São Pedro em Sabrosa: Sardinha, Vinho e Fogueiras no Douro
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São Pedro em Sabrosa: Sardinha, Vinho e Fogueiras no Douro

· · Sabrosa

A 29 de Junho, enquanto o resto do país recupera do São João, Sabrosa acende fogueiras de cepa de vinha, grelha sardinhas sobre as brasas e canta desgarradas até de manhã. Um guia sem rodeios para a melhor festa popular do Douro Profundo.

Há uma teoria que defendo com a teimosia de quem já passou demasiados 28 de Junho em Sabrosa: o Santo António é para os lisboetas, o São João é para o Porto, e o São Pedro, esse, ficou para nós, os do interior, os da serra, os que sabem que o melhor santo popular é aquele que ninguém capitalizou em postais turísticos. Enquanto meio país recupera da ressaca sanjoanina e a Avenida dos Aliados está a ser limpa das últimas alfaces de plástico, em Sabrosa, no concelho que viu nascer Fernão de Magalhães, começam a montar-se as mesas compridas, a fazer-se as marinadas de sardinha, e a empilhar-se a lenha para a fogueira de 29 de Junho.

Esta é a noite que importa aqui em cima. E se vai descer ao Douro Profundo nesta altura do ano, faça-o com fome e com a disposição certa: o São Pedro de Sabrosa não tem palco montado nem patrocinador a vender cerveja em copos de plástico personalizado. Tem famílias que cozinham para vinte pessoas no quintal, tem bombeiros voluntários que organizam o arraial, tem aquele momento em que alguém puxa de um cavaquinho e, de repente, há quarenta pessoas a cantar uma desgarrada que ninguém sabe ao certo onde começou.

Porque é que o São Pedro ainda interessa

O São Pedro é o padroeiro dos pescadores, o que faz com que celebrá-lo a 80 quilómetros do mar, na curva do rio entre Pinhão e o Tua, seja uma das maiores excentricidades do calendário religioso português. Mas faz todo o sentido se pensarmos que o Douro é, no fundo, um mar interior: barcos rabelos, foram eles que durante séculos transportaram as pipas de vinho do Porto até Gaia, e o ofício de homem do rio era tão duro como o de homem do mar.

Há uma boa explicação sobre o calendário completo das festas de Junho no nosso guia sobre os Santos Populares em Sabrosa, que cobre as três datas: Santo António a 13, São João a 24, e São Pedro a 29. Mas se só consegue vir uma vez, venha para o São Pedro. É a última festa antes da paragem do Verão, é quando os emigrantes do Luxemburgo e da Suíça já chegaram para passar as férias na aldeia, e é quando o vinho do ano anterior está finalmente pronto para se beber com alguma honra.

O dia 28 à noite: a verdadeira festa

Aqui está uma coisa que ninguém lhe vai dizer nos folhetos da câmara: a noite que interessa não é a do dia 29, é a véspera. A 28 de Junho, ao cair da tarde, as freguesias do concelho (Provesende, Celeirós, Gouvães do Douro, São Martinho de Antas) começam a montar as suas próprias festas. Não há um centro nevrálgico. Há núcleos, cada um com a sua banda, a sua fogueira, e o seu manjerico.

A minha sugestão é simples: comece em Sabrosa-vila, beba uma imperial no Lagoa Bar por volta das sete da tarde, e veja o movimento começar. Este é o sítio onde os homens do concelho param antes de qualquer evento sério: um copo, um cigarro, uma discussão sobre futebol que não interessa a ninguém de fora, e depois embora. É também o sítio certo para ouvir, sem perguntar, onde é que esta noite vai estar o melhor arraial. Há sempre alguém a dizer "este ano é em Celeirós que está bom" ou "o de Provesende tem o melhor grupo". Fie-se nessa informação. Vale mais do que qualquer agenda municipal.

