Sabrosa: A Base Perfeita para Explorar o Douro
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Sabrosa: A Base Perfeita para Explorar o Douro

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Sabrosa não tem estação de comboio nem monumentos de cartão postal, mas está a meia hora de tudo o que faz o Douro valer a viagem. Do Pinhão à Torre de Moncorvo, eis como organizar os dias, e as noites, a partir daqui.

Ninguém vem a Sabrosa por acaso. Não fica no caminho para nada, não tem estação de comboio, e a maioria dos turistas que passam pelo Douro nem sabe pronunciar o nome. Mas é exactamente essa posição, encostada às vinhas e a meia hora de tudo o que interessa, que faz de Sabrosa a base certa para quem quer ver o Douro a sério e não apenas o postal do Pinhão. Comece pelo princípio, literalmente: Sabrosa é a terra onde nasceu Fernão de Magalhães, o homem que primeiro deu a volta ao mundo por mar, e a Casa Solar de Fernão de Magalhães ainda está de pé para provar isso. Não é um museu grandioso, é uma casa senhorial de granito que qualquer visitante consegue ver em vinte minutos antes de seguir viagem. Serve de bom aquecimento: se este homem partiu daqui para circum-navegar o planeta, o mínimo que se pode fazer é sair de Sabrosa para ver o que há à volta.

Pinhão: descer o rio como antigamente se fazia

A viagem mais óbvia, e a mais certa, é até ao Pinhão. São cerca de quinze quilómetros por estrada de curvas fechadas entre socalcos, uns vinte minutos de carro se não parar a tirar fotografias, o que é impossível de cumprir. A estação de comboios do Pinhão, com os seus painéis de azulejos a contar cenas de vindima, já vale a paragem só para ver como a Companhia dos Vinhos do Alto Douro decidiu, há mais de um século, que até um apeadeiro de província merecia arte. Mas o Pinhão não é para ver de fora, é para ver do rio. A Passeio de Barco em Sabrosa: Do Pinhão ao Cais do Ferrão faz exactamente isso, embarca no cais do Pinhão e desce o Douro até ao Cais do Ferrão, com as quintas a desfilar dos dois lados como se o barco estivesse parado e fossem as encostas que se movessem. Os barcos rabelos, os mesmos que outrora transportavam pipas de vinho do Alto Douro até Vila Nova de Gaia, hoje fazem este percurso turístico, e é justo: pelo menos assim continuam a navegar em vez de apodrecerem num cais qualquer. Vá de manhã, antes das excursões grandes chegarem, ou ao fim da tarde, quando a luz baixa e dourada acerta em cheio nos socalcos. Ao almoço, o Pinhão enche-se de esplanadas viradas ao rio: escolha uma com sombra, peça posta à mirandesa ou um prato de bacalhau, e não tenha pressa, porque a pressa é para quem vive em Lisboa.

Vinho a sério: das vinhas directamente para o copo

Sabrosa está no coração da sub-região do Cima Corgo, a mais antiga zona demarcada de vinho do mundo, e isso não é conversa de folheto, é facto de 1756. O que isto significa na prática é que não precisa de sair da área do concelho para provar vinho a sério, feito por gente que vive das vinhas e não de autocarros de turistas. A Prova de Vinhos na Wine & Soul em Sabrosa é o exemplo certo: um projecto pequeno, de vinhos concentrados e honestos, longe da escala industrial de algumas quintas maiores que se tornaram parques temáticos com loja de recordações. Aqui prova-se tinto do Douro a sério, sem cerimónia excessiva, e sai-se a perceber porque é que este vale foi o primeiro do mundo a merecer uma linha no mapa só por causa do vinho. Reserve com antecedência, é pequeno e não há lugar para grupos de vinte pessoas a tirar selfies entre as pipas. Se quiser esticar o dia, combine a prova com uma visita a outras quintas da zona que abrem para provas e almoços, mas garanta sempre que alguém do grupo não bebe, porque as estradas entre vinhas são estreitas e sem guarda-corpos.

