Sabrosa: Posta, Cabrito e Moscatel na Mesa Transmontana
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Sabrosa: Posta, Cabrito e Moscatel na Mesa Transmontana

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Em Sabrosa ninguém fala de comida, só de vinho, e é aí que está o erro. Entre uma posta à transmontana num bar sem pretensões e um copo de moscatel gelado em Favaios, esta é a Sabrosa que se come, não só a que se fotografa.

Toda a gente que vem a Sabrosa vem pelo vinho. Ficam pelas quintas, tiram fotos aos socalcos, e vão-se embora a falar do Douro como se fosse só isso: vinha até onde a vista alcança. O erro é não parar para comer. Sabrosa é terra de gado bravo criado em pastos de altitude, de pão cozido em forno a lenha, de um vinho doce que quase ninguém fora de Trás-os-Montes conhece pelo nome certo. A comida aqui não é decoração para o enoturismo. É o motivo pelo qual se volta.

A Posta que Manda na Mesa

Se só houver tempo para uma refeição em Sabrosa, que seja uma posta à transmontana. É uma peça de vitela, geralmente de raça Barrosã ou Maronesa, cortada grossa, grelhada em brasa com sal grosso, alho e louro, e servida com batata frita ou cozida. Nada de molhos, nada de acompanhamentos complicados. A carne fala sozinha, e fala alto: vem de animais criados em pasto, nas serras à volta, não em qualquer aviário industrial.

O sítio certo para a comer não é uma sala com toalhas engomadas. É uma tasca de bairro, com o jogo do Benfica na televisão e o dono a perguntar como quer o ponto da carne. O Lagoa Bar serve exactamente esse tipo de refeição sem cerimónias, e a conta de uma posta com bebida ronda os 12 a 15 euros, o que em muitas quintas turísticas paga menos de metade de um prato. Peça a carne no ponto médio, nunca bem passada: se vier seca, está mal feita, não importa quão bonito seja o restaurante.

Durante o dia, o Café Snack Bar Fonte Luminosa é onde se pára para um café e uma sandes de fumeiro antes de seguir viagem. Não é onde se janta uma posta em condição, mas é onde os próprios sabrosenses param entre tarefas, e isso diz mais sobre a autenticidade do sítio do que qualquer estrela ou selo.

Cabrito Assado, o Almoço de Domingo

Se a posta é o prato do dia-a-dia, o cabrito assado é o prato de família. Em Trás-os-Montes, o cabrito vai ao forno com vinho branco, alho, colorau e louro, e cozinha lentamente até a pele ficar estaladiça e a carne se soltar do osso. Serve-se com batata a murro e, muitas vezes, com arroz de forno feito com o próprio caldo da assadura, o que é, na minha opinião, a melhor parte do prato e a que mais gente ignora.

Este não é um prato de menu fixo. Nas tascas pequenas da região, encomenda-se com antecedência, sobretudo ao fim de semana, quando as famílias reservam mesas para almoços que duram a tarde toda. Se planeia estar em Sabrosa num sábado ou domingo, vale a pena telefonar com um dia de antecedência e perguntar se há cabrito. A resposta pode ser não. E está tudo bem: significa que o forno não estava a ser usado só para turistas.

Favaios: Onde o Pão e o Vinho se Encontram

A cerca de dez minutos de carro do centro de Sabrosa fica Favaios, uma freguesia que qualquer guia sério de Trás-os-Montes devia destacar por si só. É aqui que se produz o Moscatel de Favaios, um vinho doce e aromático feito a partir da casta Moscatel Galego, fortificado e envelhecido, muito diferente do Moscatel de Setúbal, mais conhecido mas menos intenso. Bebe-se frio, no fim da refeição, ou simplesmente à conversa, numa tarde de Verão em que ninguém tem pressa nenhuma.

Favaios é também terra de pão, cozido tradicionalmente em fornos comunitários a lenha, com uma côdea grossa e um miolo denso que aguenta bem um queijo de ovelha curado ou uma fatia de presunto fumado. Combinar as duas coisas, moscatel e pão, é a razão por que vale a pena desviar-se do itinerário principal do vinho tinto do Douro.

Para quem quiser perceber esta relação entre vinho e território de forma mais séria, a Prova de Vinhos na Wine & Soul em Sabrosa é o sítio certo. Não é uma prova genérica de balcão: fala-se de solo xistoso, de altitude, do porquê de o vinho daqui ter uma acidez que o distingue de outras zonas do Douro. E se o dia sobrar, o Passeio de Barco em Sabrosa: Do Pinhão ao Cais do Ferrão é a forma mais preguiçosa e mais correcta de ver os socalcos que produzem tudo isto, de barco, com uma garrafa de branco fresco e queijo local a bordo. Ninguém volta deste passeio a falar mal do Douro.

Onde Comer em Sabrosa, na Prática

Para resumir sem complicar: o Lagoa Bar é para o jantar, a posta e uma cerveja depois de um dia de calor. O Café Snack Bar Fonte Luminosa é para o café da manhã ou uma paragem rápida antes de seguir para as quintas. Nenhum dos dois tem menu em três línguas ou fotos plastificadas na porta, o que, sinceramente, é um bom sinal.

Depois de comer, vale a pena andar até à Casa Solar de Fernão de Magalhães. Sabrosa é a terra natal do navegador, e a casa solarenga que hoje funciona como pequeno núcleo museológico é um lembrete de que esta vila, apesar do tamanho, tem uma história que ultrapassa em muito os limites do concelho. Não é um museu grande nem pretensioso. É exactamente do tamanho certo para uma visita depois do almoço, antes de voltar para o carro.

Antes de Partir

Sabrosa fica a cerca de 25 minutos de carro de Peso da Régua e a menos de uma hora de Vila Real, o que a torna uma base descansada para quem quer fugir à azáfama mais turística do Pinhão sem se afastar do rio. Para decidir onde ficar, dependendo se o plano é vila, quinta ou margem do rio, o guia Sabrosa: Vila, Quinta ou Rio, Onde Ficar Muda Tudo poupa horas de pesquisa. E se a ideia é usar Sabrosa como ponto de partida para explorar mais do Douro em dias diferentes, o guia Sabrosa: A Base Perfeita para Explorar o Douro junta os itinerários que fazem sentido a partir daqui.

Quem visitar na Primavera e quiser prolongar a viagem para norte, em direcção a Trás-os-Montes mais profundo, encontra em Torre de Moncorvo em Flor: Jardins e Parques na Primavera uma boa desculpa para continuar a estrada depois de Sabrosa, com o estômago cheio e uma garrafa de moscatel no porta-bagagens.

No fim, o que fica de Sabrosa não é a vinha, embora seja bonita. É uma posta bem passada num bar sem pretensões, um copo de moscatel gelado depois do jantar, e a sensação de ter comido exactamente o que os sabrosenses comem, sem tradução para turista nenhum.

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