Praia da Vitória em Altitude: Trilhos, Queijo e Vinhos de Lava
A Terceira é um cone vulcânico, e o que torna o verão em Praia da Vitória interessante não é a praia: é o que acontece acima dos 600 metros. Trilhos na Serra de Santa Bárbara, vinho que cresce dentro da lava nos Biscoitos, e o queijo da ilha que os supermercados continentais vendem aldrabado.
Há um equívoco que insiste em vingar entre quem chega à Terceira pela primeira vez: o de que esta é uma ilha plana, feita para tardes lentas na marginal e mergulhos na Prainha. É verdade que Praia da Vitória tem a maior praia urbana dos Açores e que, em agosto, a Avenida Álvaro Martins Homem cheira a maresia e a tremoços. Mas a sério, ficar pelo nível do mar é desperdiçar metade da ilha. A Terceira é, antes de mais, um cone vulcânico, e o que torna o verão aqui interessante não é a praia: é o que se passa acima dos 600 metros.
Este guia é para quem chega a Praia da Vitória e quer subir. Para quem aceita que o melhor queijo da ilha não está nos supermercados do centro, que o vinho dos Biscoitos sabe a pedra preta, e que a única forma decente de ver a Caldeira de Santa Bárbara é com botas, água e a paciência de quem sabe que a neblina pode arruinar o plano às onze da manhã. Vamos aos trilhos, ao queijo, e às vistas, por esta ordem.
O briefing: porque é que o verão na Terceira não é o que pensa
Esqueça o calor seco do Algarve. Em julho e agosto, Praia da Vitória oscila entre 18 e 25 graus, com humidade alta e nuvens que aparecem e desaparecem ao ritmo do vento. Isto é bom: significa que pode caminhar ao meio-dia sem se transformar em sopa. É também mau, porque o tempo na Serra de Santa Bárbara muda em vinte minutos. A regra é simples: comece cedo, leve corta-vento, e tenha um plano B ao nível do mar para os dias em que a montanha simplesmente recusa colaborar.
O aeroporto fica em Lajes, a dez minutos do centro de Praia da Vitória. Um carro alugado é praticamente obrigatório, salvo se planeia ficar três dias na marginal a comer alcatra. Os transportes públicos existem, mas operam num horário que parece desenhado para frustrar turistas. Calcule entre 35 a 55 euros por dia para um citadino, mais combustível que custa o seu rim direito, porque tudo nos Açores é importado, incluindo a gasolina.
O primeiro dia: a Serra de Santa Bárbara antes do almoço
O ponto mais alto da Terceira tem 1023 metros e fica no extremo oeste da ilha, a cerca de uma hora de Praia da Vitória pela ER1-1ª. A estrada sobe gradualmente entre pastagens e cedros endémicos até ao centro de visitantes, que costuma abrir por volta das dez da manhã. Confirme localmente, porque os horários açorianos têm uma flexibilidade poética.
O trilho da Caldeira de Santa Bárbara é curto, cerca de três quilómetros em circuito, e tecnicamente fácil. Não se deixe enganar pela distância: o vento aqui em cima sopra como se tivesse algo a provar, e a vegetação baixa, sobretudo urze e cedro-do-mato, exige passos firmes. A recompensa é uma cratera vulcânica coberta de musgo onde o silêncio é interrompido apenas pelo guincho ocasional dos milhafres. Em dias limpos, vê-se o mar dos dois lados da ilha. Em dias nublados, vê-se a sola das suas próprias botas, e nada mais.
Conselho impopular: não tente fazer este trilho ao fim da tarde. A neblina forma-se quase sempre depois das duas e a temperatura cai dez graus em meia hora. Os locais sabem disto. Os turistas aprendem à pancada.
O queijo: porque é que o supermercado o engana
O queijo da Ilha Terceira DOP é um animal específico. Curado entre quatro e doze meses, feito de leite cru de vaca, ligeiramente picante, com uma crosta que escurece com a idade. O problema é que aquilo que se vende como 'queijo da ilha' nos supermercados continentais é, na maioria dos casos, uma versão industrial e suavizada que não faz justiça ao original.
Para o verdadeiro queijo, ignore as prateleiras refrigeradas dos hipermercados e procure as queijarias artesanais espalhadas pela ilha. Em Vila de São Sebastião e nos arredores de Altares há produtores que vendem diretamente. Não tem morada fixa, tem cartaz pintado à mão. Espere pagar entre 12 e 18 euros por quilo, dependendo da cura. Compre meio quilo do mais curado, parta-o com a mão (não com faca, parece blasfémia mas o queijo desfaz-se melhor assim), e coma com pão de milho terceirense e um copo de verdelho dos Biscoitos. Isto é o pequeno-almoço da gente séria.
Biscoitos: o vinho que cresce na lava
A quinze minutos de carro a oeste de Praia da Vitória, a freguesia dos Biscoitos é talvez o sítio mais subestimado da Terceira. O nome vem do aspeto da rocha vulcânica que cobre o terreno, esburacada como uma bolacha. Foi nesta lava, classificada como Paisagem Protegida, que os primeiros colonos plantaram videiras dentro de currais de pedra para proteger a vinha do vento atlântico. O resultado é um vinho branco, o Verdelho dos Biscoitos, com mineralidade salgada e uma acidez que limpa o palato como nada que beberá no continente.