Peso da Régua e Vila Real: duas cidades, dois ritmos

Peso da Régua fica a uns vinte e cinco quilómetros de Sabrosa, uns trinta e cinco minutos de estrada, e é a cidade que estruturou historicamente todo o comércio do vinho do Porto. O Museu do Douro ocupa um antigo armazém à beira-rio e conta essa história sem grande pieguice, com fotografias e documentos que mostram como este vale passou de zona rural isolada a património da UNESCO. O cais da Régua ainda recebe os barcos de cruzeiro que sobem e descem o rio entre Porto e Barca d'Alva, e ver essas embarcações grandes a manobrarem num rio estreito é um espectáculo por si só. Vila Real fica a uma distância parecida, cerca de vinte e cinco quilómetros por estrada diferente, e tem um ritmo completamente distinto: é cidade universitária, com vida de café e um trânsito que lembra que afinal existe civilização moderna a menos de meia hora de Sabrosa. Vale a pena o desvio até ao Palácio de Mateus, a poucos minutos do centro, aquele edifício barroco que qualquer pessoa já viu sem saber onde ficava, porque a sua fachada decora o rótulo do vinho rosé Mateus desde os anos quarenta. Os jardins geométricos, com os seus buxos aparados e o espelho de água em frente à casa, merecem uma hora calma, sem pressa de tirar a foto perfeita.

Torre de Moncorvo, se calhar bem a estação

Mais longe, para quem tem o dia inteiro e gosto por estrada, fica Torre de Moncorvo, a uma hora e tal de Sabrosa rumo a nascente. Não é destino para qualquer altura do ano: o interesse maior está na primavera, quando os jardins e parques da vila ganham cor a sério, como descrito em Torre de Moncorvo em Flor: Jardins e Parques na Primavera. Se planeia a viagem entre Março e Maio, vale a pena estender o dia até lá; fora dessa janela, o esforço da estrada não compensa tanto e talvez seja preferível ficar por perto de Sabrosa e explorar com mais calma as aldeias vizinhas. É este tipo de decisão, saber quando vale a pena ir mais longe e quando vale mais ficar perto, que separa quem organiza bem uma viagem de quem só soma quilómetros ao GPS.

Quando a data manda: Santos Populares em Junho

Se a visita calhar em Junho, esqueça os planos de dia inteiro fora e fique por Sabrosa nessa noite. As festas populares do Douro Profundo, com fogueiras, sardinha assada e romarias que duram até tarde, transformam a rotina tranquila da vila durante uns dias, como fica bem explicado em Santos Populares em Sabrosa: Junho no Douro Profundo. É a excepção à regra dos passeios de um dia: nessa altura, o melhor programa é não sair de casa.

Como organizar os dias, e as noites

Carro é obrigatório. Não há rede de comboios que sirva estes trajectos com decência, e os autocarros regionais existem mas não foram desenhados para turistas com horários apertados. As estradas são estreitas, com curvas constantes entre socalcos, por isso conte sempre mais tempo do que o GPS promete, sobretudo em Agosto quando as vinhas enchem de trabalhadores da vindima e tractores lentos. Um dia típico funciona assim:

  • Manhã: Casa Solar de Fernão de Magalhães em Sabrosa, depois vinte minutos até ao Pinhão
  • Meio-dia: passeio de barco do Pinhão ao Cais do Ferrão, seguido de almoço numa esplanada à beira-rio
  • Tarde: prova de vinhos, na Wine & Soul ou noutra quinta da zona
  • Fim de tarde: regresso a Sabrosa antes de escurecer, porque conduzir estas estradas de noite não é para todos

Ao voltar, Sabrosa recompensa com noites simples e sem pressa. O Lagoa Bar é o sítio certo para uma cerveja depois de um dia de sol e vinho, ambiente descontraído, sem grande decoração, o tipo de bar onde os locais ainda bebem ao balcão. Se preferir algo mais tranquilo, o Café Snack Bar Fonte Luminosa serve bem para um café tardio ou uma refeição ligeira antes de dormir. Para quem procura onde ficar durante estes dias, o guia Sabrosa: Vila, Quinta ou Rio, Onde Ficar Muda Tudo explica bem as diferenças entre dormir no centro da vila, numa quinta isolada entre vinhas, ou perto do rio, e como essa escolha muda completamente o tipo de dias que se consegue planear a partir daqui. Contas feitas, um dia inteiro de passeio de barco mais prova de vinhos ronda os setenta a cem euros por pessoa, sem contar refeições, o que para um dia que inclui rio, vinho e paisagem, não é caro. Sabrosa não tem grandes monumentos para exibir num cartão postal, mas tem a vantagem rara de estar a meia hora de quase tudo o que faz o Douro valer a viagem. Use isso.

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