Praia da Vitória: Surfar, Aprender ou Só Ver o Mar
Guia

Praia da Vitória: Surfar, Aprender ou Só Ver o Mar

· · Praia da Vitória

A baía mais redonda dos Açores é também a melhor sala de aula de surf do arquipélago, com ondas a metro e meio, fundo de areia e a água a 22 graus em Julho. Aprende, observa do paredão, ou foge a Biscoitos para piscinas de lava e Verdelho dentro de currais de pedra.

Há uma coisa que ninguém te diz sobre a Praia da Vitória antes de chegares: a baía é tão redonda que parece desenhada por um arquitecto com obsessão por compassos. Quase três quilómetros de areia clara virados a leste, protegidos a norte pelo Monte Brasil e a sul pela ponta do Espigão. Resultado: enquanto o resto da Terceira leva pancada do Atlântico, aqui o mar respira. É uma das razões pelas quais a vila se tornou, sem alarde, o melhor sítio dos Açores para aprender a surfar, e um dos poucos onde podes ter ondas decentes de manhã e mergulhar de máscara à tarde sem mudar de freguesia.

Este não é um guia de surf escrito por surfistas para surfistas. Esses já sabem onde ir, e francamente não precisam de mim. Este é para o resto: quem nunca pôs os pés numa prancha, quem traz miúdos, quem quer ver o mar a sério sem se molhar, ou quem só quer perceber por que razão, num arquipélago de costa selvagem, foi precisamente esta baía mansa que ficou com o nome de Vitória.

A baía que mudou de nome (e de feitio)

Antes de 1837 isto chamava-se Praia. Só Praia. Depois da batalha liberal de 1829, na qual a vila resistiu às tropas miguelistas, D. Maria II acrescentou-lhe o apelido. A história importa porque explica a praça central, a estátua, as ruas largas e ortogonais, raras nos Açores, e também o porquê de a vila ter sempre tido uma relação prática, e não mística, com o mar. Aqui não se contempla o oceano, usa-se.

A areia atual é, em boa parte, obra humana. Nos anos 90 fez-se um grande reforço da praia urbana, e o resultado é aquele troço comprido de areia fina entre o jardim público e o porto de pesca. Bandeira azul há mais de duas décadas, vigiada no verão, com chuveiros, esplanadas a 30 metros e pôr-do-sol pelas costas, o que aqui significa luz de manhã, sombra à tarde. Para quem aprende a surfar, isto é praticamente o cenário perfeito: ondas pequenas, fundo de areia, sem pedras a meio.

Onde apanhar a tua primeira onda

A zona de aprendizagem fica do lado sul da baía, mais ou menos em frente ao parque de estacionamento da Avenida Beira-Mar. As ondas formam-se a partir de uma ondulação que entra filtrada pelo Espigão e raramente passa do metro e meio nesta secção. É exactamente o que queres como principiante: espuma generosa, recuperação fácil, e se cais não há mais nada para acertar senão areia.

O que esperar das escolas locais (a oferta varia de ano para ano, confirme localmente antes de ir):

  • Aulas em grupo de duas horas, em geral entre 35 e 50 euros, prancha e fato incluídos
  • Aulas particulares mais caras, na ordem dos 70 a 90 euros
  • Pacotes de cinco dias, que é onde o preço por sessão fica realmente razoável
  • Aluguer de prancha simples para quem já se desenrasca: cerca de 15 a 20 euros por meio-dia

Dica de quem já viu isto várias vezes: marca para a manhã. O vento térmico levanta-se quase sempre depois do almoço e o que era uma onda limpa às 10h vira pão ralado às 14h. Em Junho, Julho e Agosto a água anda nos 20 a 22 graus, o que para padrões açorianos é praticamente Caribe. Em Outubro e Novembro ainda dá para entrar com fato 3/2, e as ondas costumam estar melhores, com mais consistência e menos gente. O Inverno é sério: 4/3 obrigatório, e nessa altura os locais começam a olhar para spots fora da baía que ficam para outra conversa.

