Casa Museu Vitorino Nemésio
Praia da Vitória
Na Canada do Caldeiro, nos Biscoitos, um museu privado reúne alfaias de vindima, prensas manuais e documentos históricos que contam séculos de viticultura em Terceira. Pequeno, pessoal e rodeado pelos currais de vinha basálticos que tornaram o verdelho dos Biscoitos famoso.
Nos Biscoitos, freguesia da Praia da Vitória onde o Atlântico rebenta contra a rocha vulcânica com uma insistência que já dura milénios, alguém decidiu que a história do vinho desta terra merecia mais do que conversas ao balcão da tasca. O Museu do Vinho dos Biscoitos é um projeto privado, e isso nota-se. Não tem a frieza institucional de um museu municipal nem o ar abandonado de tantos espaços culturais açorianos. Tem, isso sim, a obstinação de quem acredita que as ferramentas enferrujadas do avô contam uma história que vale a pena preservar.
Estamos na Canada do Caldeiro, Biscoitos, 9760-051 Praia da Vitória. Para chegar, siga pela estrada regional que liga a Praia da Vitória aos Biscoitos, uns vinte minutos de carro, serpenteando entre pastagens e muros de pedra solta. Não há transportes públicos que sirvam de forma prática, por isso o carro (ou um táxi com paciência) é essencial. Se estiver a explorar a ilha de Terceira, os Biscoitos são paragem obrigatória de qualquer forma pelas piscinas naturais, e o museu fica a uma curta caminhada dessas mesmas piscinas.
A coleção é dedicada à tradição vinícola de Terceira, uma tradição que remonta a séculos, muito antes do turismo descobrir os Açores. Aqui encontram-se alfaias antigas de vinha e vindima: podões, cestos de verga, prensas manuais, garrafões de vidro soprado. Há também documentos históricos sobre a viticultura açoriana, alguns deles com valor considerável para quem estuda a economia agrícola das ilhas. Não é um museu interativo com ecrãs tácteis, é uma coleção pessoal, organizada com cuidado e aberta ao público.
O que torna este museu particular é o contexto. Os vinhos dos Biscoitos são produzidos em currais, pequenos recintos murados de pedra basáltica que protegem as videiras do vento e do sal marinho. Esta paisagem vitícola, classificada pela sua singularidade, é visível a poucos metros do museu. Sair do espaço e caminhar entre os currais é perceber que aquelas ferramentas expostas não são peças decorativas: foram usadas exactamente ali, naquele chão.
O verdelho dos Biscoitos é um vinho licoroso, doce, com notas de mel e frutos secos, historicamente exportado para a corte inglesa e para o Brasil. A produção é minúscula, estamos a falar de vinhas plantadas em fendas de lava, tratadas à mão, sem mecanização possível. Não é um vinho que se encontre facilmente fora dos Açores, o que torna a visita a este museu uma oportunidade de contexto que nenhuma garrafeira continental oferece.
Se quiser provar os vinhos da região, confirme diretamente com o museu se há degustação disponível durante a sua visita, ligando para o +351 965 667 324. A entrada é acessível, estamos na faixa do €, sem surpresas.
Não vou mentir: se procura entretenimento para crianças irrequietas ou uma experiência tipo Disneyland do vinho, passe à frente. Este museu é para quem tem genuína curiosidade pela forma como uma comunidade isolada no meio do Atlântico transformou rocha vulcânica em vinho durante séculos. É para quem lê os painéis, faz perguntas, e depois quer ir ver os currais com outros olhos.
Se está a seguir o nosso guia sobre o modernismo na Praia da Vitória, o Museu do Vinho dos Biscoitos oferece um contraponto perfeito, da arquitectura do século XX para a agricultura do século XVIII, tudo na mesma ilha, a vinte minutos de distância.
Os Biscoitos, como freguesia, são um daqueles lugares onde o ritmo dos Açores se sente sem filtro. Vacas, muros, vento, mar. O museu é uma extensão natural desse ritmo, pequeno, pessoal, honesto. Vale a visita.