Torre de Moncorvo em Flor: Jardins e Parques na Primavera
Quando os autocarros das amendoeiras vão embora, em abril e maio, Moncorvo fica verde, perfumado e quase secreto. Um roteiro para quem chega tarde à festa: do Sabor ao Reboredo, passando pelo Campo da Feira e por um galão que custa menos de dois euros.
Há uma certa fraude semântica em chamar 'jardins' aos espaços verdes de Torre de Moncorvo. Aqui, em pleno planalto transmontano onde o Douro faz a curva e o Sabor desagua, a primavera não acontece em canteiros geométricos com placas de identificação botânica. Acontece em encostas inteiras: 800 mil amendoeiras a abrirem-se em branco e rosa entre meados de fevereiro e meados de março, e depois, quando o espetáculo principal termina e os autocarros de turistas regressam ao Porto, é que a coisa fica realmente interessante.
Porque é em abril e maio, quando ninguém olha, que Moncorvo se torna um dos sítios mais verdes e perfumados de Portugal. As cerejeiras vêm a seguir às amendoeiras. Depois as oliveiras em flor, com aquele cheiro adocicado que se cola à roupa. As giestas amarelas tomam conta dos taludes da estrada para Felgar. E nos jardins urbanos, sim, esses existem, planta-se rosa, alfazema, lavanda, e o calor seco do interior faz o resto.
Este é um roteiro para quem chega tarde à festa, ou seja, depois das amendoeiras. Mas também serve para quem quer escapar à multidão e perceber que a primavera aqui dura quase quatro meses, não três fins de semana de fotografias.
Onde começar: o Largo do Castelo e o miradouro que ninguém visita
Antes de seguir para os parques propriamente ditos, é preciso entender a vila. Estacione na zona alta, junto à Câmara, e siga a pé. Moncorvo é caminhável em quarenta e cinco minutos, e qualquer outra coisa é desperdício. Suba até à Basílica Menor de Nossa Senhora da Assunção, a maior igreja do nordeste transmontano, com aquela fachada granítica desproporcional para a vila que a rodeia. O interior, tardo-gótico, surpreende. O que mais surpreende, porém, é o pequeno jardim adjacente, com um par de bancos de pedra à sombra de plátanos centenários, onde os locais vão ler o jornal a meio da manhã. É aqui que se começa.
A duzentos metros, vale a pena entrar na Igreja da Misericórdia de Moncorvo, com talha dourada em estado de conservação que envergonha igrejas mais famosas. Não é um jardim, evidentemente, mas pertence ao itinerário, porque a praça que a antecede tem laranjeiras que florescem em abril. O cheiro chega antes da imagem.
Parque do Sabor: o segredo aberto
Como chegar e o que esperar
O Parque Natural Regional do Vale do Tua começa tecnicamente a uns trinta quilómetros, mas a faixa fluvial do Sabor, que atravessa o concelho, é o que se procura quando se diz 'parque' em Moncorvo. Para o visitante de fim de semana, a maneira mais simples de aceder é seguir pela N220 em direção a Carviçais e depois descer pelas estradas municipais sinalizadas para a barragem do Baixo Sabor.
De carro são vinte e cinco minutos desde a vila. De bicicleta, sendo descida, são quarenta minutos animados. A subida de regresso é outra história, mas em maio, com vinte e dois graus e o ar a cheirar a esteva e rosmaninho, vale qualquer esforço.
Aqui não há canteiros. Há margens íngremes, água verde-escuro, carvalhos negrais, lódãos, freixos, e uma quantidade indecente de orquídeas selvagens em abril. Leve calçado de caminhada, água, e a paciência de quem percebe que isto não é o Jardim da Estrela.
O que levar para um piquenique decente
Antes de sair da vila, faça um desvio pela mercearia da Rua Visconde de Vila Maior, sem nome óbvio na fachada, mas qualquer local lhe diz onde é. Compre azeitonas britadas, queijo de cabra de Mirandela, presunto fatiado na hora, pão de Carviçais, e uma garrafa de vinho do produtor local. Uma alternativa decente é descer ao supermercado junto à rotunda da entrada da vila, mas perde-se o ritual.
O Jardim do Campo da Feira: onde a vila respira
De volta ao centro, o Campo da Feira é o jardim formal de Moncorvo. Tem palmeiras, sim, e uns canteiros de rosas que florescem espetacularmente em maio. Tem também um quiosque que serve um galão por menos de dois euros e umas delícias com creme de amêndoa, óbvias dada a região, que fazem da pausa um pequeno acontecimento.
Sente-se. Não consulte o telemóvel. Observe. Os reformados jogam dominó num canto, as crianças saem da escola por volta das três e meia e invadem o relvado, e às cinco horas, regularmente, passa um senhor com um podengo cinzento que cumprimenta toda a gente pelo nome. Esta é a verdadeira primavera de Moncorvo: lenta, conhecida, com banco reservado.
