Faro de Bicicleta: Rotas para Todos os Níveis
Faro é uma das poucas cidades algarvias verdadeiramente planas, e isso muda tudo. Cinco rotas de bicicleta, do passeio de dez quilómetros pela Cidade Velha à travessia de sessenta até Tavira, com paragens estratégicas para galão e folhados.
Há uma coisa que ninguém te diz sobre Faro: a cidade é plana. Não plana como Lisboa finge ser plana na Baixa antes de te atirar pela Calçada do Combro acima. Plana a sério. Faro fica encostada à Ria Formosa, ao nível do mar, e a topografia é tão generosa que pedalar por aqui é menos um exercício e mais uma forma de andar mais devagar do que de carro e mais depressa do que a pé. É o ritmo certo para uma cidade que recusa ser apressada.
O problema é que quase ninguém pedala em Faro. Os turistas alugam scooters, os locais andam de carro, e as bicicletas que vês nas ruas pertencem normalmente a residentes estrangeiros que perceberam o óbvio antes dos outros. Pena. Porque entre a marina, a Ria, a Mata de Vale do Carro e os caminhos de terra que serpenteiam até Olhão, Faro tem provavelmente a melhor rede de rotas planas do Algarve. Aqui ficam as que vale a pena fazer, do nível "nunca mais andei de bicicleta desde os doze anos" ao "tenho lycra e não tenho medo de a usar".
Antes de pedalar: onde alugar e quanto custa
Em Faro encontras várias lojas de aluguer junto à zona da marina e da estação de comboios. Os preços rondam os 10 a 15 euros por dia para uma bicicleta urbana decente, e sobem para os 20 a 30 euros se quiseres uma e-bike, o que recomendo se planeias fazer mais de 20 km ou se levas crianças no banco de trás. Confirma localmente os horários, mas a maioria abre por volta das 9h e fecha ao final da tarde.
Um conselho prático: pede sempre que te emprestem um cadeado decente e leva uma garrafa de água cheia. Em Faro, as fontes públicas existem mas não são muitas, e no verão a desidratação chega antes da fome. Capacete não é obrigatório por lei para adultos em estradas urbanas, mas usa-o.
Nível 1: A volta da cidade (10 km, plano, sem stress)
Esta é a rota para quem não pedala há anos, para famílias com crianças pequenas, e para quem quer ver Faro como deve ser visto: por dentro da Cidade Velha, à beira da Ria, e com paragens estratégicas para café.
Começa na marina. Sai da estação de comboios, atravessa o Jardim Manuel Bivar, e entra pela Arco da Vila para dentro da Cidade Velha. Aqui a bicicleta é mais uma desculpa para te perderes nas ruelas calcetadas do que um meio de transporte: vais ter de ir devagar, às vezes a pé, porque as pedras da calçada são impiedosas com pneus finos. Não importa. Este é o coração antigo da cidade, e qualquer guia honesto te dirá que vale a pena explorá-lo sem pressa, idealmente seguindo o roteiro de tesouros escondidos da capital algarvia, dos pátios silenciosos às pequenas capelas que ninguém repara.
Sai pela Porta Nova, vira à esquerda e segue o paredão até à Doca de Recreio. Daqui em diante a estrada é asfalto liso, com vistas para a Ria. Se for sábado de manhã, há mercado no Largo Dr. Francisco Sá Carneiro, e vale o desvio só para ver as bancas de peixe.
Paragem obrigatória: a meio da volta, vira para o centro e procura a Pastelaria Gardy na Rua de Santo António. É das pastelarias mais antigas de Faro, com balcão de mármore e empregadas que te tratam por "querida" mesmo que seja a primeira vez que ali entras. Pede um galão e um folhado de salsicha. Vais reentrar no plano calórico de Portugal, mas é assim que se faz.
Nível 2: Faro a Olhão pela ecovia (24 km ida e volta, plano)
Esta é a rota que mais utilidade tem na vida real. Há uma ecovia, parcialmente sinalizada, que liga Faro a Olhão por dentro da paisagem de salinas e canais da Ria Formosa. Não é uma ciclovia perfeita, há trechos em que partilhas estrada com carros e outros em que pedalas em terra batida, mas é planíssima e a paisagem compensa todos os solavancos.
Sai de Faro pela zona do aeroporto, atravessa as salinas (vais ver flamingos se tiveres sorte e for entre outubro e março) e entra em Olhão pela parte velha. A meio do percurso, há miradouros improvisados sobre a Ria onde podes parar para fotografar barcos de pesca a entrar pelo canal.
Em Olhão, deixa a bicicleta amarrada perto do mercado municipal. Os dois pavilhões de mercado, um de peixe e outro de fruta e legumes, são os melhores do Algarve, e isto não é exagero local. Almoça no terraço do mercado, num dos restaurantes pequenos que servem grelhados feitos na hora. Volta a Faro pelo mesmo caminho, mas pelo final da tarde, com o sol a baixar sobre as salinas. Nessa altura, a luz fica cor de damasco e até quem não gosta de pedalar admite que vale a pena.
Nível 3: Faro a Estoi e Milreu (30 km ida e volta, ondulado)
Aqui já estamos em território de "sei o que estou a fazer". A subida de Faro a Estoi não é alpina, mas é constante, com cerca de 200 metros de desnível acumulado em 12 km. Para um ciclista habitual, é uma manhã agradável. Para um principiante, é onde a e-bike compensa o aluguer mais caro.