Para quem prefere ver, não molhar

Há um ritual silencioso, todas as tardes, que poucos turistas notam: o passeio do paredão entre o porto de pesca e o forte de Santa Catarina. Vai-se devagar, contra o vento. À direita, a baía inteira. À esquerda, a vila baixa, branca, com aquele azul-cobalto que os açorianos usam nas cantarias com a confiança de quem sabe que é a única cor que aguenta o sal.

Se preferires ganhar altura, o miradouro do Facho, a norte, dá-te a baía em planta, como num mapa. É um quarto de hora a pé desde o centro, mais ou menos íngreme, e tem um banco de pedra que parece feito de propósito para quem trouxe uma sandes de queijo da ilha. Outro ponto bom, mais discreto, é a calçada que sobe à ermida de Nossa Senhora da Conceição, no extremo sul.

Para um plano mais elaborado de costa, troca a vila pela bicicleta. O passeio de e-bike na Praia da Vitória é a forma mais civilizada que conheço de ver a frente atlântica desta zona: pedalas de Biscoitos à orla urbana sem cair de cansaço numa subida, e paras onde quiseres. Honestamente, com o motor a ajudar, mesmo quem não anda de bicicleta há vinte anos se safa.

Biscoitos: piscinas naturais e a outra face do mar

A oito quilómetros a norte da vila começa Biscoitos, e aqui o mar muda de personalidade por completo. Onde a baía da Praia é redonda e mansa, Biscoitos é puro lavar negro, a lava que correu para o mar, arrefeceu retorcida e deixou um labirinto de poços, canais e plataformas. As piscinas naturais aqui são das melhores dos Açores, e isto vindo de alguém que viu quase todas.

O que se faz em Biscoitos:

  • Banhos nas piscinas: vai pela calçada principal até veres a escadaria de cimento. Há chuveiros e um bar simples no verão
  • Snorkeling: na maré certa, vê-se peixe-rei, sargo, salema, polvo se tiveres sorte. A visibilidade aqui é ridiculamente boa
  • Mergulho com garrafa: várias operadoras da ilha trabalham esta costa, e há fundos com 15 a 25 metros a uma curta distância da rocha
  • Almoço a olhar para o mar: as casas com vista são poucas, é melhor reservar

Mas Biscoitos não é só água. É também o único sítio do mundo onde a videira cresce dentro de currais de lava, uma DOC açoriana baseada na casta Verdelho. O Museu do Vinho dos Biscoitos conta esta história com uma honestidade rara: é uma família, os Brum, que fez o museu na sua adega original, e a visita acaba com uma prova de Verdelho seco ou de licoroso, conforme o humor. Vai com tempo, e se gostares do que provas, leva. Não custa mais do que um bom vinho do continente, e não encontras em mais lado nenhum.

A poucas centenas de metros, outro tipo de fermentação: a cerveja artesanal Brianda. Cerveja açoriana feita em pequena escala, com visita à fábrica, prova e conversa séria com quem a faz. Se forem dois, fica mais barato que dois cocktails em Lisboa e aprende-se mais.

Dois museus em terra firme (e por que vais querer ir)

Sei o que estás a pensar: vim para o mar, agora estás a mandar-me ver museus? Sim, mas dois bem específicos, e ambos mudam a forma como olhas para a costa cá fora.

O primeiro é a Casa Museu Vitorino Nemésio, na vila. É a casa onde nasceu o autor de Mau Tempo no Canal, talvez o melhor romance jamais escrito sobre os Açores. É pequena, modesta, com objectos pessoais, fotografias, manuscritos. Mas ler depois uma página de Nemésio sentado na esplanada à beira-mar, com o vento a fazer estalar a toldagem, é uma experiência completamente diferente de a ler num apartamento em Campo de Ourique. Acreditem em mim.

