Praia da Vitória de Bicicleta: Rotas para Todos os Níveis
Da marginal plana a uma subida de 14 quilómetros até aos Biscoitos, com paragem obrigatória na cervejeira artesanal Brianda. Quatro rotas em Praia da Vitória, do passeio com gelado às pedaladas de carácter.
Há uma teoria, partilhada por quem conhece a Terceira para lá das placas turísticas, de que esta ilha foi desenhada para ser percorrida a duas rodas. Não é exagero. A baía da Praia da Vitória, com os seus 2,5 quilómetros de areal contínuo, oferece a marginal mais plana e ininterrupta de qualquer cidade açoriana. A partir daí, o terreno sobe em socalcos suaves até aos Biscoitos, atravessa pastagens onde as vacas têm direito de passagem prioritário, e termina em miradouros que justificam cada pedalada. Se chegou a esta cidade convencido de que os Açores são apenas para fazer trilhos de lava com botas pesadas, prepare-se para mudar de opinião.
Este guia não é para ciclistas de Lycra a treinar para o Giro. É para quem quer ver a Terceira ao ritmo certo: rápido o suficiente para cobrir terreno, lento o suficiente para parar quando o cheiro a forno a lenha sair de uma casa em Lajes. Vamos do básico (a marginal, com crianças e gelados) ao sério (subida aos Biscoitos pelo interior), com paragens estratégicas em museus, adegas e uma cervejeira artesanal que, garanto, vai dar sentido a todo o esforço.
Antes de começar: o que precisa de saber sobre pedalar na Terceira
A primeira coisa a entender é o vento. A Terceira é uma ilha atlântica e o vento é uma personagem com vontade própria, sobretudo na costa norte. Pedalar de Praia da Vitória até aos Biscoitos com vento nordeste pela frente é uma experiência que separa o ciclista casual do ciclista convicto. A regra de ouro: comece a sua rota contra o vento e regresse com ele a favor. Cansado, é mais agradável ter a brisa nas costas.
A segunda coisa: o clima muda em 20 minutos. Em maio, vi céu limpo às 10h da manhã transformar-se em chuva miudinha às 10h30 e voltar ao sol às 11h. Leve sempre um corta-vento leve, mesmo que o termómetro marque 22 graus quando sai do hotel. E aplique protetor solar antes de partir, porque o vento atlântico esconde o sol, mas não os UV.
Quanto a bicicletas: a maior parte dos hotéis da Praia da Vitória tem parceria com operadores locais. Para quem nunca pedalou em terreno açoriano, recomendo vivamente começar com uma bicicleta elétrica. Não é preguiça, é estratégia. As subidas para o interior da ilha têm declives que, sem motor, transformam um passeio agradável numa via-sacra. O passeio de e-bike pela Praia da Vitória é o ponto de partida ideal: bicicleta de qualidade, guia que conhece os atalhos e itinerário que cobre o essencial sem exigir condição física de atleta.
Rota 1: A marginal e a baía (nível: fácil, 8 km)
Esta é a rota que faço sempre que chego à Praia da Vitória, mesmo antes de desfazer as malas. Saída pela manhã cedo, idealmente antes das 9h, quando a marginal ainda pertence aos pescadores e aos corredores locais. Comece no extremo sul da baía, perto do porto, e siga para norte pela ciclovia que acompanha o areal.
O percurso é plano como uma mesa. Crianças, avós, ciclistas reformados, toda a gente cabe aqui. Pare no Jardim da República, na zona central, para uma bica no quiosque com vista para o mar. Custa um euro e poucos cêntimos e sabe duas vezes melhor com o som das ondas a 30 metros de distância. Continue até ao paredão norte, faça a inversão, e no regresso desvie-se para o centro histórico.
Aqui, a paragem obrigatória é a Casa Museu Vitorino Nemésio. Para quem não conhece Nemésio, é provavelmente o escritor mais importante que os Açores deram a Portugal, autor de Mau Tempo no Canal, romance que define o arquipélago tanto quanto qualquer guia turístico. A casa onde nasceu é pequena, intimista, e oferece uma leitura da Praia da Vitória que nenhuma marginal lhe vai dar. Reserve 45 minutos.