Mais tarde, por volta das dez ou onze da noite, vá para o Café Snack Bar Fonte Luminosa. É ali que se concentra a malta nova, é dali que partem para os arraiais nas freguesias, e é também onde as pessoas voltam de madrugada para uma bifana, um café e uma água com gás antes de finalmente irem dormir. Não tente pedir um cocktail. Peça uma cerveja ou um vinho da casa, que costuma ser de algum produtor pequeno do concelho, e que custa menos do que aquilo que pagaria por uma água em Lisboa.

O que se come (e como)

Sardinha. A resposta é sempre sardinha. Mas há nuances, e é aqui que muito turista se atrapalha. A sardinha do São Pedro em Sabrosa não é a mesma sardinha do São João do Porto. Aqui é maior, mais gorda, e é grelhada quase sempre sobre brasa de cepa de vinha, não sobre carvão vulgar. Isso muda tudo. O cheiro da cepa, que arde lentamente e liberta um aroma quase doce, impregna a sardinha de uma camada de fumo que não se consegue replicar em mais lado nenhum.

Acompanhamento padrão: pão centeio cortado em fatias grossas (o pão deve ficar debaixo da sardinha, a apanhar a gordura, e depois come-se assim, ensopado), pimentos assados, batata cozida com pele, e uma cebola roxa cortada fina com vinagre. Não há salada. Não há molho à parte. Não há limão (heresia, em alguns sítios). Há sal, há a gordura da própria sardinha, e há o vinho.

O vinho. Esse merece um parágrafo só dele. Esqueça o Porto. O Porto bebe-se no fim, com queijo da Serra, se chegar a esse ponto. Para acompanhar a sardinha, peça tinto da região, novo, fresco (sim, tinto fresco, servido a 14 ou 15 graus), de algum produtor pequeno. Se quiser perceber o que é que se está a passar nos vinhos do Douro fora dos grandes nomes, marque uma prova de vinhos na Wine & Soul em Sabrosa para o dia 28 de manhã, antes da loucura começar. Vai sair de lá com uma compreensão completamente diferente do que vai beber à noite.

A fogueira e o salto

À meia-noite, ou perto disso, acende-se a fogueira. Nas freguesias, as fogueiras são grandes, feitas com videiras velhas e ramos secos do podão de Março. A tradição manda saltar a fogueira três vezes para dar sorte no ano que vem. É uma coisa séria. Há quem queime as solas dos ténis (recomendação prática: não venha de ténis brancos novos, não venha de chinelos, e não venha de saias compridas).

O salto é simbólico, mas também é mais antigo do que o cristianismo. As fogueiras de São Pedro são, no fundo, herdeiras directas das fogueiras pagãs do solstício de Verão, que se acendiam aqui muito antes de existir qualquer santo no calendário. Os romanos celebravam o solstício, os celtas também, e quando o cristianismo chegou ao Douro, em vez de proibir a festa, fez o que sempre fez: pôs-lhe um santo em cima. São Pedro herdou a fogueira, a sardinha e o vinho. Não se podia ter saído melhor.

O dia 29: a ressaca activa

Quem aguentar até ao dia 29 com cabeça para coisas terá uma das melhores recompensas do calendário portuense: o Douro de manhã cedo, depois de uma noite quente e com fumo. A luz é diferente, as encostas estão verdes do final da Primavera, e o rio está liso como espelho.

A minha recomendação é simples: durma até às onze da manhã, tome um pequeno-almoço pesado (sopa, se conseguir encontrar; em Sabrosa há sítios que servem caldo verde ao pequeno-almoço a quem aparenta precisar), e depois desça ao Pinhão. Apanhe ali, na marina, um passeio de barco do Pinhão ao Cais do Ferrão. Duas horas, mais ou menos, num barco que sobe e desce um troço do rio que continua a ser dos mais espectaculares do mundo. Leve protector solar (estamos no fim de Junho, no Douro, sem sombra), leve água, e se possível leve um chapéu.

