Praia da Vitória a Pé: Arquitetura e Memória no Centro Histórico
Reconstruída pedra a pedra após o terramoto de 1980, Praia da Vitória é a única cidade dos Açores desenhada com régua e esquadro. Um roteiro a pé pelo centro histórico, com paragens na Casa Museu Vitorino Nemésio, na Igreja Matriz e na alcatra que cozeu durante seis horas.
Há uma coisa que os roteiros oficiais dos Açores não vos contam: Praia da Vitória é a única cidade do arquipélago desenhada com régua e esquadro. Não é um exagero. Depois do terramoto de 1980, que praticamente partiu a Terceira ao meio, o centro histórico foi reconstruído pedra a pedra, frequentemente com as mesmas pedras, segundo o traçado original do século XVI. O resultado é desconcertante: uma cidade que parece antiga mas cheira a cal nova, uma malha urbana de tabuleiro de xadrez, fachadas brancas com cantarias de basalto negro, e uma luz que, às quatro da tarde de verão, transforma tudo num cenário a preto e branco com pinceladas de bougainvillea.
Este é o lado da Terceira que quem vai a Angra ignora. E é precisamente por isso que vale a pena calçar uns ténis decentes (as ruas são em calçada irregular, deixem os saltos no hotel) e fazer este percurso a pé, devagar, num daqueles dias em que o Atlântico está azul cobalto e o vento decidiu dar tréguas.
Comecem cedo, comecem na praça
O ponto de partida tem de ser a Praça Francisco Ornelas da Câmara, vulgarmente conhecida por Praça Velha. Se chegarem antes das nove da manhã, vão ter o lugar quase só para vocês, partilhado com os funcionários da Câmara Municipal a abrir portas e o pessoal do café da esquina a empilhar cadeiras. O edifício dos Paços do Concelho, do século XIX, é o cartão de visita: telhado de mansarda, fachada simétrica, e aquela cor branca caiada que, quando o sol bate em cheio, obriga a usar óculos escuros mesmo em dias nublados.
Peçam um café e uma malassada (entre 1,20€ e 1,80€, dependendo de onde se está) e olhem em volta. O que parece um simples largo é, na verdade, o resultado de uma obsessão pombalina. Sebastião José de Carvalho e Melo, quando regulava o urbanismo português, queria praças assim: regulares, hierarquizadas, com a igreja a marcar o eixo. E aqui o eixo é mesmo a Igreja Matriz de Santa Cruz, do outro lado, com a sua fachada manuelina onde os mestres pedreiros do século XVI deixaram marcas tão estranhas como golfinhos esculpidos em pedra vulcânica.
Detalhe que muita gente passa ao lado
Na fachada da Matriz, reparem nas duas torres assimétricas. Não é defeito de construção, é história. Uma é do gótico final, a outra foi reconstruída depois de um dos muitos abalos sísmicos que esta ilha levou. O portal manuelino, com cordas esculpidas em pedra, é dos mais antigos dos Açores. Entrem se a porta estiver aberta (geralmente entre as 9h e as 12h, e das 15h às 18h, mas confirme localmente). Lá dentro, o tecto em caixotões pintados vale o desvio.
Subir até à Casa Museu: a literatura como bússola
De seguida, suban a Rua Jervis de Atouguia em direcção à Casa Museu Vitorino Nemésio. É uma subida curta, mas o ângulo já dá para perceber a topografia da cidade: Praia da Vitória encosta-se ao mar como quem se senta na areia, com a baía a abrir-se em forma de meia-lua. Nemésio, o maior escritor terceirense (e um dos grandes nomes da literatura portuguesa do século XX), nasceu nesta casa em 1901. É um edifício modesto, de fachada simples, mas o interior é uma cápsula do tempo: mobiliário original, fotografias da família, a secretária onde escreveu Mau Tempo no Canal, que é, para os Açores, o que Os Maias são para Lisboa.