O Museu do Vinho dos Biscoitos conta a história desta engenharia agrícola improvável. É pequeno, é familiar, e na época funciona com horários que convém confirmar antes. A visita inclui prova, e se tiver sorte apanha um dos descendentes da família Brum a explicar a diferença entre o verdelho seco e o licoroso. Vale dez vezes mais do que pagar trinta euros por uma prova em qualquer cave do Douro com folheto plastificado.
Logo ao lado, e isto é o tipo de coincidência geográfica que torna a Terceira divertida, encontra-se o lugar para a experiência de cerveja artesanal Brianda em Biscoitos. Sim, há cerveja artesanal a 600 metros do oceano, fermentada com água local. A IPA é decente, a stout é melhor. Os preços são honestos, ronda os cinco euros por copo.
Cultura, porque não se vive só de queijo
A meio dos trilhos e dos copos, convém lembrar que Praia da Vitória tem uma densidade cultural que poucas vilas portuguesas conseguem igualar. Comece pela Casa Museu Vitorino Nemésio, dedicada ao autor de Mau Tempo no Canal, que cresceu nestas ruas. A casa é modesta, o acervo é íntimo, e a melhor parte é entrar e perceber, em meia hora, porque é que a literatura açoriana tem a melancolia que tem. Não é por acaso: é o vento, é o isolamento, é a sensação permanente de estar a meio caminho entre dois continentes.
Depois, e isto vai parecer estranho a quem nunca viveu numa ilha com uma base militar americana, atravesse a cidade até ao Núcleo Museológico da Base Aérea Nº4. Conta a história da Base das Lajes, que durante a Guerra Fria fazia da Terceira um nó estratégico do Atlântico Norte. Os aviões que ainda hoje aterram às vezes por cima do casario branco são o último capítulo desta história. Para quem gosta de história militar do século XX, é imperdível. Para os outros, é uma curiosidade que dura uma hora e custa pouco.
A bicicleta elétrica: o atalho honesto
Se a ideia de subir a Serra de Santa Bárbara a pé soa a demasiado compromisso, há uma alternativa que recomendo sem ironia: a experiência de e-bike na Praia da Vitória. As bicicletas elétricas resolvem o problema das subidas terceirenses, que parecem suaves no mapa e brutais nas pernas. Em três a quatro horas faz-se um circuito que cobre marginal, falésias e algumas das pastagens interiores, com paragens nos miradouros que escolher. Os guias locais sabem quando o vento vai bater e quando não. Confie neles.
O custo ronda os 50 a 70 euros por pessoa, com bicicleta e capacete incluídos. Não é barato, mas é dos investimentos turísticos mais rentáveis na ilha: três horas em e-bike mostram-lhe mais Terceira do que três dias a passear no centro de Praia da Vitória.
Onde comer (e onde não)
Praia da Vitória tem o problema clássico das vilas turísticas: muitos restaurantes médios, alguns excelentes, e uma minoria que vive do facto de a marina trazer gente que não vai voltar. A regra é ignorar tudo o que estiver imediatamente colado à praia e procurar as ruas paralelas.
A alcatra terceirense, peça de carne marinada em vinho de cheiro e cozinhada em panela de barro durante horas, é o prato emblemático. Encontra-se em quase todos os restaurantes tradicionais, mas a qualidade varia brutalmente. Pergunte sempre se é feita na hora ou aquecida. Se for aquecida, peça outra coisa. O peixe é bom, naturalmente: lapas grelhadas com manteiga de alho, garoupa quando aparece, e o atum fresco no verão, geralmente em bife ou em molho de vilão.
Para o pequeno-almoço, evite o pacote de hotel e procure uma pastelaria de bairro com pão de milho fresco, queijo da ilha e café cheio. Não é uma experiência gourmet, é o ritmo certo para começar um dia de trilho.
Se ficar tentado a saltar de ilha
A Terceira é parte de um arquipélago, e se tiver mais de quatro dias compensa pensar em apanhar um voo curto para outra ilha. São Miguel é a óbvia, com paisagens mais espetaculares e mais infraestrutura turística. Faial e Pico são para quem gosta de mar e baleias. Se está a planear o salto, vale a pena ler o nosso guia de 24 horas na Horta antes de comprar bilhetes, sobretudo se tiver pouco tempo. E para quem quer perceber a cidade de outro ângulo, este apanhado dos melhores rooftops e panorâmicas da Horta poupa-lhe duas horas de pesquisa.
Em São Miguel, a paragem obrigatória é Ponta Delgada, mas convém saber o que pedir e o que evitar. A nossa expedição gastronómica pela cidade serve de mapa para quem não quer cair na primeira tasca com menu turístico plastificado.
O cálculo final
Quatro dias em Praia da Vitória no verão, fazendo um trilho na Serra de Santa Bárbara, um passeio de e-bike, uma visita ao Museu do Vinho dos Biscoitos, uma tarde nos museus da vila e dois jantares decentes, fica entre 450 e 700 euros por pessoa fora voos e alojamento. Não é low cost. É também uma das poucas experiências turísticas em Portugal onde se sai com a sensação de ter visto coisas que ninguém no continente sabe que existem.
O segredo é não tratar a Terceira como uma versão menos famosa de São Miguel. Não é. É uma ilha com personalidade própria, com vinho que cresce dentro da lava, queijo que sabe a pasto salgado, e uma cidade pequena cuja maior virtude é não estar a tentar parecer outra coisa. Suba, prove, regresse no inverno para perceber a outra cara desta história. Vale a viagem.