O destino vale o esforço. Estoi tem um palácio rosa restaurado, um jardim formal que parece ter saído de um quadro romântico, e a poucos minutos de bicicleta dali ficam as Ruínas Romanas de Milreu, com mosaicos que sobreviveram dois mil anos quase intactos. Confirme os horários localmente antes de ir, porque tanto o palácio como as ruínas têm dias de encerramento que mudam de época em época.
De volta a Faro, faz a paragem técnica na Pastelaria Centeio ou, se preferires algo mais discreto e antigo, na Pastelaria Cinderela. Em qualquer das duas, pede um D. Rodrigo se ainda restar algum, ou um morgado, e bebe água a sério antes de te lançares ao açúcar.
Nível 4: Praia de Faro pela ponte (16 km ida e volta, plano mas com vento)
A Praia de Faro fica na Ilha de Faro, ligada ao continente por uma ponte estreita. A rota é curta e plana, mas há um detalhe que ninguém menciona: o vento. Em dias de nortada, pedalar de regresso é um pequeno teste à paciência. Vai cedo ou ao final do dia, evita as horas centrais quando o tráfego para a praia é mais intenso.
A ponte é estreita e partilhada com carros, por isso desce e leva a bicicleta à mão se te sentires desconfortável. Do outro lado, a estrada da praia tem berma boa e leva-te até à ponta este da ilha, onde acaba o asfalto e começa a duna.
Se estás na ilha, considera deixar a bicicleta num parque e fazer um passeio de barco pela Ria Formosa a partir de Faro ao final da manhã. Combina perfeitamente com a manhã de bicicleta. Para quem prefere uma experiência mais ativa e silenciosa, há também a opção de explorar a Ria de kayak, fugindo aos barcos turísticos, que é provavelmente a melhor forma de ver os canais por dentro.
Nível 5: Faro a Tavira pela costa (60 km ida, plano)
Esta é a rota séria. Sessenta quilómetros de Faro a Tavira, passando por Olhão, Fuseta e Cabanas. É plano, é bonito, e é demasiado longo para fazer ida e volta no mesmo dia se não és ciclista regular. A solução prática: vai de bicicleta, volta de comboio. Os comboios regionais entre Tavira e Faro aceitam bicicletas em horário não pico, e o bilhete custa pouco mais de 3 euros. Confirme localmente o horário e a possibilidade de levar a bicicleta no dia em que fores.
Faz isto num dia de semana, fora da época alta. As estradas secundárias entre Olhão e Fuseta atravessam pomares de figueiras, alfarrobeiras e laranjais, e há trechos em que vais sozinho na estrada durante quilómetros. Em Tavira, almoça no Mercado da Ribeira (atualmente convertido em galeria comercial mas com restaurantes simpáticos no piso de cima) ou num dos restaurantes da praça da República. Apanha o comboio do final da tarde de regresso a Faro com as pernas a tremer e a sensação razoavelmente justificada de que fizeste algo de significativo nesse dia.
Quando ir e o que evitar
A melhor altura para pedalar em Faro é entre março e maio, e novamente entre outubro e novembro. As temperaturas rondam os 20 a 25 graus, há pouco vento, e as estradas estão tranquilas. Em julho e agosto, pedala antes das 10h ou depois das 18h, ou estarás a contribuir para as estatísticas de insolação algarvia.
Evita pedalar na N125 entre Faro e Olhão, mesmo que o GPS te tente convencer que é o caminho mais curto. É uma estrada rápida, com pouca berma e camionistas com pressa. Sempre que possível, fica nas estradas secundárias e nas ecovias, mesmo que demores mais 20 minutos. A diferença entre um dia bom e um dia mau de bicicleta no Algarve é precisamente esta escolha.
Para entender melhor o que estás a atravessar nestas pedaladas, vale a pena ler antes sobre as tradições e vivências do Algarve mais autêntico, especialmente se planeias parar em vilas pequenas. Saber distinguir um cataplana de uma cataplaninha turística é uma forma decente de respeito pelo lugar.
Levar crianças (e manter a sanidade mental)
Faro é uma das cidades algarvias mais amigas de famílias em bicicleta, precisamente pela topografia plana. Para crianças pequenas, fica-te pelo nível 1 e nível 2. Para crianças maiores, com bicicletas próprias, a rota até à Praia de Faro funciona bem se evitares as horas de mais tráfego.
Se vais alargar o roteiro para outras zonas do Algarve com miúdos, dá uma vista de olhos ao guia honesto para visitar Silves com crianças, que te poupa tempo e ilusões. E para uma visita complementar a outra cidade algarvia interessante de bicicleta, o guia de bairros de Lagos é um bom ponto de partida, embora Lagos seja consideravelmente mais ondulada que Faro.
O argumento final
Há cidades em Portugal onde pedalar é um ato de fé contra a topografia, contra o tráfego, contra a cultura local que insiste em tratar ciclistas como obstáculos móveis. Faro não é uma delas. Aqui, andar de bicicleta é simplesmente a forma mais lógica de te mover entre o centro histórico, a Ria, as praias e os pomares do interior. É barato, é silencioso, e dá-te uma intimidade com o Algarve que nenhum carro alugado consegue oferecer. Aluga uma bicicleta um dia. No final da tarde vais perceber que perdeste tempo precioso a fazer outras coisas.