A entrada custa cerca de 2€ e a visita demora 30 a 40 minutos. Levem uma pergunta na cabeça: como é que um homem que cresceu aqui, com vista para o porto e o cheiro a maresia, acabou a ensinar literatura francesa em Coimbra e Paris? A resposta está nos livros que se podem folhear na biblioteca da casa. Para quem nunca leu Nemésio, recomendo começar por O Açor, um conjunto de poemas onde a ilha aparece sem floreados, com nomes próprios, ventos por categoria e nuvens por hora do dia.
O bairro novo que é o mais antigo
Saindo da casa-museu, sigam pela Rua de Jesus em direcção à zona da Riviera. Aqui o passeio muda de carácter. As ruas são mais estreitas, as casas mais pequenas, e quase todas têm o mesmo cromatismo: branco com molduras coloridas em torno das janelas, geralmente em amarelo, azul, vermelho ou verde. Esta é uma tradição açoriana, mas em Praia da Vitória atinge níveis de perfeição quase obsessivos. Há uma razão prática para as molduras coloridas: identificavam as casas para os marinheiros analfabetos. Mas hoje funcionam como uma espécie de arte popular permanente.
Reparem nos cunhais. As cantarias de basalto preto formam o esqueleto das casas, contrastando com a cal branca. É a arquitectura vernacular açoriana no seu estado mais puro, e está aqui, à vista de todos, sem placas a explicar nada. Quem souber ver, vê. Quem não souber, vai dizer que tudo parece igual.
Onde parar para comer (e o que pedir)
Por esta altura, se começaram cedo, devem estar com fome. Há dois caminhos. O primeiro: descer até à zona ribeirinha, onde há vários restaurantes com vista para a baía. Peçam alcatra, o prato terceirense por excelência, carne de vaca cozida durante horas num alguidar de barro, com vinho, alho, pimenta da terra e bacon. Custa entre 12€ e 16€ por pessoa nos sítios decentes. Atenção: não é um prato para almoçar antes de continuar a passear. Comam e tirem a tarde, sem culpas.
O segundo caminho: ir mais leve, comer uma sopa do Espírito Santo (carne, hortelã, pão, queijo, num caldo de vaca, à volta de 6€) e guardar espaço para um pastel de bacalhau num café qualquer. O Espírito Santo, aqui na Terceira, não é só religião, é gastronomia, é arquitectura (os impérios pintados de cores berrantes que se vêem por todo o lado), é o motor cultural da ilha. Maio e Junho são meses de festas dos Espírito Santo em quase todas as freguesias. Se calharem por aqui nesse período, abandonem o roteiro e sigam o cheiro a carne de vaca cozida.
A Igreja da Misericórdia e o quarteirão dos detalhes
Depois do almoço, voltem ao centro pela Rua de São Paulo. A Igreja da Misericórdia é menos espectacular que a Matriz mas mais íntima. Fachada barroca tardia, interior com talha dourada modesta, um pequeno claustro lateral onde, se tiverem sorte e o sineiro estiver de bom humor, vos deixam espreitar. Não há horário oficial garantido, está aberta de forma irregular durante a semana. Vale a pena tentar.
A partir daqui, percam-se. Sério. A malha urbana é tão regular que é impossível ficarem mal perdidos: cinco minutos a andar em qualquer direcção e estão de novo num eixo conhecido. Mas é nas ruas laterais que aparecem os melhores detalhes: portões em ferro forjado dos anos 1930, azulejos hidráulicos a aparecer por baixo de tinta lascada, varandas com vasos de gerânios, gatos a dormir em soleiras, padarias com cheiro a massa sovada (o pão doce açoriano, denso e ligeiramente brioche, que se come quente com manteiga e é vício imediato).
Não se esqueçam dos Biscoitos: o desvio que vale a pena
Praia da Vitória não é só o centro histórico. A poucos quilómetros, na costa norte da freguesia, fica a zona dos Biscoitos, onde a lava negra encontra o Atlântico e onde, há séculos, se planta vinha em currais de pedra. É um sítio diferente, uma arquitectura paisagística construída por necessidade: o vento não deixa crescer nada sem protecção, por isso fizeram-se milhares de pequenos compartimentos murados, cada um com uma ou duas videiras. Vista de cima, parece um labirinto.
