Porto Moniz: O Que Comprar (e Evitar) nos Mercados Locais
Porto Moniz não tem um grande mercado, mas tem mel de cana escuro como petróleo, lapas a chiar em frigideiras de ferro, e poncha batida na hora. Eis o que comprar, o que provar, e o que deixar na prateleira.
A maioria das pessoas vai a Porto Moniz pelas piscinas naturais de lava. Mergulham, tiram a fotografia, almoçam qualquer coisa e seguem caminho. É um erro. Porque Porto Moniz, apesar de pequeno, é um dos melhores sítios na costa norte da Madeira para provar e comprar produtos locais com calma, longe da multidão do Mercado dos Lavradores no Funchal.
Não vão encontrar aqui um grande mercado coberto com bancas numeradas. O que existe é melhor: uma constelação de pequenas lojas, vendedores locais, e uma ou duas paragens obrigatórias onde o produto é fresco, o preço é justo, e ninguém vos vai tentar enfiar uma peça de bordado Madeira de 200 euros na mão.
Comece pelo pão, como deve ser
Qualquer dia bem passado em Porto Moniz começa com bolo do caco. Este pão de batata-doce, cozido em pedra, é uma das coisas mais simples e mais perfeitas da gastronomia madeirense. Quente, com manteiga de alho derretida por cima, é o tipo de pequeno-almoço que faz esquecer qualquer croissant parisiense. Encontram-no em praticamente qualquer restaurante ou snack-bar da vila, mas o truque é pedi-lo fresco, logo de manhã. Depois do meio-dia, muitos já estão a servir os que sobraram.
Perto de Porto Moniz, a padaria Rodripan também merece o desvio. Além de pão excelente, fazem pastéis de nata e rissóis a preços que fariam chorar qualquer pastelaria de Lisboa. Uns quantos biscoitos de mel, as famosas broas de mel da Madeira, com canela e noz-moscada, são o tipo de coisa que se compra para levar e se come no carro antes de chegar a casa.
Frutas e legumes: o que vale a pena
A costa norte da Madeira tem um microclima particular, mais húmido e mais verde que o sul. Isso traduz-se em frutas com um sabor diferente, mais intenso. Se encontrarem uma banca local ou uma loja de produtos regionais, procurem:
- Anona (fruta-do-conde): A anona da Madeira é protegida por denominação de origem. A polpa é cremosa, doce, ligeiramente ácida. Se nunca provaram, imaginem uma mistura entre banana e ananás, mas melhor que ambas. Comprem uma que ceda ligeiramente ao toque. Se estiver dura como pedra, vai precisar de uns dias para amadurecer.
- Maracujá: O maracujá madeirense é mais pequeno e mais aromático que o brasileiro. Comam-no às colheradas, directamente da casca. Ou peçam um sumo natural. Muitos restaurantes em Porto Moniz fazem-no na hora.
- Banana da Madeira: Mais pequena, mais doce, e com uma textura completamente diferente da banana de supermercado. A diferença é real, não é marketing.
O que evitar? Fruta embalada em cestinhos de vime com laços de fita, vendida como "presente típico". É a mesma fruta, ao dobro do preço. Comprem avulso, directamente ao produtor se possível.
Mel de cana e aguardente: o verdadeiro ouro da Madeira
Se há uma coisa que devem levar de Porto Moniz na mala, é mel de cana. Não confundir com mel de abelha. O mel de cana é um melaço espesso, escuro, feito a partir do sumo de cana-de-açúcar, e é um ingrediente fundamental na doçaria madeirense. Usam-no no bolo de mel, nas broas, e como cobertura para sobremesas. Uma garrafa pequena custa entre 3 e 6 euros nas lojas de produtos regionais, e dura meses.
Depois, há a aguardente de cana, a base da poncha. A aguardente madeirense é produzida por destilação do sumo de cana-de-açúcar, e é completamente diferente da cachaça brasileira. Mais seca, mais rústica. A poncha clássica mistura aguardente com mel de abelha e sumo de limão, batida vigorosamente com o mexelhote, aquele instrumento de madeira que parece um objeto de tortura medieval mas na verdade produz uma das melhores bebidas do Atlântico.
Na vila, praticamente qualquer bar faz poncha. Peçam a regional, com sumo de laranja e maracujá, e comparem com a tradicional de limão. A regional é mais suave, perfeita para quem acha a clássica demasiado agressiva. Um copo custa entre 2,50 e 4 euros, dependendo do sítio.