É o antídoto perfeito para a noite anterior. Vento na cara, sol nos braços, e a sensação de que o rio está a fazer por si o trabalho de digestão. Quando voltar a terra, a cabeça já está pronta para mais uma noite (porque sim, geralmente há mais qualquer coisa a acontecer na noite de 29, principalmente nos restaurantes que organizam segundas voltas de sardinhada).

Onde dormir (e onde não dormir)

Sabrosa não tem hotéis grandes, e isso é parte do encanto. Tem casas de turismo rural espalhadas pelo concelho, tem algumas quintas com alojamento, e tem a opção de dormir em Pinhão (no concelho vizinho de Alijó, do outro lado do rio) e subir a Sabrosa para as festas.

Se quiser perceber melhor a paisagem das quintas onde possivelmente vai ficar, leia o nosso guia sobre as quintas do Douro em Sabrosa antes de reservar. Há diferenças enormes entre o que se chama "alojamento em quinta" no marketing turístico, e o que isso significa na prática. Algumas têm dez quartos e piscina; outras são casas de família com três quartos onde o anfitrião sai com o tractor às seis da manhã.

Conselho prático: reserve com pelo menos três meses de antecedência se quiser apanhar a noite de 28 para 29. As últimas semanas de Junho e as duas primeiras de Julho são a época em que os emigrantes voltam, em que os turistas de cruzeiro fluvial enchem os hotéis do Pinhão, e em que os locais recebem família vinda de fora. Não há vagas de última hora.

O contexto: porque vir agora e não em Setembro

Há uma narrativa instalada de que o Douro só se vê bem em Setembro, na vindima. É uma meia verdade. A vindima é espectacular, mas é também o momento em que o Douro está mais cheio, mais caro, e mais ocupado com o seu próprio trabalho (as quintas estão a vindimar, não a receber visitas).

Fim de Junho é o oposto. As vinhas estão verdes, as encostas têm flores silvestres, os rios estão cheios da Primavera tardia, e os turistas em massa ainda não chegaram. É o momento perfeito para vir ao Douro sem se sentir num parque temático. E o São Pedro é uma desculpa tão boa como qualquer outra, com o bónus de ser uma festa que não foi ainda capturada pelos circuitos turísticos.

Se está a planear uma viagem mais longa pelo Norte profundo, e quer combinar Sabrosa com outras zonas menos óbvias, vale a pena olhar para Trás-os-Montes propriamente dito. O nosso guia de Torre de Moncorvo na Primavera dá boas ideias para esticar a viagem mais para leste, para o lado das amendoeiras e dos olivais, que em fim de Junho ainda guardam alguma da luz suave da Primavera tardia.

O que levar (e o que esquecer)

  • Roupa: confortável, lavável, de cores escuras (a sardinha mancha, o fumo agarra-se, e há sempre alguém que entorna vinho)
  • Calçado: ténis fechados ou botas baixas, não chinelos, não saltos
  • Manjerico: pode comprar um na noite, oferecem-se a quem se quer bem (e o quadrinho com o poema que vem espetado é para ler em voz alta, mesmo que ache ridículo)
  • Dinheiro: leve trocos. Muitos arraiais e barracas das freguesias não aceitam MB Way nem cartão
  • Paciência: as coisas começam tarde, acabam mais tarde ainda, e os horários são indicativos

Esqueça o telemóvel a tirar fotografias durante a fogueira. Esqueça as expectativas de festa organizada à minuto. Esqueça a ideia de que vai dormir cedo.

Venha. Coma sardinha até não conseguir mais. Beba vinho até começar a achar graça a tudo. Salte a fogueira três vezes. E quando, às quatro da manhã, alguém puxar de uma concertina e começar a tocar uma mazurca que ninguém pediu, fique. Esse momento, esse momento exacto, é o São Pedro em Sabrosa. Não há outra forma de o explicar.

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