O Museu do Vinho dos Biscoitos conta essa história. É um museu pequeno, gerido por uma família local há gerações, e termina sempre com uma prova de Verdelho dos Biscoitos. Não é o melhor vinho do mundo, sejamos honestos, mas é dos mais raros e dos que mais história têm. O vinho de cheiro, tinto e ligeiramente fortificado, é o mais característico. Levem uma garrafa, custa entre 8€ e 15€ na loja do museu.
A poucos passos, está outra coisa que merece atenção: a cervejeira Brianda, uma microcervejaria que faz IPAs e stouts surpreendentemente competentes para uma ilha no meio do Atlântico. Para quem prefere lúpulo a uva, é paragem obrigatória.
O lado militar (que ninguém esperava ser interessante)
De volta a Praia, e se ainda tiverem energia para mais uma visita, vale a pena passar pelo Núcleo Museológico da Base Aérea Nº4. Sim, eu sei, parece o tipo de museu que só interessa a entusiastas de aviação. Mas há aqui uma história que muita gente ignora: durante a Segunda Guerra Mundial, esta base foi um ponto estratégico crucial. Os Aliados, e em particular os americanos, usaram-na para escala dos voos transatlânticos. Posteriormente, durante a Guerra Fria, manteve-se relevante.
O resultado é que Praia da Vitória teve, durante décadas, uma população temporária americana que deixou marcas: vocabulário, certos hábitos, presença de produtos importados em mercearias locais, e até alguma arquitectura residencial de inspiração americana nos arredores. É uma camada da identidade da cidade que o turista de passagem não percebe.
Como chegar, onde dormir, quando ir
Chegar a Praia da Vitória é fácil porque o aeroporto da ilha Terceira (Aeroporto das Lajes) fica literalmente ao lado, a cerca de 5 minutos de táxi do centro. Voos directos diários de Lisboa (cerca de 2h15) e ligações da TAP e da SATA. De Angra do Heroísmo, a outra cidade principal da ilha, é cerca de 25 minutos de carro pela Via Rápida.
Para alojamento, prefiram o centro histórico se gostam de poder sair a pé. Há várias casas restauradas convertidas em pequenos hotéis ou alojamento local, com tarifas entre 60€ e 120€ por noite na época baixa, podendo duplicar em Julho e Agosto. Para uma estadia mais tranquila, considerem ficar nos Biscoitos, mas vão precisar de carro.
Quanto a quando ir: Maio, Junho e Setembro são os meses ideais. Tempo estável (na medida do possível, isto é uma ilha atlântica, o tempo muda em minutos), menos turistas, e a probabilidade de apanharem festas de Espírito Santo ou as Festas da Praia (em Agosto, com Carlos do Carmo e companhia a animar a baía durante uma semana).
Para quem quer ir além da pé
Se o passeio a pé despertar o apetite por mais, considerem um passeio de bicicleta eléctrica que cobre mais terreno, incluindo a zona da costa e os Biscoitos sem o esforço de pedalar contra o vento atlântico.
Não fiquem só por aqui
A Terceira é só uma das nove ilhas. Se o programa permitir, considerem fazer um salto ao Faial, especialmente à Horta, a cidade portuária cosmopolita onde os veleiros do mundo inteiro fazem escala, ou explorem os melhores miradouros da Horta para perceber porque é que esta é a cidade dos Açores com mais alma marítima. Para quem prefere a gastronomia como porta de entrada, a expedição gastronómica por Ponta Delgada, em São Miguel, é o ponto de partida natural.
Mas voltem a Praia da Vitória. É uma daquelas cidades pequenas que se revela melhor numa segunda visita, quando já não estão a tentar perceber a planta e podem simplesmente reparar nos cromatismos das janelas, no cheiro a maresia de manhã, no rumor das gaivotas que, ao contrário das de Lisboa, ainda parecem ter alguma dignidade.