Museu do Vinho dos Biscoitos
Praia da Vitória
A casa do século XVII onde nasceu Vitorino Nemésio, na Rua de São Paulo em Praia da Vitória, reabriu em janeiro de 2025 como museu renovado. Objetos pessoais, fotografias e uma cozinha açoriana tradicional preservada contam a história do homem que inventou a palavra "açorianidade".
Vitorino Nemésio nasceu aqui em 1901, nesta casa do século XVII na Rua de São Paulo, em Santa Cruz, no coração de Praia da Vitória. Não numa casa qualquer, mas numa dessas construções terceirenses de pedra grossa e janelas pequenas que parecem feitas para aguentar ciclones e guardar segredos. O homem que escreveria Mau Tempo no Canal, que apresentaria o programa Se Bem Me Lembro na televisão portuguesa, e que daria ao país a palavra "açorianidade", deu os primeiros passos neste chão.
A Casa Museu Vitorino Nemésio reabriu em janeiro de 2025 após obras de renovação, e a diferença nota-se. O espaço combina agora apresentações multimédia com o acervo original, objetos pessoais, fotografias, documentos, sem cair na tentação de transformar tudo num ecrã táctil. A cozinha açoriana tradicional, mantida no piso térreo, é talvez o elemento mais honesto de toda a visita: o fogão de lenha, os utensílios, a disposição do espaço. É ali que se percebe de onde vem a escrita de Nemésio, daquela relação direta com a terra, com o mar, com a comida que se põe na mesa.
Não é um museu grande. É uma casa, e deve ser visitada como tal, sem pressa, lendo as legendas, parando nas fotografias de família. Os materiais multimédia acrescentados na renovação ajudam a contextualizar a obra de Nemésio para quem nunca o leu, mas se já conhece Mau Tempo no Canal, a visita ganha outra profundidade. Vai reconhecer a paisagem, as referências, o tipo de gente que ele descreve.
A entrada é acessível, estamos a falar de um preço simbólico (€), o que faz deste um dos programas culturais mais baratos da ilha Terceira. Para quem se interessa pela presença do modernismo na Praia da Vitória, esta casa-museu é um ponto de partida natural: Nemésio foi uma figura central na cultura portuguesa do século XX, e a sua ligação à Terceira permeia tudo o que escreveu.
A casa fica na Rua de São Paulo, na freguesia de Santa Cruz, a poucos minutos a pé do centro de Praia da Vitória. Se estiver a vir da marina ou da baía, suba em direção à igreja e pergunte, toda a gente sabe indicar. Não há estacionamento dedicado, mas as ruas em volta costumam ter lugares disponíveis, especialmente fora da época alta.
Os horários de funcionamento não estão publicados de forma fiável online, por isso o melhor conselho que posso dar é ligar antes: +351 295 540 106. Confirme diretamente, especialmente se visitar fora da época de verão ou em dias de feriado. O site da câmara municipal tem informação adicional em cmpv.pt, mas a chamada telefónica continua a ser o método mais seguro nos Açores.
Não é necessário reserva. Não há código de vestuário. É uma casa-museu municipal, descontraída por natureza. Reserve entre 30 a 45 minutos para a visita, mais se quiser realmente ler tudo e absorver os materiais multimédia.
Praia da Vitória é muitas vezes ignorada pelos visitantes da Terceira, que tendem a concentrar-se em Angra do Heroísmo. É um erro. A Praia tem uma baía larga e bonita, um centro histórico reconstruído após o terramoto de 1980 com um cuidado que raramente se vê em Portugal, e uma relação com a cultura açoriana que é menos polida e mais autêntica do que a de Angra.
Nemésio percebeu isto. Nasceu aqui, não em Angra, e há qualquer coisa de significativo nisso. A sua escrita tem a franqueza da Praia, menos fachada, mais substância. Visitar esta casa é perceber isso de forma física: o tamanho modesto das divisões, a proximidade do mar, a cozinha onde a família se reunia.
Depois da visita, desça até à baía e tome um café. Ou vá até uma das tasquinhas do centro e peça alcatra, o prato terceirense por excelência, cozinhado lentamente em panela de barro. É o tipo de refeição que Nemésio teria reconhecido.