Para almoçar, deixe a bicicleta presa no centro e procure um sítio com peixe fresco do dia. A Praia da Vitória tem uma frota pesqueira ativa e o peixe que chega às mesas chegou ao porto nessa manhã. Confirme sempre os preços antes de pedir, sobretudo se for veja ou cherne, que são as duas espécies mais cobiçadas e, portanto, mais caras.
Rota 2: Praia da Vitória ao Núcleo Museológico da Base Aérea (nível: fácil-médio, 14 km ida e volta)
Esta é uma rota que poucos turistas fazem, e isso é parte do seu encanto. A Base Aérea Nº4 das Lajes, partilhada entre a Força Aérea Portuguesa e a US Air Force, é um pedaço de história da Guerra Fria parada no tempo. Durante décadas, esta base foi escala obrigatória para voos transatlânticos americanos, e a cidade da Praia da Vitória cresceu em redor desta presença militar.
O percurso sai da cidade pela estrada que ladeia a base, com o oceano à direita e as pistas à esquerda. Em dias claros, é possível ver os C-130 a aterrar. A ciclovia não acompanha toda a estrada, portanto há trechos onde tem de partilhar a via com carros, o que exige atenção mas é seguro fora das horas de ponta (evite entre as 8h e as 9h e entre as 17h e as 18h, quando os trabalhadores da base entram e saem).
O Núcleo Museológico da Base Aérea Nº4 é, sem rodeios, uma das visitas mais surpreendentes da Terceira. Aviões antigos, fotografias da chegada das forças americanas em 1944, e o contexto histórico que explica porque é que metade da Praia da Vitória tem nomes de família terminados em vogais portuguesas e a outra metade tem apelidos como Smith ou Jenkins. Confirme horários localmente, porque varia consoante a estação.
De regresso à cidade, pare numa das padarias do bairro do Porto Martins para um lanche. As malassadas locais, beijinhos de açúcar e gordura, são o combustível perfeito para a segunda metade do dia.
Rota 3: A subida aos Biscoitos (nível: médio-difícil, 28 km ida e volta)
Agora a coisa séria. Esta é a rota que justifica a bicicleta elétrica se ainda estiver indeciso. A subida da Praia da Vitória aos Biscoitos faz-se pela estrada interior, atravessando freguesias rurais onde o tempo escorre mais devagar. O desnível é de cerca de 300 metros distribuídos por 14 quilómetros, o que parece pouco no papel mas, com vento contra e calor de tarde, sabe a muito mais.
O nome Biscoitos vem das pedras de lava que cobrem a zona, formadas por erupções antigas que deixaram o solo coberto de basalto preto. É neste terreno aparentemente impossível que se cultiva a uva Verdelho dos Açores, encerrada em currais de pedra que protegem as vinhas do vento e do salitre. Quando chegar, vai entender porque é que este vinho tem Denominação de Origem Protegida e porque é que os enólogos do continente vêm cá fazer estágios.
Paragem obrigatória: o Museu do Vinho dos Biscoitos. É um museu de família, dos Brum, que produz vinho aqui há gerações. A visita inclui o lagar tradicional, a coleção de garrafas antigas, e uma prova que justifica a paragem. O Verdelho dos Biscoitos é seco, mineral, com aquela ponta salgada que só os vinhos atlânticos têm. Compre uma garrafa. Não vai encontrar este vinho com facilidade fora dos Açores.
A 500 metros do museu, e este é o trunfo que poucos guias mencionam, está a cervejeira artesanal Brianda. Sim, leu bem: vinho dos Biscoitos e cerveja artesanal no mesmo quilómetro quadrado. A Brianda produz cervejas com personalidade, usando ingredientes locais sempre que possível, e a sala de provas tem vista para os mesmos currais de basalto que viu na vinha. Uma cerveja gelada depois de 14 quilómetros de subida é a definição prática de mereci-isto. Os preços são razoáveis e o ambiente é informal, sem pretensiosismos.