O que saltar: poncha engarrafada vendida como souvenir. Perde metade do sabor. A poncha bebe-se fresca, feita na hora.
Peixe e marisco: o que pedir, o que ignorar
Porto Moniz tem uma tradição piscatória que remonta à fundação do povoado. Os restaurantes junto às piscinas naturais servem peixe fresco, mas é preciso saber escolher.
As lapas grelhadas são obrigatórias. Estas pequenas cracas, grelhadas com manteiga de alho e limão, são um clássico da costa madeirense. Servidas numa frigideira de ferro, chiam quando chegam à mesa. Peçam-nas como entrada e não as partilhem com ninguém.
A espada preta é o peixe-bandeira da Madeira. Parece um alien, com olhos enormes e corpo comprido e escuro, mas o sabor é delicado e a textura firme. Tradicionalmente serve-se com banana frita, uma combinação que parece estranha até se provar. Depois disso, faz todo o sentido.
O que evitar: pratos genéricos de "peixe grelhado" sem especificação. Se o empregado não sabe dizer que peixe é, provavelmente foi congelado. Perguntem sempre o que é fresco do dia.
Artesanato e souvenirs: separar o trigo do joio
Aqui é onde a maioria dos turistas deita dinheiro fora. Porto Moniz tem algumas lojas de souvenirs, e a maioria vende o mesmo que se encontra em qualquer sítio turístico da Madeira: ímanes de frigorífico, mini-garrafas de vinho Madeira de qualidade duvidosa, e bordado que pode ou não ser genuíno.
O que vale a pena:
- Licores regionais: Licor de maracujá, de ginja, ou de castanha. As versões artesanais, vendidas em garrafas simples sem rótulo elaborado, são geralmente melhores e mais baratas que as de marca. Provem antes de comprar, a maioria dos vendedores deixa.
- Mel de cana e broas de mel: Já mencionei, mas vale repetir. São leves, viajam bem, e toda a gente gosta.
- Vinho Madeira: Mas apenas se souberem o que estão a comprar. Um bom Madeira de 5 anos de uma casa como Blandy's ou Henriques & Henriques é um presente sério. Uma garrafa sem indicação de casta ou idade, vendida por 5 euros numa loja de souvenirs, é para esquecer.
Se o artesanato madeirense vos interessa a sério, considerem fazer o desvio até Santana, onde a tradição é mais forte. O guia sobre artesanato de Santana dá-vos as coordenadas certas para compras com substância.
A rota: como organizar o dia
Porto Moniz funciona melhor como parte de um dia inteiro na costa norte. A estrada desde o Funchal, pela ER101 ou pela ER104 via São Vicente, é das mais bonitas da Madeira, com túneis escavados na rocha e vistas sobre o oceano que justificam cada curva.
O meu conselho: saiam cedo do Funchal. Cheguem a Porto Moniz por volta das 9h30, antes dos autocarros de turistas. Comecem pelo bolo do caco e um café. Passeiem pela vila, visitem as lojas de produtos regionais. Almocem peixe junto às piscinas. Depois do almoço, se o tempo permitir, as piscinas naturais de lava vulcânica merecem o mergulho, confirme os horários e preços localmente.
Se ainda tiverem energia, Porto Moniz é também ponto de partida para experiências mais intensas. O canyoning na Ribeira da Laje é uma das melhores formas de explorar os vales da costa norte, entre cascatas e rochas vulcânicas.
Na viagem de regresso, ou no dia seguinte, vale a pena explorar as levadas perto do Funchal, os canais de irrigação transformados em trilhos pedestres que são uma das melhores experiências da ilha.
O que levar para casa (resumo prático)
- Mel de cana: 3-6€ a garrafa
- Broas de mel: 2-4€ o pacote
- Licor artesanal de maracujá: 5-10€
- Anona fresca (se o voo for curto): 2-4€/kg
- Vinho Madeira de casa respeitável: 10-25€ para um 5 anos
E se quiserem estender a exploração da costa norte, Santana merece pelo menos 24 horas. É outra Madeira, mais rural, mais lenta, e com uma personalidade completamente diferente do sul.
Porto Moniz pode ser pequeno, mas compensa em autenticidade. Não venham à procura de um mercado fotogénico para o Instagram. Venham à procura de lapas a chiar numa frigideira, de uma poncha batida à vossa frente, e de mel de cana tão escuro que parece petróleo comestível. Isso sim, vale a viagem.