Uma paragem no Museu
A escassos metros, o Museu do Ferro e da Região de Moncorvo merece uma hora. Sim, parece deslocado num roteiro de jardins, mas a história das minas de ferro do Reboredo explica por que motivo as encostas em redor têm aquela cor avermelhada quando o sol se põe. A geologia é botânica também: o solo ferruginoso favorece o amendoal e a oliveira, e isso explica por que motivo a primavera aqui cheira a algo diferente do Minho.
O Reboredo e a Estrada das Amendoeiras (depois da floração)
Toda a gente conhece a Serra do Reboredo durante a floração das amendoeiras. Pouca gente lá vai depois. Erro. Em abril e maio, com as amendoeiras já com folha verde tenra, as giestas amarelas tomam conta da paisagem. A estrada que sai de Moncorvo em direção a Cardanha, sobe até cota oitocentos, e oferece vistas que rivalizam com qualquer miradouro turístico do Douro vinhateiro, e tem dez por cento dos visitantes.
Pare no Santuário de Nossa Senhora da Teixeira, no topo. Há uma área de merendas com mesas de pedra, eucaliptos altos que dão sombra mesmo ao meio-dia, e um silêncio que se ouve. De vez em quando passa um trator. Pouco mais.
Para quem quiser fazer o roteiro completo, o nosso guia Torre de Moncorvo: Amendoeiras em Flor e Roteiro de Primavera tem o detalhe que aqui não cabe: as estradas exatas, os miradouros menos óbvios, e onde almoçar a meio do percurso.
Onde comer entre flores
Restaurante O Lagar, na vila, faz a posta à transmontana sem teatralidade nenhuma e por valores razoáveis para almoço, sopa, prato e bebida incluídos. Peça também a alheira de caça, se houver no dia, e o arroz doce com canela em estrelas no topo. Reserve, principalmente em fins de semana, porque a sala é pequena e os locais já a frequentavam antes de o turismo descobrir a vila.
Para um almoço com vista, suba até Adeganha. A taberna da terra serve cabrito assado em forno de lenha aos domingos, e tem três mesas em esplanada com vista para a serra. Reserve com antecedência, ou desista.
Não procure restaurantes vegetarianos. Não os há, e fingir que sim seria desonesto. O que há são saladas decentes, queijos locais magníficos, fruta da época, e a possibilidade de fazer uma refeição sem carne em qualquer lado, desde que se peça com clareza.
Quando ir, exatamente
- Meados de fevereiro a meados de março: amendoeiras em flor. É o pico turístico. Trânsito nos miradouros, autocarros, fotografias. Bonito, mas caótico.
- Final de março a meados de abril: cerejeiras, primeiras orquídeas selvagens no Sabor, laranjeiras na vila. Dez por cento dos visitantes.
- Maio: oliveiras em flor, giestas, rosas no Campo da Feira, temperaturas perfeitas. A melhor altura, na nossa opinião.
- Início de junho: primeiros calores, mas ainda toleráveis. Evite julho e agosto, ou prepare-se para quarenta graus.
Onde dormir
Há solares e casas de turismo rural em Cardanha e Felgar, e umas pensões honestas na vila. Para quem quer mistura entre conforto e autenticidade, recomenda-se procurar alojamento em quintas, e o nosso guia sobre as quintas do Douro que ninguém conta serve de inspiração, embora geograficamente fique uma hora a oeste. Se preferir descer ao rio principal e tratar-se um pouco melhor, a leitura sobre escapadinhas fluviais e o luxo da estase em Lamego é o caminho.
Se ficar até ao fim de semana certo
Em determinados anos, normalmente em maio ou junho, a vila acolhe a Feira Medieval de Torre de Moncorvo, três dias em que o centro histórico se transforma. Confirme as datas localmente, porque variam, mas se calhar com a sua viagem, prolongue-a. Cheiros de fogueiras, mercadores, espetáculos de cetraria, e uma versão do passado mais cuidada e menos kitsch do que muitas outras feiras do género.
Conselhos finais para uma primavera bem aproveitada
- Leve roupa em camadas. Em abril e maio, sai-se de casa a doze graus e ao meio-dia estão vinte e cinco.
- Encha o depósito antes de subir à serra. As bombas em Moncorvo fecham cedo aos domingos.
- Compre fruta nas tendas de estrada. Os primeiros morangos chegam em abril, e em maio aparecem cerejas precoces vindas das encostas mais soalheiras.
- Se for fotógrafo, a luz da última hora antes do pôr do sol no Reboredo, sobre as encostas viradas a oeste, é o que faz qualquer câmara parecer melhor do que é.
- Aprenda a dizer 'bom dia' antes de entrar nos cafés. Aqui não se entra a pedir um expresso. Cumprimenta-se primeiro.
Moncorvo não é o Jardim do Palácio de Cristal, e não pretende ser. É uma vila no fim do mapa, com uma encosta cheia de flores, dois meses por ano em que parece um sonho, e dez meses em que continua a ser ela própria, sem encenação. A primavera aqui não termina com as amendoeiras. Começa.