Ria Formosa é imbatível. Águas planas, fauna espantosa.
- Apenas ver: muralhas do centro histórico ao pôr-do-sol, cais da Marina ao fim do dia, Cabo de Santa Maria se tiver disposição.
- Quando ir: Maio, Junho ou Setembro. Evite a loucura de Agosto.
- Custo médio de aula: 35 a 50 euros. Confirme localmente.
O mar de Faro não é um mar de cartão postal. É um mar de trabalho, de laguna, de ilhas-barreira, de ondas pequenas e ocasionais. Mas é também, talvez por isso, um dos mares mais interessantes de Portugal. Aprende-se a olhar para ele de uma maneira diferente. E quem aprende a olhar, raramente quer voltar para os mares óbvios.