O regresso à Praia da Vitória, agora a descer, faz-se quase sem pedalar. Aproveite, mas atente nos travões e na velocidade, sobretudo se a estrada estiver molhada, o que acontece com mais frequência do que se imagina.
Rota 4: A costa norte até à Serra do Cume (nível: difícil, 35 km com subida significativa)
Esta rota é para quem já tem condição e quer ver a Terceira do alto. A Serra do Cume é a aresta de uma caldeira vulcânica antiga, e do topo vê-se a chamada "colcha de retalhos": um mosaico de pastagens divididas por muros de pedra que cobrem toda a planície central da ilha. É uma das vistas mais fotografadas dos Açores, e por boa razão.
A subida é exigente. Há trechos com declives acima de 8%, e se o vento estiver de norte, transforma-se em prova de carácter. Recomendo fazê-la de manhã cedo, com tempo seco, e levar água suficiente para uma hora longa de esforço. No topo, há um miradouro com parque de estacionamento e nada mais: nenhum café, nenhum quiosque. Leve uma sandes e uma garrafa de água, e sente-se a olhar para o mosaico durante o tempo que quiser.
Esta é uma rota que recompensa a paciência. Não há paragens turísticas pelo caminho, há apenas o esforço da subida e a recompensa do topo. Se for ciclista de fim de semana, talvez prefira pular esta e ficar pelas anteriores. Mas se gosta de pedalar a sério, este é o percurso que vai lembrar quando alguém lhe perguntar pela Terceira.
Quando ir, onde dormir, quanto custa
A melhor altura para pedalar na Terceira é de maio a outubro, com preferência para junho e setembro, quando as temperaturas estão entre os 18 e os 24 graus e a probabilidade de chuva é menor. Julho e agosto são quentes (para os padrões açorianos) e cheios de turistas portugueses do continente, sobretudo durante as Festas Sanjoaninas, em Angra do Heroísmo, e os festejos da própria Praia da Vitória, em agosto.
Para alojamento, a Praia da Vitória tem uma oferta crescente de hotéis de gama média e alojamentos locais. O centro histórico é a opção mais conveniente para quem vai pedalar: estacionamento de bicicletas, restaurantes a 100 metros, e ciclovia à porta. Os preços médios em época baixa rondam os 70 a 100 euros por noite num hotel decente, subindo para 120 a 180 em julho e agosto. Confirme tarifas no momento da reserva.
Aluguer de bicicletas: uma elétrica custa entre 25 e 40 euros por dia, dependendo do operador e da duração. Uma bicicleta convencional fica nos 12 a 20 euros diários. A maior parte dos operadores inclui capacete, cadeado e mapa.
Para lá da Terceira: outros destinos açorianos
Se a Terceira despertou em si o ciclista atlântico, considere alargar a viagem a outras ilhas. O Faial e a Horta têm uma malha urbana compacta perfeita para explorar sem esforço; o nosso guia de 24 horas em Horta dá-lhe o essencial para uma escapadela curta. Para vistas, este outro guia dos melhores rooftops e panorâmicas da Horta complementa bem.
E se a fome açoriana ficar em si depois das pedaladas, leia o nosso guia gastronómico de Ponta Delgada, na ilha de São Miguel, onde o cozido das Furnas, cozinhado em buracos vulcânicos, é a refeição mais teatral que pode comer em Portugal.
A última pedalada
A Terceira tem o tamanho certo para ser conquistada de bicicleta em três ou quatro dias bem planeados. Não tente fazer tudo de uma vez. Comece pela marginal no primeiro dia, suba aos Biscoitos no segundo, faça a Base Aérea no terceiro, e guarde o quarto para uma rota livre, sem mapa, seguindo apenas a curiosidade. É assim que se descobre a ilha, e é assim que se descobre porque é que tantos açorianos, depois de emigrarem para a Califórnia ou para o Canadá, voltam um dia para morrer aqui. A bicicleta, neste contexto, é apenas o veículo. O destino é a paisagem, e a paisagem na Terceira faz-se de calma, vento, basalto e gente que ainda cumprimenta quem passa.