O segundo é o Núcleo Museológico da Base Aérea Nº4, ao lado das Lajes. Sim, uma base aérea. Sim, vale a pena. Conta a história improvável de como esta ponta da Terceira se tornou, durante a Segunda Guerra Mundial e depois durante toda a Guerra Fria, uma das peças mais estratégicas do Atlântico Norte. Há aviões, fardas, fotografias de líderes mundiais que aqui aterraram para reuniões discretas. É também uma forma honesta de perceber a relação meio esquizofrénica que a vila sempre teve com a sua costa: ao mesmo tempo praia de banhos e aeroporto militar internacional.

Comer e dormir sem desiludir

A vila tem mais opções para comer do que se imagina à primeira vista. Concentra-te nas zonas da marginal e na praceta atrás do jardim. Pede peixe do dia (badejo, abrótea, cherne se tiveres sorte), polvo guisado, e a alcatra terceirense, que é uma carne assada lentamente em vinho num alguidar de barro, prato que pertence à mesma família espiritual da posta mirandesa, mas que aqui se serve com massa sovada em vez de batata. Se gostas de sopas, a sopa do Espírito Santo, sobretudo entre Maio e Setembro, é ritual.

Para dormir, evita os complexos virados a campo de golfe a norte se queres acordar com o mar. As opções pequenas, em casas restauradas no centro da vila, são quase sempre melhores. Em alta estação (Julho e Agosto, mais a primeira quinzena de Setembro com as Festas da Praia), reserva com semanas de antecedência. Fora disso, a vila tem disponibilidade decente e preços bem mais simpáticos.

Como chegar, como circular, quanto custa

O aeroporto das Lajes fica a sete minutos de carro da vila. Há voos diretos de Lisboa e do Porto, e em verão de várias cidades europeias. Aluga carro. Sem carro, a Terceira frustra, com carro liberta. Os autocarros existem mas têm horários pensados para residentes, não para visitantes.

Orçamento aproximado para uma semana decente, fora alta estação:

  • Voo continente-Terceira: a partir de 120 a 180 euros, ida e volta, se compras com tempo
  • Carro de aluguer: 30 a 50 euros por dia para um citadino
  • Alojamento simples mas bom: 70 a 110 euros por noite
  • Almoço com prato e bebida: 12 a 18 euros
  • Jantar mais elaborado: 25 a 40 euros
  • Pack de duas aulas de surf: 70 a 90 euros

Saltar para outras ilhas (e quando faz sentido)

A Terceira combina bem com qualquer outra ilha do triângulo central. Se tiveres dez dias ou mais, vale a pena adicionar duas, sem ser tudo a correr.

O Faial está a 30 minutos de avião e 24 horas chegam para ver o essencial: o nosso guia de Horta em 24 horas explica como organizar o dia, do Peter Café Sport à caldeira. Se gostas de vistas a sério (e na Horta há-as a sério), olha também o que escrevemos sobre os melhores miradouros e rooftops da cidade.

São Miguel, mais a leste, exige mais tempo. Mas se vais, vai pela mesa, antes de mais: a expedição gastronómica por Ponta Delgada mostra que a cidade tem evoluído num registo que já não é só cozido das Furnas e ananás.

A última onda

O que faz da Praia da Vitória um sítio interessante para escrever não é, no fim, o surf em si. É a forma como esta vila, que poucos têm na lista, junta numa baía só uma escola para iniciantes, piscinas de lava a oito quilómetros, um museu de literatura, um museu de Guerra Fria, vinho dentro de currais de pedra e uma costa de e-bike onde nem o joelho dói. Vens pela onda, ficas pelo resto. Ou ficas pela onda, e o resto é bónus. Ambas as versões funcionam. Só não venhas esperar que o mar te impressione pela violência: aqui a vitória é precisamente o oposto. É o mar a portar-se bem.

praia surf açores terceira biscoitos piscinas naturais